Friday, November 22, 2024

40 - Sobre o inicio do mundo

 

Cap. 40 - SOBRE O INICIO DO MUNDO:

Porquê haveria esta energia de mudar de estado?

 

      Mas então como começou o mundo? Talvez fosse este sábio senhor, de venerável atitude em seu psicótico e genial surto de criação tenha querido uma realidade companheira à sua solidão, ou então de um nada vazio e mais abstrato que a mais abstrata das idéias, já que se pensar que algo pode surgir do nada é inconcebível. Uma taça não pode surgir do nada, mas sim da formação do vidro que é por sua vez constituído de areia, que se forma nas praias através da decomposição de muitos resíduos e assim por diante numa cadência interminável e cíclica. Fora este um questionamento de Tomás de Aquino querendo comprovar a existência de uma força autora, recaímos inquestionavelmente na mesma concepção já que as idéias essenciais ( como anteriormente dito ) são únicas, e todos aqueles que percrustarem-las chegarão à mesma concepção, sim, são subterfúgios voltados à explicação de que muitos terão idéias iguais sem consultarem uns aos outros, porque o campo de determinadas idéias é universal, basta dar o primeiro passo. É inviável dizer que todo do nada se criou, entretanto há uma ínfima possibilidade disto haver ocorrido se pensar-se que há uma realidade tão maior e distante de nós que não possamos sequer pensar sobre seus parâmetros, fugindo de leis e conceitos considerados como imortais. O universo por certo nunca foi criado, sempre existiu. Sempre é tempo demais, quê poderia ser há uns quantos tempos atrás? Uma bolota de massa? E antes? E antes? E antes? Porquê haveria esta energia de mudar de estado já que ela estava há um tempo infinito no mesmo estado? Pois do mesmo modo que este infinito se estende para trás poderia se estender para frente. Numa concepção burlesca notamos que este foi o exato momento em que Deus sentado à sua mesa, cansado de não fazer nada decidiu criar seu projeto e logo pô-lo em andamento, mas surte demasiado cômico, entretanto tal é nosso nível de entendimento que precisamos com urgência da idéia de um Deus para conseguir conceber num entendimento cabível o surgimento de algo do nada, do contrário é faltoso o nexo entre as idéias.

       É bastante convidativo pensar-se que o universo sempre existiu e nunca precisou ser criado, já que assim tudo soa de maneira mais natural sem a necessária intervenção de uma força criadora, neste caso Deus não existe, quê dizer então de nossas complexas vidas, com um cérebro desenvolvido, sentimentos e um corpo bastante capaz? Seria um acaso bem pouco provável desenvolver-se um organismo de tamanha magnitude, recorreríamos então à um arquiteto? Por quê então... pressupondo que sempre tenha existido o universo tal qual já é, e levando em consideração a infinitude do tempo no antes e no depois, não tenha surgido o homem alguns poucos trilhões de anos antes do que surgiu?

 

A - Reflexões sobre a morte ( por conseqüência sobre a vida )

 

      Basta dizerem que a vida é incerta para que se acredite nesta pérfida afirmação. Mas a vida é muito mas do que isto, quando resolvermos refletir sobre a morte logo nos vemos obrigados a pensar em qual é o sentido da vida. Se a morte é o fim de tudo: o que seria a vida? Um lapso do caminho para o nada? Caminhamos então para o fim. Ó glória das glórias, prazer eterno da mais elevada virtude, caminhar para o fim. Então estamos todos a caminho da morte, sim, mas antes que tudo acabe vamos fazer alguma coisa... sim podemos ter muitos progetos e fazer centenares de coisas neste trajeto que é a vida, trageto que finda num obscuro abismo, não! Nem isto pode ser, pois um obscuro abismo é alguma coisa e a morte é o nada, pois se estamos caindo num abismo existimos e não mais existiremos...

      Se soubesse que morreria amanhã que eu iria fazer hoje? Algo diferente do que já faço comumente em minha vida? Morrer amanhã não é a mesma coisa que morrer em 10, 20, ou 100 anos? A morte é a mesma de qualquer jeito, e a vida escolhida por certo também será decidida sob a mesma pressão seja em um dia ou cem anos.

      Viver é ser feliz! Mas que frase magnífica, mas como ser feliz sabendo que um dia a vida  vai se esvair? Esta é a grande paródia da vida, muito interessante sorrir todos os dias sabendo que a morte virá... Não faz o menor sentido um escritor ficar escrevendo um livro por anos e anos a fio e saber que quando terminar de escrever seu livro irá ser queimado por uma obra obrigatória do destino, se ele souber que isto vai ocorrer por qual motivo iria ele escrever este livro? Talvez somente para passar o tempo pois não tem outra coisa mais interessante para fazer. Assim então, do mesmo modo, vivemos somente para passar o tempo pois não temos outra coisa interessante para fazer... Um arquiteto faz por anos e anos seguidos um magnífico projeto de belíssima construção, mesmo tendo absoluta certeza de que esta sucumbirá no momento em que estiver pronta, e qual a força que poderia levar ele a fazer isto? No mesmo caso se enquadra esta idéia...

     Partindo deste princípio, e notando que estamos vivendo, podemos com a melhor lógica de que dispomos concluir que a vida têm um sentido evidente, viver seria então um processo que teria como repercussão a morte, assim, a morte se nos apresenta como um resultado de um intenso trabalho de viver. Sempre trabalha-se no objetivo de conseguir-se algo, mas quê seria este logro pós vida? Tornar-se um arcanjo celeste? Contemplar os feitos conseguidos em vida e nos vangloriarmos com todas as pompas? Mas neste caso ainda estaríamos vivos, e por certo diríamos que a vida está continuando, logo ela não se esvaiu, e por certo o projeto não se acabou. Haverá uma outra morte depois da morte? Faz sentido pois se não houver esta outra vida perde sentido. O que dá sentido à vida é a morte. O que dá sentido à um projeto é saber donde se acaba este. Pois então o processo existencial seria uma sucessão de muitas mortes. O que é bastante estranho, pois para que a morte seja considerada o fim deve-se acreditar que é lá que acaba-se tudo, é como dizer: Eu acredito piamente que o projeto que estou fazendo termina exatamente neste ponto. Mas se a pessoa diz: O projeto que faço pode acabar aqui, mas depois acho que vou fazer isto assim ou daquele outro jeito, então esta pessoa está fadada a se perder, pois qualquer projeto que não tenha uma pretensão específica se perderá. Pois então devemos acreditar na morte para que a vida tenha sentido, do contrário: se tivéssemos certeza de que a vida não se estingue estaríamos sujeitos a cometer confusões nas vivências.

       São reflexões comparativas à respeito da vida e do existencialismo. Qual é portanto o sentido da vida? Seria procurar o sentido da vida? Ou seja: o sentido da vida é procurar o sentido da vida, para assim se aproximar à realidade, e, aquele que mais se aproxima da realidade pode ser considerado como mais vivo que o outro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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quarta-feira, 30 de abril de 2003

domingo, 4 de maio de 2003

sábado, 10 de maio de 2003

terça-feira, 13 de maio de 2003

quarta-feira, 14 de maio de 2003

quinta-feira, 15 de maio de 2003

sábado, 17 de maio de 2003

sábado, 24 de maio de 2003

domingo, 25 de maio de 2003

sexta-feira, 30 de maio de 2003

terça-feira, 24 de junho de 2003

quinta-feira, 26 de junho de 2003

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

        

 

 

 

39 - Capítulo das aprendizagens

 

Cap. 39 - CAPÍTULO DAS APRENDIZAGENS

Surge então das catacumbas do silêncio a idéia em estado primitivo.

 

       Todo processo de pensamento repercute numa abstração, o que representa algo a mais que o raciocínio, um nível acima, um processo libertário. Esta abstração é transmitida à outrem, o modo como as pessoas movem as sobrancelhas é a abstração de um processo de pensamento, mesmo que ela não o saiba ou não esteja no intuito de transmiti-lo, pode portanto ser transmitido inconscientemente. Num jogo de baralho pode-se combinar códigos numa dupla, estes códigos transmitidos como sinais não deixam de ser abstração de idéias, a linguagem é uma abstração de idéias. A própria corrida também é abstração de idéias já que fazendo uma análise no modo como uma pessoa corre podemos supor que estado psíquico ela está, mesmo que ela fale que não está assim, pois como dito o processo pode ser inconsciente: se corre batendo o pé com força, olhando para baixo, para cima, para o que chama a atenção, para o nada, com braços caídos, afastados, com coluna arqueada, boa postura, etc...  Levando em consideração tudo o que foi dito faremos a seguinte consideração: Como seriam as idéias em sua maneira mais abstrata e primitiva? Sem a necessidade da ferramenta que a transporta. ( linguagem, sinais, corrida. )

       Sim! Sim! Tudo é suscetível à interpretação, não é dito que o mais importante é a intenção? Intenção representa essência, no entanto existem essências que requerem determinados parâmetros para que sejam interpretadas de maneira correta e quase absoluta ( absoluta nunca! )

      É isto! O processo da abstração inicia-se quando grandes textos transformam-se em frases, e logo em escassas palavras, os que seguiram o processo as entenderão, enquanto outros julgarão essas palavras loucura desproporcionalmente sem nexo. O processo continua até que tudo retumbe num silêncio mortal . Surge então das catacumbas do silêncio a idéia em estado primitivo, que é ao mesmo tempo a descoberta da essência.

      A chave agora meus amigos está em suas mãos! Pode agora abrir a cela e sair da masmorra, saia correndo e ouça o silêncio da realidade.

ESSÊNCIA – REALIDADE – PIMITIVISMO – SILÊNCIO = LIBERDADE

 

      A -Sobre a novidade

      Pois então a novidade! A novidade representa tudo aquilo que não fazemos comumente, por isto existe estranheza naquilo que é novo: Um novo serviço, um novo hábito, um novo esporte, um novo livro, uma nova vontade, uma nova idéia, modo de pensar, questionar, refletir, dialogar. Das árvores mudamos para cavernas, insatisfeitos criamos projetos e realidades de  barracas, casas, prédios, hotéis, aparte hotéis e finalmente os magníficos flats para morar confortavelmente. Quê é isto senão a mudança? Tudo é de descomunal dificuldade, entretanto, por ordem do acaso ou da necessidade de sobrevivência, a humanidade é adaptável ao novo. Não é portanto digno apresentarmos subterfúgios à nossa própria consciência no intuito de continuarmos em nossa letárgica modorra: experimentemos, portanto, novos horizontes.

      É por isto que muitos repudiam novas idéias, julgando não ser-lhes viável, são sim obtusas luzes ou sombras jamais experimentadas antes.

      Grandes sábios não foram entendidos em seus tempos. A humanidade tem medo da transformação, foge dela lutando com unhas e dentes, sim, como se fugisse da morte! É evidente que falta a coragem do arriscar. Quem não se arrisca a correr nas sendas desta floresta, não verá por certo as magníficas nuances de uma bela cadeia de montanhas magistralmente posicionadas, como se um artista mor houvesse previsto as virtudes de sua arte.

       A novidade após consolidada exige uma nova aprendizagem de conduta e valores, o que constitui uma mudança intrínseca. Transformar hábitos já incrustados nas mais sólidas de nossas essências é algo tão difícil quanto emergir à luz após intensos anos de escuridão: os olhos nada enxergam após muitos dias, até acostumarem-se à claridade de um novo conhecer, e ainda assim continua a ser dificultoso usar os olhos. Pois do mesmo modo uma mudança exige insistência e aprendizagem, não é fácil sair de um treinamento de corridas de dez quilômetros e começar a treinar para maratona, tampouco de 5.000 mts. Passar para triathlon. Toda mudança exige grande dispêndio de energia, o comodismo deve se esvair. Certa vez um atleta Iron Man ( Porventura chamado Paulo ) disse-me que o ideal de um atleta é participar de todos os tipos de competição até que encontre o que mais se adequa à ele, ou seja: não é o atleta que escolhe a competição, mas sim a competição que escolhe o atleta, e para isto respectivamente haja experimentação para que se encontre a prova ideal, onde o sujeito melhor se adapta fisiologicamente e mentalmente. Para se experimentar a maior quantidade de tipos de prova deve-se ser um verdadeiro mutante, sempre disposto a experimentar sensações físicas diferente e treinos diversos. Isto indica que um dos fatores que constrói os alicerces de um bom atleta é o próprio encontro da prova ideal à ele, isto exige ( até que se deflagre este encontro ) constantes mudanças, saímos então da situação de comodismo com treinos iguais, monótonos e repetitivos durante toda uma carreira.

       Aprender, mas que palavra mais instigante... Tão importante quanto a própria vida, é de supra leviandade esquecer ou destituir esta palavra de nosso vocabulário cotidiano, uma invejável conduta seria aprender por toda uma vida, justo como diz o ditado: Vivendo e aprendendo. Aprender para mudar ou mudar para aprender? Eis uma curiosa pergunta... A ordem destes fatores em si não é de tamanha importância a ser discutida, mas sim a irrefutável dignidade destas duas palavras, sim: é se necessário aprender e de igual maneira mudar, pois de nada adianta apenas mudar sem aprender, pois o aprender fornece-nos sólidas bases a continuar no que foi inovado.

38 - O pêndulo do bem e do mal

 

Cap 38 - O PÊNDULO DO BEM E DO MAL.

Um pendulo que ora oscila à direita ora à esquerda...

 

      Nos atenhamos agora à seguinte descrição:

      “Era uma maratona por certo, mas a dúvida me percalçava já que sabia haver treinado, mas não tão adequadamente como se demanda uma maratona, havia com isto não uma desconsideração mas sim uma espontaneidade e pouca seriedade em minhas reflexões, logo comecei a correr, ou melhor andar já que ironicamente me encontrava detrás de uma extensa quantidade de caminhantes, após abrir espaço e fazer cortes como quem anda numa densa floresta com uma foice a cortar mato cheguei à parte dos corredores que pareciam de maneira incrível e fastidiosa andar mais lentamente que os próprios caminhantes. Quê engraçada aquela cena, numa corrida onde deveria mensurar minhas capacidades e potenciais físicos saí os três ou quatro primeiros quilômetros tão devagar quanto uma preguiça, mas não me quedei desalentado com isto, estava com aquele espírito de espontaneidade que não vê qualquer coisa que possa se parecer problemas, os fatos são sempre os fatos e tudo depende de como são interpretados, tendo em vista isso diz-se que nada pode ser designado pois tudo é maleável, e somente se torna algo quando submetido ao processo de interpretação... Esta ladainha é de maneira compacta o que se refere à minha interpretação mansa daquele acontecimento tão manso quanto minha interpretação por certo. Após tanta mansidão o ritmo começou a aumentar, não se tornou vertiginoso, talvez na realidade nunca tenha se tornado, sim minha interpretação pode ter me dado a sensação de que sim.Quanto correria? Dez? Quinze? N~`ao tinha naquele momento nenhuma obstinação fervorosa com relação à completar a prova, o desejo era sim participar de maneira proveitosa e agradável, assim, pouco a pouco desenvolvi um ritmo mais acentuado notando que haviam momentos em que meu organismo e minha mente relutavam contra min, proclamavam com veemente persistência que tudo estava errado, que o terrificante sofrimento era sinal de que não me adequava à situação, e de que aquilo era infinito, continuaria numa cadência interminável, eu estava mal e todos estavam bem, este era o pensamento dominante. Entretanto estes eram breves momentos e após algumas centenas de metros se extinguiam de maneira quase que mágica. Como pode isto? Perguntei-me a min mesmo naquele momento, notando que o fato era digno de posteriores comentários. Esta mudança de cadências além de transmudar no âmbito físico se apresentava vigente no campo psicológico e a velocidade de maneira magnífica superava as concepções de expectativas pessoais mais pretensiosas que pudesse eu fazer. Assim pensava estar bem, o que propriamente era verdade, sentindo a leveza e as sutilezas da corrida que percorre o asfalto como uma dança de harmonia incomparável. Não fazia excessivo calor, pode-se dizer que estava frio, e os ventos escaldavam-se por minha face de maneira que dava mais coragem à esta sublime harmonia, mas logo tudo se desmoronava transformando-se numa parca lembrança, pois dominava-me o amargo sofrimento. É este um jogo de constantes mudanças, um pendulo que ora oscila à direita ora à esquerda, ora a exacerbada plenitude, leveza e sutileza, ora o amargor, confusão e tristeza. É possível deixar este pendulo estagnado no centro? Não! Em hipótese alguma, pois o tempo iria parar, o que nos faz viver é o sofrimento, e o sofrimento é a base para que se consolide a transformação, sofrimento incita a mudança que traz o paraíso da sutil harmonia, é ele que traz o movimento, mudança, transformação, e risco, há também medo envolvido com o sofrimento. Pois sofrer é condizente com o justo momento em que estamos abrindo as grades daquela pérfida e maldita prisão, para tentar sair do sofrer, para conhecer o desconhecido, por isto oscilamos entre o bem e o mal durante a corrida.

      Corria mediado destas mudanças, meado ainda na despreocupação com qualquer coisa, duma maneira espontânea. Isto me dava forças adicionais já que a obrigatoriedade trás a tristeza e em seguida desilusão, é arriscado querer alguma coisa. Querer completar uma metragem especifica pode ser o motivo da desilusão, mas quando o sujeito nada quer não deve satistação à sua própria consciência, o que é uma divida cruel e pesada ( Diz-se consciência pesada ). Não haviam objetivos determinados, a criatividade é sempre originada da espontaneidade e traz a liberdade( Observação: curiosamente vejo que nossos assuntos se encaixam de maneira graciosa com as divagações sobre chaves forjadas com os materiais mais criativos e lustrosamente espontâneos que possam haver no mundo. ) Sem me debater ou ficar com remorso parei derrepente no quilômetro dezessete, foi o momento em que notei que o auge do desempenho iria se desfalecer, e as dores do pendulo se intensificavam de maneira estrondosa. Quê acontecia? Possivelmente o pendulo se movia de maneira tão lenta que muito tempo ficava nas dores para depois muito tempo ficar na sutileza e leveza Nas áureas sensações da chegada. Isto não presenciei pois parei!”

37 - O calabolço da consciência

 

Cap 37.  - O CALABOUÇO DA CONSCIÊNCIA.

Está a realidade construída sobre bases tão sólidas que não possam ser desfragmentadas ou derretidas?

 

      Aqui então estamos nós! Estudiosos da corrida submetendo-a sob o abrangente e infinito prisma da vida, libertando de uma jaula o cérebro, que muitas vezes reluta por livre e espontânea vontade em entrar na jaula da ignorância, como um petulante ser, imbuído de ideais repetitivo, monótono e cansativo de tão patético. Relutamos aqui por certo a abrir esta prisão no intuito de conhecer o mundo da liberdade, a vida, a verdadeira vida que se constitui da capacidade real de buscar a verdade por caminhos irregulares e não tão mesquinhos e desfavoráveis quanto pode ser uma vida monótona e linear. A amplitude de nossas divagações é de tal maneira maleável que não somos aqui submetidos à quaisquer restrições de caráter metodológico, e nossa chave é certamente composta dum material mas reluzente, perfeito e forte que o ferro, bronze ou aço. Quiçá seja este material mais bem estruturado que as inescrutáveis essências do titânio! É este forjado nos moldes de nossa mente e comumente chamado de criatividade. A atividade da criação, não se aceita aqui qualquer comodismo de caráter estagnado e supérfluo. Sim meus amigos! Caminhemos através das sendas mais desconhecidas que se nos possam surgir pela frente, e se possível caminhar e correr por elas, sejam matas cerradas ou desertos áridos, mas ao menos nos arrisquemos a tropeçar numa raiz ou morrer de sede, mas que saiamos com glórias e pomposas aclamações daquela pequena jaulinha que é a pérfida e escabrosa ignorância.

      É certo que são poucos os que encontram a chave, os que a forjam com as próprias mãos, as mão da consciência, da moral e da busca que é nada mais que o nascimento da liberdade, e a liberdade meus amigos nada representa além da vida, porém não seria aprazível que vos enganasteis com palavras abstratas e comparações artísticas, ou mesmo com estas explanações de analogias literárias. Por isso é  acima de tudo irrevogável ver que a vida por certo é a liberdade da filosofia e não necessariamente do corpo, embalsamada e novos conceitos, visões, idéias, e por que descartar aquilo que designam por estado de loucura, já que esta não passa da genialidade... Loucura... Loucura... Por certo é chamado de louco aquele que se distingue de um todo comum, pois que sejamos nós os viajantes dos loucos mundos, diferenciando-nos de todos os simplórios seres destituídos de liberdade. Muito alegres estamos amigos leitores, pois nós somos os detentores das chaves, sim! Muitas chaves! Cada qual abre uma das jaulas de nossa consciência: a chave da criatividade, da inteligência, da razão, da emoção, da divagação, da busca e a do próprio risco que há nisso tudo: tropeçar numa grande raiz, mas logo se levanta e toma outro rumo nesta grande e interminável maratona. Vejam vocês que fato erroneamente caracterizado como burlesco: o molho destas chaves é chamado de loucura. É, pois, digno de bom senso correr como louco se é isto o que caracteriza a liberdade e, por conseguinte a vida. Corramos meus amigos e leitores, corramos aos ideais da loucura, sorrindo, saltando, cantando e sentindo os detalhes da busca, já que corremos atrás da própria consciência do que é a vida e de quem ou do quê somos nós.

       Lapsos de busca da realidade da vida insurgem-nos em alguns momentos, é bastante confuso pensar na idéia de que não conhecemos a realidade, e ao mesmo tempo nos revigora uma sensação infantil de curiosidade, há entretanto os que já se julgam tão amadurecidos que de tanto amadurecer já viraram pedra e não mais julgam que há algo a aprender sem suas vidas, algo de incomensurável importância que possa modificar os sólidos alicerces que sustentam suas concepções de vida. Pois é isto justamente de que trata a filosofia, para desmistificar a realidade, modificando-a, codificando-a, acrescentando detalhes à ela ou como com grande honra poderíamos aqui recalcitrar: acrescentando nuances à ela. Nuances estas que podem desequilibra-la fazendo com que a torre de nossas concepções desmorone.

      Sejamos entretanto menos românticos e mais diretos. Os sonhos ( esta palavra aqui esta posta representando: vontades ), por exemplo: por muitos considerados como detalhes e outro contingente desconsiderado ( talvez por aquelas pedras supradescritas ) Quê são os sonhos senão a própria realidade? O princípio da realidade. Pode então a realidade tornar-se uma conjectura vazia e o sonho constituir a própria realidade? Quais são nossas idéias, portanto, do que seria entendido por realidade? O abstrato das idéias são reais? Um corredor maratonista pode ser acometido de brevíssimos surtos de idéias sobre o fato de ele se tornar um atleta do mais alto nível, tornando-se veloz como um raio, e capaz de ganhar qualquer competição, coisa que no momento está fora de sua realidade e que consta somente como uma louca idéia ( Lembremos deste termo, por favor ) nascida e uma imaginação excessivamente fértil, o que ele mesmo muitas vezes se sente em desagrado com suas idéias fora de controle. Assim consta que esta lapso de sonho é já um principio de realidade pois para que se concretize requisita alguns outros fatores como vontade, persistência e continuidade no treino. Com isso este corredor de maneira gradativa cambia sua realidade antiga de atleta participativo para atleta competitivo. Proponho então, mediante as últimas dissertações, a seguinte questão: É o sonho o princípio da realidade? Ou seja: A realidade propriamente dita? Está a realidade construída sobre bases tão sólidas que não possam ser desfragmentadas ou derretidas? É a realidade uma jaulinha compacta e pequenina que não haja espaço para a liberdade do livre caminhar das idéias, proposições e teorias filosóficas? Pensemos portanto, neste simples exemplo de refutação da realidade apresentado, pois de outros modos podemos contestar as masmorras nas quais estamos inseridos.

      Temos portanto uma transmutação que, quando ocorre, segue uma determinada cadência, esta constitui-se de:

Sinopse:

SONHO – VONTADE – CHAVE – LIBERDADE

      O caminho, já com a liberdade adquirida, é envolvido de mistério, já que perpassa o desconhecido campo da mutação de realidade. Tudo se inicia com um sonho, que se descortina numa possível vontade, a chave representa evidentemente o desenvolvimento de potenciais letárgicos e adormecidos como a criatividade, inteligência e audácia de filosofar ao mais longínquo recôndito do inexplicável. Tendo sido forjada uma chave suficientemente forte para não se quebrar faz-se um caminho sem rumos delineados chamado de liberdade, assim se chega a lugar nenhum, pois não haverá por certo um final desta floresta desconhecida e densa designada como noção de realidade. Que seja assim, pois melhor é vagar eternamente num desconhecido mundo de derrotas e glórias que julgar-se conhecedor de uma jaula, sabendo que esta sim têm um fim bastante delimitado.

      Não obstante é sedo para concluir-se muitas coisas, já que: Quem vive não sabe o que é viver! Quê devemos então fazer? Sair da perigosa floresta e retornarmos à masmorra como avestruzes idiotas? Repercutindo na ignorância do processo da constante adaptação à realidade mutante? Seria por certo isto uma petulância de nosso processo de descoberta, ou seja minha e tua petulância. Mas o que é viver? Quem vive precisa saber o que é viver? Quem faz a compra de um belíssimo televisor de última geração precisa conhecer seus mais intrínsecos processos de funcionamento para utiliza-lo? Sim meus leitores: é esta a analogia mais simples que podemos fazer relacionada a este aparelho altamente tecnológico que se chama viver, viver é sim nosso aparelho da mais última geração que se possa imaginar, porque como já dito está em constante câmbio, mudança e transformação: se num dia julgamos que nos entendemos e conhecemos noutro logo vemos uma realidade completamente diferente, para não ser drástico ou cataclismático direi então que mudamos um detalhe aqui e outro ali, não deixando com isto de haver um avanço ou retrocesso desta tecnologia que se chama vida. As nossas próprias vidas. Insisto, entretanto, nesta idéia e por certo hei de encontrar uma solução!

       Não precisa pois o sujeito conhecer o processo de produção das cores, a totalidade do processo de transformação da eletricidade em luzes, o funcionamento das ondas eletromagnéticas enviadas pelas emissoras de televisão, a origem da energia enviada para a tv, a transferência de energia cinética em elétrica ocorrida numa hidroelétrica fornecedora de energia à sua cidade, ao projeto arquitetônico exigido para que esta fosse construída, as chuvas que formam os rios, à evaporação da água, ou a condensação dela mas é certo que viveria pouco melhor se soubesse. Não meus amigos! Não necessita ele saber tudo isto para utilizar seu magnífico, belo, reluzente, grande, tecnológico, e por fim retumbante televisor. Mas simplesmente deve sim saber apertar quatro botões: o que liga, muda os canais, mexe no volume e o que desliga. Quatro botões tão mágicos quanto possa parecer a própria vida, e tão simples quanto possa ser a quantidade de neurônios deste nosso personagem fictício por certo, mas que representa o total da população mundial, com exceção de um ou outro é claro.Sou rude porque repudio a postura deste grotesco e tosco homem, que nada mais busca senão viver, certamente vossas excelência haverão adotado a mesmíssimas posturas, pois vendo o quão longe a liberdade nos conduz sentiram no ambiente das idéias comparativas a amplitude do processo de conhecer a realidade. Diríamos que aquele sujeito, que para nos é quase que repelente, não vive a realidade. É certo dizer isto? Julgo que ele vive a realidade mas não a conhece, está simplesmente no campo dos prazeres supérfluos e não da busca filosófica que constitui justamente no que aqui nos empreendemos com todo vigor a fazer, se estamos conseguindo ou não somente a mudança de nossas realidades poderá revelar. É um processo árduo e dificultoso este, pois para que se concretize o processo filosófico devemos parar de viver. Não riam nem subestimem estas frases loucas leitores, pois a arrogância têm por certo momentos adequados a se expandir, mas não agora! Quê se deve fazer para saber o que é viver? Como deixar de viver para filosofar? Entrar na cela da ignorância? Morrer? Sim comparsas das mais variadas crendices e antagonismos! Deve morrer, por pouco que seja, aquela vida intensa e desmensuradamente vivencial, para por breves momentos viver para o conhecer, ou conhecer o viver. Confuso, confuso, confuso... Magnífico, Magnífico, Magnífico...

      A grosso modo estou dizendo que você deve ficar um breve momento d seu dia, de seu mês, de seu ano ou de sua vida em silêncio e pensar sobre o que faz, não faz ou deixa de fazer! Deve perguntar tudo o que seja possível perguntar sobre estas coisas e descobrir através disto novas coisas. Ou seja: um momento de silêncio pessoal: O que designa-se como corrida de longa distância! Preferencialmente numa mata longínqua, densa, desconhecida onde perpassaremos pela quietude e silêncio externos, mas onde os processos de transformação internos são tão intensos quanto é a corrida do corpo que corre. A abstração das divagações que até agora fizemos se une à corrida dum modo eficaz, que têm nexo e sentido moral, psíquico e filosófico. Correr... Correr... Correr...

      A sociedade entretanto atulha nossas mentes de tudo quanto possa existir de informação no mundo, fazendo-nos de fantoches até nas atitudes, conceitos, atitudes, modos de se expressar. Impondo desta maneira a falta de tempo para descobrir a liberdade, a filosofia e a realidade por assim dizer. A sociedade bombasticamente enganosa nos priva da realidade. Qual a solução? Correr numa esteira falando ao celular, vendo TV e fofocando com o professor de musculação ao mesmo tempo?

      A derradeira pergunta é por certo uma instigação crucial em nossas investigações, e por isto iremos oficializa-la como de caráter sério e aparentemente burlesco. Mas que há de cômico no ser que não transcende à sua delimitada realidade? É não uma comédia mas uma tragédia, a tragédia da ignorância, talvez a mais peçonhenta de todas as desgraças.

      O conhecimento filosófico nos traz a liberdade do correr com a mente os recônditos das abstratas possibilidades, virtuosas imaginações nos instigam a continuar correndo.Mas para onde? Para o abismo do desconhecido! A vasta escuridão será iluminada com descobertas de inigualáveis e inesperadas informações. Mas este é o conhecimento da essência e não do supérfluo como já devo haver abordado noutro capítulo qualquer, com o supérfluo já nos basta ser bombardeados no decorrer de todos os dias. É buscar pela essência! Aqueles que se deixam atulhar transformam-se em entulhos, sim! Muitos sacos de entulhos, cheios de entulho até transbordar: entulhos sólidos, líquidos, entulhos feios, belos, maleáveis, transformáveis, ineficazes, quebráveis, magníficos, desejosos, infernais, celestes ou não atrativos, não obstante são todos entulhos sem quaisquer utilidades. Pronto para serem corroídos pela ira de nosso silêncio, num ato sórdido de busca da liberdade. O conhecimento essencial é de tal magnitude e importância que se faz necessário uma constante busca por ele, é ele, ou sua busca, que nos trará as chaves da gaiola. A velocidade com a qual recebemos o jato de entulhos do mundo nos atulha e não permite que nasça a semente dos conhecimentos essenciais ou da forja da chave, muito cuidado portanto!

      Há toda a estrutura de vendagem de uma corrida, de materiais como camisetas esportivas e materiais similares. Os nossos próprios temores, vontades, quereres e não quereres são inconscientemente esculpidos por formadores de opinião, que podem estar na mídia, nos ambientes de corrida como competições, feiras, palestras e até nas conversa mais informais. Enquanto não houver silêncio não haverá liberdade. A liberdade não pode permitir que algo nos delimite no pensar, uma idéia transmitida, seja esta qual for é per si uma delimitação imposta, a menos que seja uma pergunta, pois as perguntas percrustam o campo do mistério e desconhecido. Há gente que é  dependente dos entulhos esquecendo a essência da filosofia. À estes não há muitos caminhos a seguir, pois as delimitações são muitas e vêm de todos os lados. Vejamos que o próprio campo da filosofia é na Educação Física muito pouco abordado, e à qualquer palestra sobre esportes que se vá os temas são restritos à fisiologia, biomecânica e métodos de treino, um ímpio erro que não mais podemos cometer, não quero por certo excluir estes interessantes tópicos do conhecimento, mas estes se referem apenas ao aspecto visual e das peças internas da televisão, não conseguem ir além e tentar, ao menos tentar, visualizar ou imaginar o que possa estar por trás do funcionamento da tv: rios, água, vapor, hélices gigantescas... Não é tempo de achar que devemos contribuir de livre e espontânea para a própria delimitação deflagrando numa ignorância disfarçada de inteligência. Conhecer não quer dizer nada, o mais importante passo para a .liberdade é a capacidade de formular perguntas, o que justamente constitui a filosofia, e a ferramenta para isso é a imaginação. Os atulhados não tem tempo para as imaginações.

      Devo ser direto em minhas observações, sem rodeios, por isso posso ter parecido pouco grosseiro, o que é menos importante que a liberdade.Compactamente distinguimos dos tipos de conhecimento:

ENTULHO – Formam crânios transbordantes de tão cheios.

FILOSÓFICO – Para que fujamos da prisão na masmorra.

      Mas que raios têm tudo isto a ver com a corrida propriamente dita? Poderíamos dizer que um ou outro leitor, estando desprevenido ou tendo aberto o livro ao acaso de maneira espontânea e por uma sorte do destino recaindo nesta página, o que é fato que corrobora no não entendimento da idéia como um todo. Queremos aqui em conjunto descobrir qual a essência que diferencia uma corrida silenciosa e a antagônica barulhenta. Para isto é importante entendermos o conceito de liberdade que aqui vos apresentam, para que um dia as pessoas possam descobrir o que é correr de verdade. Neste caso verdade traduz essência. Qual a essência do correr? Se o conhecimento essencial é baseado nas perguntas que não impõe limites à mente humana o mais importante é fazer perguntas e não necessariamente encontrar as respostas, pois a partir do momento que uma resposta é encontrada pressupõe-se que foi imposto um limite.

      Venho notando que a criatividade que foge à essência torna-se supérflua. Em um ato de criação um homem pode se assemelhar à outro, não por coincidência mas pelo fato de que a essência do ser humano é só uma, e mesmo através dos tempos o amor sempre será amor, o ódio sempre será ódio, e assim se passa com muitos sentimentos e também com muitas idéias e pensares, há portanto somente uma essência filosófica no mundo, que pode ou não ser acessada pelos homens. Concluímos com isso que se a essência filosófica é uma só, se há excesso de criatividade ou se penetra mais a fundo na filosofia ou se foge dela transformando eu uma idéia supérflua.

36 - Liberdade e luta pela vida

 Cap. 36  - LIBERDADE  E LUTA PELA VIDA

Possível seria aproximar-nos da loucura querendo chegar à um senso real.

 

       No âmago da consciência de cada ser há uma verdade, corrompida pela conotação supérflua e corriqueira de cada dia. Quando será libertada a energia única que vive em nossas entranhas? Somente quando encontrarmos a liberdade do espírito, a ausência das necessidades, o que conduz à ausência de vontades que não possam ser concretizadas.

      Assim, querer correr além daquilo que é permitido é sinal de pobreza de espírito, e logo ausência de liberdade, vejamos agora sobre este tema, ou tema similar a seguinte descrição:

      “Entremeado num ambiente competitivo lá estava eu, com toda a convicção de que iria obter um bom desempenho. Tratava-se de um duatlon com a parte de natação e logo depois corrida nas distâncias de 500 mts. e 3.000 mts. Um fato bastante curioso é que dois dias antes sonhei estar conversando com alguns companheiros de treino, noutro dia sonhei estar fazendo um simulado da competição. Após chegar ao local procurei concentrar-me e pensar que iria me sair muito bem, pois estava consciente de que havia treinado bem. O momento da largada foi bastante tranqüilo, procurei não criar muitas tensões em meus pensamentos, não obstante não podia deixar de ver os outros competidores, o que fazia com que eu criasse em min uma certa dose de expectativa e divagação negativa quanto ao me desempenho. Julgo que somos muito influenciados pelas visões, já que este é nosso principal sentido de contato com o mundo, um atleta cheio de patrocínios, vestido de maneira elegante, opulenta e correta certamente cria uma tenção extra nos adversários, é provável que por menos que eu quisesse isto tenha ocorrido comigo, o inconsciente capta coisas de que não nos damos conta e influencia em nosso estado de ser e de estar de modo que o consciente não percebe que o ser como um todo está sendo atingido por fatores externos. Sabia certamente que aquela competição portava importância apreciável já que haviam adversários em quantidade e qualidade, tentando esquecer todos os pensamentos ouvi o tiro de largada e comecei a nadar, e cada vez mais me desconsolava notando que meu desempenho não correspondia em nada com o que previra; Acaso seria melhor não haver feito qualquer previsão? A previsão me trouxe a indignação e a insatisfação! Enquanto meus braços perpassavam pelas maleáveis sendas da água me lembrava dos treinos que há 40 dias estava fazendo, com um comparecimento antes autolitário que democrático, a cada erro desfalecia minha auto imagem positivista mas não a perseverança. Saindo da água como um desesperado, após dois erros de virada e uma trombada incomensuravelmente inconveniente com outro nadador, o qual nadava na mesma raia entretanto na direção oposta, logo tirei os óculos e tentei de maneira desordenada, desesperada e destituída dos mais sutis laivos de razão colocar os tênis, que estando amarrados com determinada amplitude relutavam em abranger a totalidade de meus pés, o que conseqüentemente me rendeu valiosos segundos, segundos estes que devido ao estado de consciência em que me encontrava mais asemelhavam-se à dias ou semanas que propriamente à esta unidade de tempo tão ínfima e constricta. Assim saí correndo após estes breves contratempos, os quais considero como situação absolutamente fora do comum, que não são consideradas como nadar tampouco como correr, mas que abarcam em si uma sensação de que não se sabe onde está nem o que se está fazendo. Saí em vertiginosa corrida, e demorou certo tempo até que soubesse que estava realmente correndo, talvez seja isto devido à troca de ambiente, e quando tomei consciência de que estava correndo e de qual era minha disposição de correr naquele momento meus sentidos de vitória desconfiguraram-se quando vi muito ao longe dois corredores embuidos de uma ferrenha ambientação competitiva, a respiração que oxigenava meus músculos era exacerbadamente rápida indicando até uma certa falta de controle, contrariamente à esta estava meu cérebro pensando em correr mais e mais rápido [ falo dele como se ele não fosse a essência do próprio eu ] logo avistei ao longe um corredor o qual julguei ser o terceiro, mas que ainda de longe cogitava alcançar, fato que inopinadamente e de maneira graciosamente pretenciosa consegui executar. Olhava-o inicialmente pensando que não o atingiria, ao passar de um determinado tempo, pelo fato de que o percurso era constituído de várias voltas pude examinar  minuciosamente sua expressão de cansaço, o que certamente me deu novas forças para alcança-lo. Porém o jogo psicológico e físico era bastante perigoso e certamente poderia matar a autoconfiança, e denegrir a imagem que cada um de nós fazia de si, pois os metros se e esvaiam e me preocupava também com a possibilidade de que mesmo estando eu pouco mais rápido findasse ele por acabar na frente, o que representaria, segundo  meu julgamento intrínseco, uma voraz injustiça quanto ao desempenho na parte da corrida. Enquanto corria pensava nisto, houve determinado momento que vi não seu utópico chegar à atrapalhar-lhe a concentração com o ruído desagtradável que pudese à ele parecer o de minha respiração, assim mesmo extenuado decidí que aquela seria a hora, ou então nunca pois tudo se acabaria tendo fim a fantasia. Ultrapassei-o como se estivesse me sentindo leve [ é evidente que me sentia como que carregando um bloco de concreto nas costas ] e rezei para que não houvesse reação por parte dele, pois analizando seu porte de triatleta assustava-me: alto, magro, passadas largas e um certo cerne de concentração, se acaso houvesse uma resposta estaria perdido, uma breve curva e logo a reta final, onde naquele momento, pois maiores que fossem os super competidores me sentia como se o próprio super herói Flash das histórias em quadrinho não fosse capaz de chegar perto de min, de tão explosiva e raivosa que era minha velocidade naquele exato momento. [ este era ao menos o julgamento que tinha de min mesmo ]”

       Enquanto houver tempo para descalço caminhar sobre a grama, uma paisagem ao longe contemplar, e ainda ao respaldo de uma árvore, sentar, silenciar e a alma apaziguar haverá vida. Por menor que seja este tempo, pois o momento em si não é construído de tempo mas de estado de espírito, se não há acaso um momento do dia para fazer algo aparentemente tão simples como isto não haverá vida, e o espírito ignorantemente estará sujeito às ludibriosas cachoeiras de informações da sociedade, e à limitação implícita da liberdade filosófica.

       Caro leitor: Convenhamos que os pensamentos desenvolvidos neste último parágrafo, mesmo que fugindo de maneira escandalosa à descrição, completam de maneira bastante atrativa a frase que traduziu a idéia principal deste fruto ( seu gosto por assim dizer ), frase que fora dita anteriormente à descrição: Verdade corrompida pela conotação supérflua e corriqueira de cada dia. Somos portanto suprimidos pela realidade em que vivemos, de maneira que muitos de nós não conhecem o potencial que possuem. Por quê não conhecem? Lhes responderei esta pergunta com muito bom prazer, a sociedade molha os pés na crista das ondas mas procura não afundar as pernas além dos joelhos, não porque não querem mas porque é de tal modo organizada, o que poderíamos mais tarde definir como desorganizada, que impões ao sujeito que ele não passe deste nível, que não mergulhe mais na imensidão da liberdade de questionar, pensar e viver. Entretanto é uma imposição mascarada, de modo que ludibria o cidadão fazendo com que nem mesmo ele saiba que está sobrevivendo de maneira limitada, fixem-se por favor no fato de que utilizei a palavra sobrevivendo e não vivendo, pois viver de maneira limitada não é viver e sim sobreviver.

      A competição em si é uma mera invenção do homem, convencionou-se que seria campeão aquele que chegasse primeiro, o que fosse mais rápido receberia mais honras glamour e méritos. O que é na realidade uma grande ilusão, pois não há no mundo alguém que seja melhor que outrem, e acima de tudo não existe necessidade de se correr tão rápido quanto se faz em uma competição. Portanto o ato de competir extrapola a necessidade de movimentos físicos do ser humano, por isso diz-se que competir não é saudável para o corpo tampouco para a mente já que submete esta igualmente como o corpo à requisições acima dos parâmetros comumente utilizados. É paupérrimo em razão linear inserir um contra-senso em uma discussão, e possível seria aproximar-nos da loucura querendo chegar à um senso real, mas é dito que as idéias antagonistas são bastante viáveis em nosso caso em específico, para que possamos com maior lucidez chegar à teoria do que seria mais ou menos real. Explicar-me-ei leitor bondoso, para que não fique vossa senhoria tão embaralhado quanto aquele que se perde num fosso de azeitonas sem um só palito para petisca-las ( será que fiz uma analogia cabível ou compatível à situação vigente? ). O fato é que o esporte competitivo, tema desta última divagação é inegavelmente parte integrante do ser humano, de modo que à partir do momento em que nascemos lutamos para viver, pode-se dizer que estamos sempre nos esforçando para não morrer, por mais estranha que possa parecer esta afirmação seria uma falta bastante grave dizer que é inverossímil, se há de parar para pensar de maneira pouco mais profunda nesta frase, que retrata um fato: Lutamos contra a morte desde sempre que estamos vivos. A competição desportiva nada mais faz que retratar uma realidade já bastante conhecida do ser humano: a luta pela sobrevivência, desde os primórdios da humanidade já nos entretínhamos com coisas corriqueiras e supérfluas como fugir de feras e buscar desesperadamente por comida, é verdade, talvez tenha me enganado, talvez não sejam estes dois afazeres supérfluos, mas sim antigamente eram bastante corriqueiros, hoje no entanto nos encontramos com a soberba luxúria de uma sociedade desigual e conturbada pelo próprio luxo de modo que não há mais a consciência de saber que ainda lutamos para viver, temos de comer algo caso contrario desfalecemos sem energia, e privamos pela vida, procurando ao máximo não nos submeter às situações perigosas. A maratona portanto descreve a luta pela vida uma situação da qual a sociedade se distanciou amargamente. Maratona é a luta contra a morte, exatos 42.195 metros de uma incansável trajetória de dores e sofrimentos que retratam aquilo que está em falta num mundo de comodismo, prazeres e inércia. É este o sinal de que há uma resposta da naturalidade inconsciente dos humanos à uma conduta de vida artificial impregnada de privação da própria liberdade de escolha de caminhos.

      Vejo que houve certamente nas frases anteriores certos ímpetos de revolta, mas vimos com bastante comedimento que fora de maneira automática encontrada senão a solução ao menos a repercussão duma sociedade que acaba por reger, mesmo que este não o sinta ou saiba, a conduta do humano. A repercussão natural é a necessidade de movimento, comparada com a luta pela vida o que hoje sumiu deflagrando na perca da noção do que é a própria vida, pois não mais se sabe que lutamos pela vida. É viável pensar que não se vive mas sobrevive como supraescrito, já que novos conceitos e idéias deglutiram os monólogos anteriores, não somente devoraram como distorceram, dando margem à um ser distante de si mesmo.

       É notório verificarmos que o esporte retrata a essência da vida, a necessidade de se lutar pela vida, superar algo para que se continue vivo, física e mentalmente. É plausível no entanto digladiarmos à igual altura que a competição ultrapassa os limites aceitáveis do que poderia ser considerado como suficiente para saúde física e mental. Têm a luta pela vida algum limite? A luta pela vida pode nos proporcionar graves danos no entanto  não têm quaisquer limites, o limite seria por certo a própria vida, mas a partir do momento em que o ser é destituído de vida não há mais vida, portanto não há limite.

      Competir é lutar pela vida e extrapolar os limites do bom senso, na luta pela vida não há limites de bom, mau ou qualquer senso pois o que importa é a vida. A competição não é somente um fenômeno criado pela cultura \humana, uma convenção de determinadas regras, preceitos e idéias mas também o resultado de necessidades primitivas da vida humana, ou a repercussão do fato de que a luta pela vida foi reprimida pelo próprio modo de viver humano, assim como não precisamos mais lutar pela vida criamos a competição.

      Disse que criamos a competição, porém o fato é que uma essência natural do ser humano não pode ser criada pois sempre existiu, é evidente que a competição é a luta pela vida, e que esta é uma essência humana. Assim por isto foi dito que a competição não é somente um fenômeno cultural como também um extravasamento da essência do lutar pela vida, é portanto tão natural quanto comer, respirar ou dormir.

       Mas que raios é os tema deste capítulo afinal? Não me vanglorio por haver galgado as escadas deste belo palácio que é a loucura de se perder em si mesmo. Definiremos assim que este é o caminho que nos leva às mais criativas divagações, mas que nos deixa pouco acanhados quando pensamos em organizar os temas, de modo a saber realmente qual o cômodo que visamos.

       Incitei no inicio de nossas discussões a idéia de que aquele que nada quer nada precisa, e de que há muitos que querem mais do que precisam. A liberdade é por certo um estado de espírito provindo da não necessidade de nada. Competir é estar livre ou preso e fadado à seguir determinados parâmetros? Segue-se a pergunta: Viver é estar livre ou preso? Se acaso houver algo mais abrangente e maior que a vida diz-se que viver é estar restrito. Pensando que a competição é parte da essência natural do ser falar-se-ia que competir é um ato de liberdade pois não se pode fugir à essência natural, do contrário se dissermos como foi anteriormente negado que a competição é uma criação cultural, uma mera convenção de regras, atitudes e idéias será então uma privação da liberdade. É então a cultura a privação da liberdade? Não porque há, como neste caso, momentos em que a cultura se encontra e atua juntamente com as necessidades naturais humanas, e como já proclamado a necessidade de lutar pela vida é intrinsecamente natural.

        Em geral grande parte da cultura impregnada na sociedade priva-nos de conhecer a liberdade natural, pois distorce idéias e conceitos inerentes à todo o redor , que fazem parte do ser num contexto integral e fluente. Estando distorcidas estas idéias tudo fica obscuro e enganoso. Como se a pessoa vivesse algo que não componha a realidade, que não condiz com o real. E a grande maioria pode viver neste estado de letargia e festa de máscaras da fantasia, o grande problema é que as máscaras são tão reais que as pessoas acabam por não saber que estão numa festa de representações acreditando piamente no que vêem.

      Dizer-me-ão os leitores precavidos, conscienciosos que já perpasso as idéias por parábolas, comunicando de maneira excessivamente sujeita à interpretação. Pois que continuem vosotros dizendo, e que critiquem minhas faltas e deslizes com o maior desvelo possível que já lhes aclararei alguns tópicos num piscar de olhos.

      A própria inatividade física é uma fuga das idéias naturais humanas, a palavra idéias pode ser transcrita como ato, o que significa outra coisa, mas também é algo incrustado na natureza humana. Como podemos deixar de fazer ou pensar algo que é natural e faz parte da essência humana? Isto sim deve ser considerado como a ausência da liberdade, mesmo que seja uma escolha de “livre e espontânea vontade”. Note leitor que fiz questão de colocas aspas em livre e espontânea vontade, pois a partir do momento em que se entra num baile de fantasia e máscaras tão perfeito acreditando serem estas reais não se têm mais  um discernimento confiável, é assim que se distorcem os conceitos e idéias. Mas existe um conceito e uma idéia natural? É certo pensarmos que existe quando notarmos que a grande massa da humanidade têm suas repercussões, resultados e extrapolações oriundas da repressão desta energia natural por assim dizer. Isto é, a própria criação das corridas num momento em que o comodismo e inércia começaram a inundar os quatro cantos do planeta.    Ou seja: a luta pela vida é uma idéia natural do ser humano, e por mais que esta como outras idéias naturais sejam distorcidas pelo “desenvolvimento” ( que também poderia ser chamado de retrocesso ) sempre haverá um pitoresco indivíduo que irá à festa de fantasias vestido de maneira natural, sem quaisquer vestimenta, como se não soubesse que era para trazer uma fantasia de cabal singularidade ou mesmo entrando de gaiato sem convite ou sapatos. Representando assim o vazamento das idéias naturais ao mundo exterior.

       Unimos por fim o conceito de liberdade à competição. Quê têm tudo isto à ver com a descrição de duatlon antecedente? Me pergunta o leitor curioso, ou aquele que porventura abriu o livro numa página qualquer e ocasionalmente iniciou uma leitura descompromissada e aventureira. 

35 - Repercuções fisiológicas na corrida

 

Cap. 35 – REPERCUÇÕES FISIOLÓGICAS NA CORRIDA

 

      A corrida proporciona idéias mirabolantes como esta mesma que fora apresentada, é a corrida um remédio. Digo remédio no sentido de melhorar o estado mental daquele que a pratica, este fato pode ser explicado de maneira fisiológica é claro, pois o corpo estando em atividade aeróbia produz determinadas substâncias químicas que conferem ao indivíduo sensações como por exemplo a dor e a sensação de entorpecer o corpo, pode-se primeiramente sentir um tipo de dor específico, mas depois com a produção de endorfinas esta dor não é sanada mas sim ludibriada por assim dizer, é aí que mora grande parte do perigo, pois quem corre não sente os efeitos negativos que estão ocorrendo em seu corpo por estar entorpecidos por estas substâncias que se chamam endorfinas. Entretanto dizer que estas substâncias, em específico, atuam ou não nos estados emotivos ou imaginativos do corredor é demasiada precipitação, pois é seguro que há outras substâncias que estão em constantes mudanças de proporção em nosso organismo durante um treino, dentre estas estão uma série de hormônios, e há o fato de estarmos usando combustíveis como glicogênio muscular, sanguíneo e hepático, além dos lipídios e também das próprias proteínas que constituem o músculo. O fato é que podemos utilizar em demasiado nossas reservas de energia de modo que possa faltar glicose no organismo, quando se fala em faltar glicose dizemos no organismo como um todo, e por conseqüente no cérebro. Quais são as repercussões que podem ter a falta de glicose no cérebro? Não me refiro aqui as repercussões físicas como fraqueza, mal estar ou desmaio, mas sim às características intelectuais e emotivas, sabe-se que o próprio pensamento consome glicose, o homem que está ocupado em resolver um extenso e complicado problema de aritmética certamente está gastando mais glicose que aquele que nada faz, ou simplesmente está parado. Assim, vemos que uma série de mudanças ocorre no corpo de um corredor de fundo, estas mudanças estão intimamente relacionadas com as mudanças psicológicas. Estas mudanças são muito interessantes, pois incitam uma transformação do estado mental de um indivíduo. Se alguém por um acaso se sente bem após ter corrido 20 ou 30 minutos algo seguramente cambiou em seu organismo.

       Há enzimas e hormônios diversos que atuam sobre nós. O sistema endócrino é o que trata dos hormônios e suas produções, os hormônios são quimicamente classificados em três tipos. Sendo que cada tipo é provindo de diferentes origens como:  conjunto de aminoácidos, de um aminoácido ou do colesterol.

      Um exemplo da atuação dos hormônios podemos ter quando diz-se que o ADH reabsorve a água do organismo, atua em condições de desidratação que condiz respectivamente com o caso de um maratonista. Entretanto ao mesmo tempo que atua nesta condição também influi sobre o sistema nervoso autônomo simpático, que equivale às sensações de susto, medo, stress, emoções bruscas ou exercícios físicos.

      As funções do T3 e T4, que são respectivamente hormônios são entre muitas as influências que exercem sobre o sistema nervoso como acentuar o estado de vigília, melhoram respostas à vários estímulos, o sentido da audição, à percepção da fome, e inclusive melhoram a capacidade de aprendizado.

       O cortisol  diminui o sono REM de ondas lentas, com o aumento do tempo desperto, modula o comportamento e o humor. Vemos como os hormônios influem de sobremaneira em nossos estados mentais, porém de quê maneira ocorre a produção de hormônios? Mais especificadamente: Como a corrida pode influir na produção de hormônios.

      Há uma íntima relação entre os aspectos psíquicos e físicos na atividade física, este é o campo que pertence respectivamente à neurofisiologia, é evidente que não vamos aqui nos aprofundar neste tema por ser em demasia complexo, e por fugir ao entendimento do próprio autor, porém é estritamente necessário citar algo que pertença à este âmbito como fora dito por exemplo sobre os hormônios.

      Atenção leitores para o seguinte  e interessante relato:

      “Estava eu correndo em uma pista de atletismo bastante rústica, pois constituída de areia e tendo lá seus 255 metros de distância. Acontece que esta para min é uma pista bastante especial pela sua própria simplicidade e pelo fato de amortecer muito bem os impactos, justo por eu estar retornando em meus treinos, correndo num sol forte entretanto não aterrador, enquanto estudantes de outro curso faziam treinos de tiros e outra turma treinava basebal no campo. Fato inóspito quando já na metade de meu treino me dou conta de que há um galo cantando, já era meio dia, ou aquele galo estava atrasado ou eu estava ouvindo coisas. Ocorreu-me que era bastante agradável ouvi-lo cantar. Algo bastante estranho para alguém que se encontra no centro de uma cidade grande, conturbada por poluição, concretos e produtos industrializados”.

       Vejam como nesta descrição está posto em evidência o caráter inusitado de um galo cantante, um galo que representa o desafio ao concreto, pois, em meio à uma sociedade industrializada persiste com insistência inusitada o canto da natureza. O interessante é notarmos como o corredor de certa maneira chega a estranhar a ocorrência que cada vez mais escassamente vêm ocorrendo na cidade: o alvorecer da natureza. Posto que esta é a origem do homem sabemos que à esta ele pertence. Uma sociedade cada vez mais artificial é o que temos verificado ultimamente, o incrível, mais estranho que incrível evidentemente, é que tentamos de qualquer maneira aproximarmos do natural da maneira menos convencional possível: através de nossa ímpia criação, nossa criação certamente é original, entretanto não é natural. Têm como exemplificação mais notável a televisão que se aproveita de nosso principal órgão sensorial para substituir a natureza senão a própria realidade.  Erroneamente nos afastamos da realidade e num ato sordidamente crasso tentamos nos aproximar desta. Um indivíduo têm a possibilidade de assistir um programa sobre animais silvestres e seus hábitos pela TV, entretanto este mesmo não têm o contato com uma simples ave. Este é um dilema bastante interessante para discorrermos: O afastamento do ser humano de suas origens naturais, como já foi dito anteriormente pode-se afirmar que há um afastamento da realidade. Ainda mais interessante é buscarmos saber o quão bom é o contato com o natural, sobretudo com os animais.

       As pessoas vivem nas cidades, porém no verão, tanto nas férias como nos feriados buscam o repouso em ambientes naturais como praias e campos, o que é saudável. Não pode o ambiente artificial de uma TV ou qualquer outra tecnologia substituir esta sensação de realidade. O que me espanta são exclusivamente aquelas crianças que vivem enfurnadas em computadores, televisão, videogames ou shoopings o que constitui em sua essência uma grande problema não somente para seus desenvolvimento como para os caminhos que serão futuramente tomados por nossa sociedade. Uma questão de hábitos é claro, o corredor ou esportista em geral cria hábitos que o aproximam com a natureza, senão com a natureza externa com a natureza de seu próprio corpo ou com os dois de maneira simultânea.

       Pode-se pensar que o galo está fora de contexto ou num lugar impróprio, entretanto arrisco a afirmar que a cidade é o objeto que está fora de lugar, se não é de lugar é de filosofia, criando ambientes que contribuem para a criação de muitos distúrbios, o próprio asfalto criado já é um artifício que causa muitas tendinites nos corredores e problemas de joelho. Se conservássemos mais ambientes naturais correríamos de maneira mais natural, não haveria um atrito tão grande com a natureza de nosso ser.

34 - Espargir de novas ideias

 

Cap. 34 – ESPARGIR DE NOVAS IDÉIAS

O poema mais se aproxima da essência do que se visa transmitir...

Viver é a utopia do homem.

      No intuito de trazer à tona algumas novas idéias escolhi, em alguns casos, o poema como ferramenta. Já que este é sempre bastante direto e conciso, é necessário notar que num poema não estão inseridos somente valores artísticos, como também novos conceitos filosóficos, e distintos modos de pensar, para isto é bastante pertinente fazer-se uma interpretação de detalhes inseridos nos poemas. Aqui serão apresentados alguns poemas pertinentes à diversos assuntos, principalmente relacionados à corrida ou à motricidade, veja antes a relação dos mesmos:

33 - Grécia e maratona

 

Cap. 33 – GRÉCIA E A MARATONA.

      No campo da Educação Física temos diversos assuntos que podem ser comentados e supostamente relacionados com a corrida. Muito me agradam os assuntos relacionados com os aspectos históricos da maratona, e também dos costumes e hábitos físicos da antigüidade. Noutro dia estava eu conversando com um colega sobre a maratona, quando de forma espontânea chegamos à parte histórica da questão, quando ele me disse que Filípedis, o tão conhecido corredor que inventou e difundiu a maratona, sendo o responsável para que houvesse tal sorte de evento não atravessou os campos de Marathom correndo mas sim andando. Afirmação que quando proferida pareceu-me bastante evidente, porém que sendo a lógica de proporções infindáveis não vejo indícios de explicação para não haver pensado isto antes.

      É natural que este guerreiro tenha tido bastante pressa para avisar uma vitória? Por quê não utilizou-se de um cavalo para fazer este trajeto? Ao menos esta pergunta posso brevemente comentar já que noutro dia tendo uma pequena palestra com um colega estudante de história disse-me ele algo à respeito das origens do cavalo, um animal que nesta época poderia não estar sendo criado naquela região, uma colocação que já me esclareceu pelo menos este aspecto. Utilizou-se de um cavalo? Por quê, segundo diz a lenda, morreu ao chegar ao ponto de destino? Acaso não deveriam ser os mensageiros da época preparados para fazer tal sorte de jornada? No que concerne à história da maratona tenho muitas questões a fazer, e por conseqüente muitos tópicos a apresentar. Me proponho de bom grado a estudar alguns detalhes sobre a civilização grega e apresentar ao leitor ávido por conhecimentos interessantes, intrigantes e tão duvidosos como espetaculares. Disse isto porque ao mesmo tempo que me proponho a comentar aspectos históricos desta civilização, vejo como possibilidade bastante aprazível a criação de um conto que seja relacionado com estes estudos sobre a história da maratona. Para isto vejo como estritamente necessário o estudo preliminar à respeito da história grega, como breves comentários sobre o surgimento dos jogos olímpicos.

32 - Relatório da maratona

 

Cap. 32 – RELATÓRIO DA MARATONA

Ultrapasso vários corredores, dentre tantos o mais desafiador é obscuro, uma sombra.

 

      Sobre a maratona de Porto Alegre, extremo sul do Brasil no estado do Rio Grande do Sul, serão colocados aqui alguns escritos com o fim de expandir algo que se entende por conhecimentos sobre corrida. Partimos do pressuposto de que todo conhecimento novo é interessante, enquanto que informações já conhecidas são fastidiosas. Para que não ocorra o erro de tornar-se este um documento repetitivo esforçar-me-ei no intuito de chegar a novas conclusões, isto através de minhas experiências práticas e dos fantásticos e irrepreensíveis divagares reflexivos.

       Algo à respeito do treino:

      “No momento em que começo a correr sinto muita dor nas pernas, não me vejo capaz de imprimir um ritmo forte, inusitadamente após cerca de 6 quilômetros já estou correndo como um cavalo, consideravelmente rápido. Tanto longas subidas como retas pois meus músculos encontram-se em perfeição. Há o fato adjacente de que além de corrida pratico musculação e natação que são duas outras atividades que complementam a corrida”

       Estas são palavras de um corredor enquanto está num período de treino, vejam leitores a grande preocupação que há por parte do corredor quando se refere à sua impossibilidade de imprimir um ritmo considerável durante o início de seu treino. Porém já utiliza-se este indivíduo de uma expressão deveras exagerada para descrever seu aumento de velocidade, é claro que isto como já vimos provém de um excesso de auto estima, uma auto afirmação desproporcional, que certamente provém de um estado mental alterado. Um fator desencadeia e sustenta o outro, iniciando no mental. Para explicar-me melhor direi que inicialmente começa-se a correr, com o estado mental alterado, ou um ego bastante considerado pela mente começa-se a tentar correr mais rápido. A corrida quando incitada a ficar mais rápida pela mente influi no próprio estado mental fazendo com que este fique ainda mais alterado, e assim por diante até que se chegue a níveis extratosféricos. O que é por suma evidência cada vez mais dificultoso já que a cada degrau que se sobe nesta escala as exigências mentais e físicas ficam demasiadamente elevadas. Enfatizo leitos, que além de exigências físicas há uma grande carga de pressões mentais para ser um corredor de longas distâncias. Partindo de uma simples descrição feita por um corredor na época de seu treinamento antecedentemente à uma competição chegamos a discutir de maneira bastante breve, porém compacta, sobre o estado mental que possa estar um corredor, isto foi enunciado num ingênuo termo utilizado pelo corredor. Assim passa que devemos saber qual o estado mental em que nos encontramos. Noutra época por exemplo, um corredor disse-me que iniciou suas carreiras pelo fato de antes Ter uma baixo auto estima e um estresse mental alto, vemos com isso de maneira bastante simples que a corrida certamente influi de sobremaneira em estados mentais.

      Sobre momentos antecedentes à maratona:

      “Fizemos um trote, que respectivamente possui a característica de soltar a musculatura, numa manhã pouco nublada, a trilha era bastante agradável. Perguntava a min mesmo se durante a maratona iria fazer o mesmo clima ou se pudesse chover. Talvez estes questionamentos fossem devidos à uma certa ansiedade que se me apoderava, corremos cerca de 30 minutos conhecendo um breve trecho do mar que não era dos mais cheirosos já que havia certo odor de putrefação, pudera ser devido a peixes ou coisas de desembarque marítimo. Notei que as pessoas que tomavam sol na praia, a pesar de bastante resguardadas, observavam-nos com certa curiosidade. A única preocupação do grupo naquele momento era não correr em demasiado.”

      A palavra preocupação utilizada pelo atleta quando se refere ao fato de não querer correr exacerbadamente implica numa situação de expectativa, o fato é que muitas vezes corredores ficam até um mês muito preocupados com determinada prova. Uma pergunta interessante que se há de fazer é a seguinte: Qual o motivos desta preocupação? Outra é: Este estado mental ajuda ou atrapalha na corrida e no treino?

       Os motivos podem ser bastante evidentes. Como a própria prova... Podem ser distorcidos por fatores alheios tais como problemas da vida do atleta? Quê falar dos outros fatos que acontecem na vida de um atleta e na interferência que estes podem ou não provocar no ato de correr? Este pode até ser um assunte que tenha surgido fora do contexto de nossas ponderações iniciais, mas que certamente têm grande importância em nossos estudos e questionamentos. Houvera sido talvez mais condizente e interessante de minha parte vos haver provocado com estas questões últimas no capítulo que aborda sobre correr, trabalhar e estudar ( Capítulo 2 = Correr, trabalhar e estudar ) já que fala de obrigações adjacentes e consequentemente problemas extrínsecos à corrida. Tendo aqui surgido a luz desta questão aqui irá viver, se me permite o leitor fazer esta breve ponderação poética.

      Quanto maior o valor que se dá à prova maior é a possibilidade de ficar-se preocupado com esta, o sujeito tenta de certa maneira prever mentalmente o que pode ou não acontecer no porvir dos dias. Assim não é nada estranho um corredor estar extremamente nervoso com uma prova que irá ocorrer dentro de um mês ou até mais. É bastante normal pensarmos que há esta expectativa por parte do corredor já que ele está treinando para algo que já tem data prevista. Disto extraímos a conclusão de que se um corredor faz um treinamento sem o intuito de competir não estará ele sujeito às intempéries ou conseqüências de um nervosismo. Devemos por certo debater algo sobre os efeitos colaterais desta expectativa: São bons ou ruins? Uma palavra e por conseqüente uma atitude que vêm a calhar quando se fala em treinar efetivamente é concentração, é muito claro que se um indivíduo se concentra no que faz têm mais chances de fazer bem feito aquilo que faz, sem que se deixe distrair por quaisquer outras coisas, porém é condizente dizer que quando a mente tenta se antecipar ao tempo real logo não está ela vivendo a realidade, e sim uma situação imaginativa que não está ocorrendo no momento, isto é o que chamamos de pré ocupação, já que a mente se ocupa de uma situação de que não há neste momento em que estamos supondo quaisquer necessidades. Assim julgo que a mente se ocupa de duas atividades em um só tempo: antecipa de maneira imaginativa o que está por vir, e tenta de alguma forma cuidar do que está a ocorrendo no momento. Mas quais são as capacidades mentais de um ser humano? Quais são os limítes? É disserto apreciável discutir com os companheiros leitores sobre este assunto, já que tamanha é a intensidade de complexidade do assunto.

       Algo é bastante seguro: que do muito que conhecemos das capacidades do cérebro humano ainda falta infindável variação e gama de saber sobre este assunto. Abordei de forma restrita sobre este assunto porque não sabemos realmente se uma ocupação adicional da mente interfere de maneira negativa na corrida tamanha são suas capacidades. Como visto a preocupação com a competição é uma maneira de ocupar a mente com pensamentos que fogem à um determinado treino, e que isto é por suposto uma maneira de desconcentrar no que se está fazendo, outra maneira de ocupar a mente é se ocupar de problemas alheios aos que estão ocorrendo durante a corrida propriamente dita.

      Os problemas da vida de um atleta são por certo coisas que não têm a ver com o treino em si, e que por serem ocupações da mente adicionais podem interferir de maneira negativa no treino e na competição, pois quanto melhor a mente puder se focalizar somente no treino tão melhor será ao corredor. Estão aqui colocados os problemas, e não as coisas que são outras que não treino mas diferentes deste, como acontecimentos e situações positivas da vida, estes sim não interferem senão de maneira positiva.

      Sobre uma polêmica:

      Enquanto estávamos indo à retirada dos Kits discorríamos os maratonistas sobre o assunto de correr em equipe ou individualmente. Qual será a melhor forma de obter uma vitória ou um desempenho satisfatório? Os quenianos quando vêm ao Brasil correm em equipe? E os brasileiros? Por quê não fazem o mesmo? Fora dito por um dos corredores que quando os corredores da elite brasileira vão ao exterior acabam se unindo e de certa forma trabalhando em equipe, porém quando estão em seu país natal correm de forma individualizada.

      Me pergunto se não seria uma melhor forma trabalhar em conjunto para vencer os estrangeiros que muitas vezes vêm ao Brasil e correm em equipe. É vantagem correr em equipe? ( Afinal: A corrida é um esporte individual? Qual o conceito de esporte individual? ) Qual seria a vantagem de trabalhar em conjunto? A resposta está no fato de que um indivíduo auxilia o outro no mantenimento ou aumento de ritmo não deixando que este outro decaia em velocidade, o que pode ocorrer alternadamente já que numa corrida há para todos momentos bons e ruins. O que num linguajar da gíria se diz “puxar o ritmo” como se este outro corredor que é pouco mais devagar estivesse amarrado e se visse de certa forma obrigado a manter um ritmo mais forte do que imprimiria se estivesse sozinho.

       Quando os corredores de equipe sabem qual o ritmo exato de uma determinada prova certamente não irão preocupar-se no caso de outro corredor os ultrapassar  pois têm plena consciência de que irá se “quebrar” mais adiante.

       Fora bastante discutido sobre o “coelho” de uma prova. O quê é um coelho? É o corredor para o qual é designado um determinado ritmo até o quilômetro 20 ou 30, tudo isto através de um consenso geral de corredores e organizadores da prova. Para que assim os verdadeiros corredores da prova tenham um guia de ritmo no decorrer da competição. O “coelho” da prova pode parar no quilômetro estipulado ou até continuar e se possível até ganhar a prova.

      É interessante notar as sensações e sentimentos que perpassam pela mente de um corredor, e para perceber esta característica vamos nos ater à seguinte descrição:

“Num momento bastante breve, enquanto estava tomando um banho quente no intuito de relaxar meus músculos meus pensamentos viajavam à sendas que transpassam o simples ato de pensar. Tratava-se de uma situação bastante breve em que uma série de lembranças vieram à tona, eram pessoas que estavam relacionadas com minha vida, e com meu treino. Lembrei exatamente dos traços e características destas pessoas, e também das situações. Uma verdadeira avalanche de lembranças.”

      Poderíamos designar este breve momento que ocorreu um dia antes de uma maratona com a expressão de julgamento da vida. O fato é que vivemos muitas vezes a vida de uma maneira esporádica e expontânea sem nos preocuparmos em saber qual é o real lugar em que nos situamos nesta senda de brenhas obscuras da vida, pode até em determinado momento este assunto estar colocado de maneira deveras poética, mas a verdade é que um de nossos objetivos aqui é filosofar, ou procurar o conhecimento de maneira que venhamos a chegar em novas conclusões, assim direi agora que o que ocorreu com este atleta foi um lapso de realidade. Falando-se de realidade é contundente e viável crer que a realidade é percebida de uma maneira personalizada por cada indivíduo que vive na face deste planeta, é também a realidade vivida em níveis ou intensidade diferentes, variando de acordo com cada situação. A maratona é por suposto uma situação extrema, veja que este atleta mesmo antes de estar correndo ou vivenciando a maratona já estava em um estado mental de auto teor emotivo, estava muito envolvido com o evento e com suas vivências passadas relacionadas à este. Gostei muito de haver proposto nestas linhas o termo lapso de realidade, pois os estados mentais intensos talvez nada mais sejam que uma aproximação do que se diz ser o real. A vida é um itinerário lógico, se não fossem as lembranças se extinguiria esta seqüência e logo as emoções seriam somente superficiais e não profundas.

      Torno a ressaltar que esta explosão de grande calibre de lembranças, segundo  o que creio ser interessante, se passa num momento breve e  num momento em que se está solitário. Talvez seja esta uma espécie de vazamento, que não agüentando mais se rompeu numa ira de mensuras desproporcionais, devido às pressões diárias nas quais estamos inseridos. Pois estas são bastante grandes, por motivos diversificados ficamos perdidos, recebemos diversos problemas dos mais diversos. Assim tudo isto se repercute neste breve momento, ainda que a bomba seja de lembranças antagonista, positivas e negativas já que a realidade é composta do bem e do mal.

      A maratona:

      Já no ônibus à caminho para a largada fiquei num estado de quietude mental, uma concentração incitada através de um musical gravado numa fita, por certo a musica influía em meu estado mental. No início da prova pensei me abstive num estado de ânimo bastante positivo, me resguardando de qualquer ânimo exacerbadamente alegre ou espalhafatoso, conversando assim somente com alguns conhecidos. Um senhor, com muito respeito cumprimentava à todos os circunstantes, o que achei uma atitude bastante fidalga e importante por mostrar que os maratonistas possuem dentro de si um sentido de união bastante forte.

      Com um som estridente bastante característico se iniciou a corrida, logo no inicio comecei a sentir dores na parte anterior da perna, estava correndo devagar, quase que desfaleci de indignação neste momento, já que aquele tipo de dor não havia ocorrido em meus treinamentos. Era um inicio de maratona, e não de qualquer outro tipo de prova, era uma sensação bastante negativa a que era provocada pela dor física que sentia naquele momento, certamente havia eu quedado constrangido com a situação, estava apenas no quilômetro 2.

      Pouco mais adiante encontrei com uma colega de equipe com a qual corri, sabia eu que naquele momento tinha perfeitas condições de imprimir um ritmo mais forte que aquele, mas de forma improvisada adotei a estratégia de correr ao lado dela até o quilômetro 21 e depois tentar ( se possível ) seguir com um ritmo pouco mais forte, nisto tudo prosseguiam as dores na parte anterior da perna, eram dores que incomodavam sobretudo o psicológico pois em realidade não sabia se iria completar o percurso. Foi interessante que tamanha deveria ser minha ansiedade, nervosismo ou qualquer outro estado mental semelhante que possamos descrever, que numa determinada parte do trajeto uma colega da equipe que estava assistindo a corrida perguntou-nos que quilômetro era aquele, eu respondi-lhe enfaticamente que deveria ser o 3, porém a colega que corria ao meu lado disse que era o 6. Fiquei impressionado com minha falta de noção da distância percorrida. Prosseguimos naquele ritmo que para min era bom, havia mais à frente uma mulher que corria, e de certa forma conseguia eu perceber que havia uma competição entre esta outra e minha amiga à qual de certa forma eu “puxava”, e que por isto tinha certa vantagem em relação à esta outra. Em determinada parte do percurso aquela dor passou e me senti extremamente aliviado, não somente fisicamente como principalmente psicologicamente. Tive vontade gradativa de urinar, o que se tratou de um novo problema a ultrapassar pois não queria parar e perder tempo, tampouco queria correr com este incômodo, num ato da mais pura comicidade, e numa decisão precisa passei à minha companheira de corrida a informação de que iria me ausentar por breves momentos de sua companhia dizendo o motivo, assim parei rapidamente descarregando aquele líquido amarelado que num momento inadequado fora se prostrar em minhas bexigas. Retornei numa velocidade pouco maior para atingir minha camarada que à frente se encontrava, sem grandes dificuldades cheguei à ela. Havia um grupo de corredores bastante espesso que se encontrava pouco à frente, um homem muito empolgado gritava comandando o grupo, este indivíduo era bastante engraçado pois gritava de tal maneira que parecia se encontrar em uma festa de crianças e não numa maratona, não corria senão executava uma marcha atlética o que muitos olhavam achando mais um motivo para crer que era este um indivíduo estranhamente diferente. O quê gritava? Que aquela era a turma dos 5 e 20. Ou seja: turma dos 5 minutos e vinte segundos por quilômetros, e dizia ainda em suas imperiosas e espalhafatosas afirmações que a turma dos 5 e 20 iria até o final, e ainda fez referência à algumas ondulações que haveriam no asfalto utilizando uma palavra tão complicada e inadequada para se referir àquele tipo de asfalto que não me vejo neste momento capaz de recordar o nome do termo.

      Sem hesitar e me empolgando com os resultados que estava obtendo até então, com a extinção das dores na perna decidi no quilômetro 13 me desgarrar de minha colega, dizendo para que ela se aproximasse daquele grupo que parecia ser tão festivo e seguisse aquele ritmo. Ela não me pareceu preocupada mas sim concentrada na corrida, comecei a aumentar o ritmo, por certo me sentia muitíssimo bem naquele momento, tinha em mãos um sache de carbohidrato em gel, o que era um de meus recursos para o bem correr.

      Cheguei ao quilômetro 21 já imprimindo um ritmo bastante forte ( no conceito de minhas concepções ), ultrapassava vários corredores, mas o corredor que mais me desafiava era eu mesmo. Por determinada parte do percurso um dos corredores ultrapassados gritou: - Vai lá garoto, que o motor está novo! Coincidentemente encontrei a pessoa que havia gritado desta maneira comigo depois do fim da prova, um senhor bastante amigável que estava com um óculos de lente amarela, parecendo-se mais com um pára-quedista eloqüente que com um maratonista. Assim, prossegui naquele ritmo, que em momentos parecia fácil e em momentos difícil de impor, achei bastante interessante o fato de as pessoas assistirem de suas casas a maratona estando os familiares de chimarrão na mão ( Bebida característica da região sul brasileira ). Não me senti envolvido por injustiças por causa do azar de uma ocorrência fatídica que me ocorreu no quilômetro 23. O carbohidrato subitamente escorregou de minha mão e caiu no asfalto, foram poucos os momentos de minha vida, creio eu, que utilizei um raciocínio deveras rápido, não sei se foram segundos, centésimos ou milésimos de segundos, somente raciocinei que aquele era um grande tesouro que não poderia ficar para trás, porém outra face de meus pensamentos pensou que não poderia eu perder tempo para pegar o sache, de forma que fiz uma escolha super-rápida e peguei o carbohidrato ficando ao mesmo tempo impressionado com a velocidade da resolução daquela situação, já bastante recomposto deste incidente prossegui a carreira em velocidade extraordinária para minhas perspectivas, avistei finalmente alguns conhecidos os quais ultrapassei com cumprimentos e incentivos bastante breves e resguardados, com o intuito de manter minha concentração na prova. Corri nesta velocidade rápida até o quilômetro 26, que foi um momento crucial, pois senti que não ultrapassava mais as pessoas, mais sim mantinha um ritmo contínuo que ia de acordo com a velocidade das pessoas que estavam à minha frente, somente as via, mas não as ultrapassava. Muitos corredores reclamam que uma das dificuldades de provas que possuem escassez de corredores é a de que há momentos em que você corre praticamente sozinho, e que fica distanciado de outros corredores, e este fator talvez seja preponderante para um desânimo mental e consequentemente físico, isto pode neste momento haver influído sobre minha pessoa, de modo que neste momento diminuí um a velocidade não sei se fora por desânimo mental ou por uma dor que se iniciara neste momento na panturrilha esquerda. Esta é inclusive uma discussão que quero inflamar no leitor: Pode um estado mental incitar numa maior valorização da dor? E por isto consequentemente o corredor diminuir a velocidade. Esta maior valorização da dor pode aumentá-la? São estas questões interessantíssimas às quais devemos parar para refletir. Veja caro leitor, que neste acontecimento o primeiro sujeito que aproximou-se de min no intuito de ultrapassar-me teve a infelicidade, que foi posteriormente uma felicidade, ( Coexistem conceitos antagonista, explicar-lhes-ei o motivo à posteriori ) de ver-se perseguido por min, aumentei novamente o ritmo e ficamos lado a lado, este aumento de ritmo foi difícil para min, mas de certa forma creio haver me readaptado àquela velocidade, por isto creio eu ser a dor um fator consideravelmente psicológico, que pode ser inibida por processos mentais específicos. Não sei exatamente quais foram os processos que se desencadearam em minha mente no momento em que segui ao lado deste corredor, direi que é evidente notar uma mudança de postura mental neste momento. Seguimos por uns 2 quilômetros num silêncio verbal, mas numa rica comunicação corporal, quando me perguntou de que cidade eu vinha, eu lhe perguntei o mesmo: Eu de São Paulo e ele de Brasília. Nada mais era necessário falar, e nada mais foi dito. Seguíamos lado a lado passando esporadicamente os outros competidores, por muitos quilômetros, e num ato de respeito, ao passar pelo posto de água pegando um copo lhe dei este, e peguei outro para min, fato que se repetiu ao revés por outra vez. Demonstrando que um estava realmente ajudando o outro, na corrida haviam momentos que um se sentia melhor que o outro, era perceptível este fato, mesmo a pesar de estarmos correndo lado a lado, parecia que aquilo tinha sido planejado. Um verdadeiro companheirismo, já no quilômetro 40 uma subida a que não consegui manter o ritmo e lhe disse: - Pode ir, não estou agüentando esta subida, ele me incentivou, numa parte plana, num esforço sobre-físico alcancei-lhe novamente e num ato dependente de vontade sobrenatural segui-lhe durante outra subida lado a lado, este era realmente um momento que sentia-me estar superando minhas capacidades, senão superando chegando aos limites delas, era um momento extremo, uma explosão de esforços que julgo difícil descrever, um momento crucial. Poderia dizer que não sei realmente de onde surgiam forças para executar tal façanha já que pensava e sentia-me anteriormente esgotado fisicamente e mentalmente, a estafa sem sombra de dúvidas continuava, mas havia algo que me movia além das expectativas, este algo era minha vontade. Isto é o que creio ser apreciável em um maratonista: sua força de vontade, esta ele demonstra durante a maratona e utiliza em sua vida, podem ser estes ditos poéticos, entretanto interessantes e dignos de comentários dos mais diversos. São os reais limites da capacidade humana ( se bem que existe algo chama do de força de emergência, o quê segundo minhas concepções é utilizado em certo nível durante uma maratona ), apreciável insistência da mente para com as capacidades corporais.

      Na metragem de 41.000 metros este meu colega aumentou o ritmo de maneira que eu fiquei para trás, mesmo fazendo todo aquele esforço, desejei-lhe sorte, mais importante é que conservei o respeito e agradecimento que mantinha por ele. Um outro sujeito me ultrapassou, procurei não perder-lhe de vista, pois de certa forma me sentia constrangido em ser ultrapassado, a não ser por aquele que estivera o terço final auxiliando em meu ritmo. Foi assim que pensei neste momento. São momentos de extrema satisfação os momentos finais da maratona, difícil encontrar sensação que se iguale a esta, também extinto é sofrimento semelhante pois durante o percurso tudo se passa pela mente, inclusive parar ou nunca mais fazer outra como me dissera uma corredora em conversação comigo. Assim, finalizei ultrapassando este corredor num sprint alucinante. Uma platéia bastante grande aplaudia na chegada, é compensador ver a consideração que existe para com estes heróis que são os corredores de longas distâncias. Tudo se reverberou numa expansão de emoções, cheguei e chorei, chorei por breves momentos, os quais considero como muito importantes, tudo pela importância e dificuldade do evento, são momentos especiais que um maratonista sente que se superou. Nesta ocasião fiz 20 minutos abaixo do previsto. De donde vêm tanta emoção? O quê é a maratona? É por esta especialíssima gama de sensações, idéias e sentimentos que não me canso de fazer e expor estas questões. São momentos breves, mas inigualáveis em intensidade e vivência. Encontrei momentos depois, na chegada o sujeito com o qual correra com passadas uníssonas por tanto tempo, nos abraçamos e respectivamente agradecendo-nos um ao outro o auxílio, uma perfeita simbiose humana é a puxada de ritmo.

       Por isto venho a crer que a prova da maratona possui características que não se igualam à qualquer outra prova. Esta prova tão especial faz com que as pessoas se emocionem e que estas venham trazer à tona uma série de diferentes emoções.

40 - Sobre o inicio do mundo

  Cap. 40 - SOBRE O INICIO DO MUNDO: Porquê haveria esta energia de mudar de estado?         Mas então como começou o mundo? Talvez fo...