Cap. 36 - LIBERDADE E LUTA PELA VIDA
Possível seria aproximar-nos da loucura querendo chegar à um senso
real.
No âmago da
consciência de cada ser há uma verdade, corrompida pela conotação supérflua e
corriqueira de cada dia. Quando será libertada a energia única que vive em
nossas entranhas? Somente quando encontrarmos a liberdade do espírito, a
ausência das necessidades, o que conduz à ausência de vontades que não possam
ser concretizadas.
Assim, querer correr além daquilo que é
permitido é sinal de pobreza de espírito, e logo ausência de liberdade, vejamos
agora sobre este tema, ou tema similar a seguinte descrição:
“Entremeado num ambiente
competitivo lá estava eu, com toda a convicção de que iria obter um bom
desempenho. Tratava-se de um duatlon com a parte de natação e logo depois
corrida nas distâncias de 500 mts. e 3.000 mts. Um fato bastante curioso é que
dois dias antes sonhei estar conversando com alguns companheiros de treino,
noutro dia sonhei estar fazendo um simulado da competição. Após chegar ao local
procurei concentrar-me e pensar que iria me sair muito bem, pois estava
consciente de que havia treinado bem. O momento da largada foi bastante
tranqüilo, procurei não criar muitas tensões em meus pensamentos, não obstante
não podia deixar de ver os outros competidores, o que fazia com que eu criasse
em min uma certa dose de expectativa e divagação negativa quanto ao me
desempenho. Julgo que somos muito influenciados pelas visões, já que este é
nosso principal sentido de contato com o mundo, um atleta cheio de patrocínios,
vestido de maneira elegante, opulenta e correta certamente cria uma tenção extra
nos adversários, é provável que por menos que eu quisesse isto tenha ocorrido
comigo, o inconsciente capta coisas de que não nos damos conta e influencia em
nosso estado de ser e de estar de modo que o consciente não percebe que o ser
como um todo está sendo atingido por fatores externos. Sabia certamente que
aquela competição portava importância apreciável já que haviam adversários em
quantidade e qualidade, tentando esquecer todos os pensamentos ouvi o tiro de
largada e comecei a nadar, e cada vez mais me desconsolava notando que meu
desempenho não correspondia em nada com o que previra; Acaso seria melhor não
haver feito qualquer previsão? A previsão me trouxe a indignação e a
insatisfação! Enquanto meus braços perpassavam pelas maleáveis sendas da água me
lembrava dos treinos que há 40 dias estava fazendo, com um comparecimento antes
autolitário que democrático, a cada erro desfalecia minha auto imagem
positivista mas não a perseverança. Saindo da água como um desesperado, após
dois erros de virada e uma trombada incomensuravelmente inconveniente com outro
nadador, o qual nadava na mesma raia entretanto na direção oposta, logo tirei
os óculos e tentei de maneira desordenada, desesperada e destituída dos mais
sutis laivos de razão colocar os tênis, que estando amarrados com determinada
amplitude relutavam em abranger a totalidade de meus pés, o que
conseqüentemente me rendeu valiosos segundos, segundos estes que devido ao
estado de consciência em que me encontrava mais asemelhavam-se à dias ou
semanas que propriamente à esta unidade de tempo tão ínfima e constricta. Assim
saí correndo após estes breves contratempos, os quais considero como situação
absolutamente fora do comum, que não são consideradas como nadar tampouco como
correr, mas que abarcam em si uma sensação de que não se sabe onde está nem o
que se está fazendo. Saí em vertiginosa corrida, e demorou certo tempo até que
soubesse que estava realmente correndo, talvez seja isto devido à troca de
ambiente, e quando tomei consciência de que estava correndo e de qual era minha
disposição de correr naquele momento meus sentidos de vitória
desconfiguraram-se quando vi muito ao longe dois corredores embuidos de uma
ferrenha ambientação competitiva, a respiração que oxigenava meus músculos era
exacerbadamente rápida indicando até uma certa falta de controle,
contrariamente à esta estava meu cérebro pensando em correr mais e mais rápido
[ falo dele como se ele não fosse a essência do próprio eu ] logo avistei ao
longe um corredor o qual julguei ser o terceiro, mas que ainda de longe
cogitava alcançar, fato que inopinadamente e de maneira graciosamente
pretenciosa consegui executar. Olhava-o inicialmente pensando que não o
atingiria, ao passar de um determinado tempo, pelo fato de que o percurso era
constituído de várias voltas pude examinar
minuciosamente sua expressão de cansaço, o que certamente me deu novas
forças para alcança-lo. Porém o jogo psicológico e físico era bastante perigoso
e certamente poderia matar a autoconfiança, e denegrir a imagem que cada um de
nós fazia de si, pois os metros se e esvaiam e me preocupava também com a
possibilidade de que mesmo estando eu pouco mais rápido findasse ele por acabar
na frente, o que representaria, segundo
meu julgamento intrínseco, uma voraz injustiça quanto ao desempenho na
parte da corrida. Enquanto corria pensava nisto, houve determinado momento que
vi não seu utópico chegar à atrapalhar-lhe a concentração com o ruído
desagtradável que pudese à ele parecer o de minha respiração, assim mesmo
extenuado decidí que aquela seria a hora, ou então nunca pois tudo se acabaria
tendo fim a fantasia. Ultrapassei-o como se estivesse me sentindo leve [ é
evidente que me sentia como que carregando um bloco de concreto nas costas ] e
rezei para que não houvesse reação por parte dele, pois analizando seu porte de
triatleta assustava-me: alto, magro, passadas largas e um certo cerne de
concentração, se acaso houvesse uma resposta estaria perdido, uma breve curva e
logo a reta final, onde naquele momento, pois maiores que fossem os super
competidores me sentia como se o próprio super herói Flash das histórias em
quadrinho não fosse capaz de chegar perto de min, de tão explosiva e raivosa
que era minha velocidade naquele exato momento. [ este era ao menos o
julgamento que tinha de min mesmo ]”
Enquanto houver tempo
para descalço caminhar sobre a grama, uma paisagem ao longe contemplar, e ainda
ao respaldo de uma árvore, sentar, silenciar e a alma apaziguar haverá vida.
Por menor que seja este tempo, pois o momento em si não é construído de tempo
mas de estado de espírito, se não há acaso um momento do dia para fazer algo
aparentemente tão simples como isto não haverá vida, e o espírito
ignorantemente estará sujeito às ludibriosas cachoeiras de informações da
sociedade, e à limitação implícita da liberdade filosófica.
Caro leitor: Convenhamos que os
pensamentos desenvolvidos neste último parágrafo, mesmo que fugindo de maneira
escandalosa à descrição, completam de maneira bastante atrativa a frase que
traduziu a idéia principal deste fruto ( seu gosto por assim dizer ), frase que
fora dita anteriormente à descrição: Verdade
corrompida pela conotação supérflua e corriqueira de cada dia. Somos
portanto suprimidos pela realidade em que vivemos, de maneira que muitos de nós
não conhecem o potencial que possuem. Por quê não conhecem? Lhes responderei
esta pergunta com muito bom prazer, a sociedade molha os pés na crista das
ondas mas procura não afundar as pernas além dos joelhos, não porque não querem
mas porque é de tal modo organizada, o que poderíamos mais tarde definir como
desorganizada, que impões ao sujeito que ele não passe deste nível, que não
mergulhe mais na imensidão da liberdade de questionar, pensar e viver.
Entretanto é uma imposição mascarada, de modo que ludibria o cidadão fazendo
com que nem mesmo ele saiba que está sobrevivendo de maneira limitada, fixem-se
por favor no fato de que utilizei a palavra sobrevivendo e não vivendo, pois
viver de maneira limitada não é viver e sim sobreviver.
A competição em si é uma mera invenção do
homem, convencionou-se que seria campeão aquele que chegasse primeiro, o que
fosse mais rápido receberia mais honras glamour e méritos. O que é na realidade
uma grande ilusão, pois não há no mundo alguém que seja melhor que outrem, e
acima de tudo não existe necessidade de se correr tão rápido quanto se faz em
uma competição. Portanto o ato de competir extrapola a necessidade de
movimentos físicos do ser humano, por isso diz-se que competir não é saudável
para o corpo tampouco para a mente já que submete esta igualmente como o corpo
à requisições acima dos parâmetros comumente utilizados. É paupérrimo em razão
linear inserir um contra-senso em uma discussão, e possível seria aproximar-nos
da loucura querendo chegar à um senso real, mas é dito que as idéias
antagonistas são bastante viáveis em nosso caso em específico, para que
possamos com maior lucidez chegar à teoria do que seria mais ou menos real.
Explicar-me-ei leitor bondoso, para que não fique vossa senhoria tão
embaralhado quanto aquele que se perde num fosso de azeitonas sem um só palito
para petisca-las ( será que fiz uma analogia cabível ou compatível à situação
vigente? ). O fato é que o esporte competitivo, tema desta última divagação é
inegavelmente parte integrante do ser humano, de modo que à partir do momento
em que nascemos lutamos para viver, pode-se dizer que estamos sempre nos
esforçando para não morrer, por mais estranha que possa parecer esta afirmação
seria uma falta bastante grave dizer que é inverossímil, se há de parar para
pensar de maneira pouco mais profunda nesta frase, que retrata um fato: Lutamos contra a morte desde sempre que
estamos vivos. A competição desportiva nada mais faz que retratar uma
realidade já bastante conhecida do ser humano: a luta pela sobrevivência, desde
os primórdios da humanidade já nos entretínhamos com coisas corriqueiras e
supérfluas como fugir de feras e buscar desesperadamente por comida, é verdade,
talvez tenha me enganado, talvez não sejam estes dois afazeres supérfluos, mas
sim antigamente eram bastante corriqueiros, hoje no entanto nos encontramos com
a soberba luxúria de uma sociedade desigual e conturbada pelo próprio luxo de
modo que não há mais a consciência de saber que ainda lutamos para viver, temos
de comer algo caso contrario desfalecemos sem energia, e privamos pela vida,
procurando ao máximo não nos submeter às situações perigosas. A maratona
portanto descreve a luta pela vida uma situação da qual a sociedade se
distanciou amargamente. Maratona é a luta contra a morte, exatos 42.195 metros
de uma incansável trajetória de dores e sofrimentos que retratam aquilo que
está em falta num mundo de comodismo, prazeres e inércia. É este o sinal de que
há uma resposta da naturalidade inconsciente dos humanos à uma conduta de vida
artificial impregnada de privação da própria liberdade de escolha de caminhos.
Vejo que houve certamente nas frases
anteriores certos ímpetos de revolta, mas vimos com bastante comedimento que
fora de maneira automática encontrada senão a solução ao menos a repercussão
duma sociedade que acaba por reger, mesmo que este não o sinta ou saiba, a
conduta do humano. A repercussão natural é a necessidade de movimento,
comparada com a luta pela vida o que hoje sumiu deflagrando na perca da noção
do que é a própria vida, pois não mais se sabe que lutamos pela vida. É viável
pensar que não se vive mas sobrevive como supraescrito, já que novos conceitos
e idéias deglutiram os monólogos anteriores, não somente devoraram como
distorceram, dando margem à um ser distante de si mesmo.
É notório verificarmos que o esporte
retrata a essência da vida, a necessidade de se lutar pela vida, superar algo
para que se continue vivo, física e mentalmente. É plausível no entanto
digladiarmos à igual altura que a competição ultrapassa os limites aceitáveis
do que poderia ser considerado como suficiente para saúde física e mental. Têm
a luta pela vida algum limite? A luta pela vida pode nos proporcionar graves
danos no entanto não têm quaisquer
limites, o limite seria por certo a própria vida, mas a partir do momento em
que o ser é destituído de vida não há mais vida, portanto não há limite.
Competir é lutar pela vida e extrapolar
os limites do bom senso, na luta pela vida não há limites de bom, mau ou
qualquer senso pois o que importa é a vida. A competição não é somente um
fenômeno criado pela cultura \humana, uma convenção de determinadas regras,
preceitos e idéias mas também o resultado de necessidades primitivas da vida
humana, ou a repercussão do fato de que a luta pela vida foi reprimida pelo
próprio modo de viver humano, assim como não precisamos mais lutar pela vida
criamos a competição.
Disse que criamos a competição, porém o
fato é que uma essência natural do ser humano não pode ser criada pois sempre
existiu, é evidente que a competição é a luta pela vida, e que esta é uma
essência humana. Assim por isto foi dito que a competição não é somente um
fenômeno cultural como também um extravasamento da essência do lutar pela vida,
é portanto tão natural quanto comer, respirar ou dormir.
Mas que raios é os tema deste capítulo
afinal? Não me vanglorio por haver galgado as escadas deste belo palácio que é
a loucura de se perder em si mesmo. Definiremos assim que este é o caminho que
nos leva às mais criativas divagações, mas que nos deixa pouco acanhados quando
pensamos em organizar os temas, de modo a saber realmente qual o cômodo que
visamos.
Incitei no inicio de nossas discussões a
idéia de que aquele que nada quer nada precisa, e de que há muitos que querem
mais do que precisam. A liberdade é por certo um estado de espírito provindo da
não necessidade de nada. Competir é estar livre ou preso e fadado à seguir
determinados parâmetros? Segue-se a pergunta: Viver é estar livre ou preso? Se
acaso houver algo mais abrangente e maior que a vida diz-se que viver é estar
restrito. Pensando que a competição é parte da essência natural do ser falar-se-ia
que competir é um ato de liberdade pois não se pode fugir à essência natural,
do contrário se dissermos como foi anteriormente negado que a competição é uma
criação cultural, uma mera convenção de regras, atitudes e idéias será então
uma privação da liberdade. É então a cultura a privação da liberdade? Não
porque há, como neste caso, momentos em que a cultura se encontra e atua
juntamente com as necessidades naturais humanas, e como já proclamado a
necessidade de lutar pela vida é intrinsecamente natural.
Em geral grande parte da cultura
impregnada na sociedade priva-nos de conhecer a liberdade natural, pois
distorce idéias e conceitos inerentes à todo o redor , que fazem parte do ser
num contexto integral e fluente. Estando distorcidas estas idéias tudo fica
obscuro e enganoso. Como se a pessoa vivesse algo que não componha a realidade,
que não condiz com o real. E a grande maioria pode viver neste estado de
letargia e festa de máscaras da fantasia, o grande problema é que as máscaras
são tão reais que as pessoas acabam por não saber que estão numa festa de
representações acreditando piamente no que vêem.
Dizer-me-ão os leitores precavidos,
conscienciosos que já perpasso as idéias por parábolas, comunicando de maneira
excessivamente sujeita à interpretação. Pois que continuem vosotros dizendo, e
que critiquem minhas faltas e deslizes com o maior desvelo possível que já lhes
aclararei alguns tópicos num piscar de olhos.
A própria inatividade física é uma fuga
das idéias naturais humanas, a palavra idéias pode ser transcrita como ato, o
que significa outra coisa, mas também é algo incrustado na natureza humana.
Como podemos deixar de fazer ou pensar algo que é natural e faz parte da
essência humana? Isto sim deve ser considerado como a ausência da liberdade,
mesmo que seja uma escolha de “livre e espontânea vontade”. Note leitor que fiz
questão de colocas aspas em livre e espontânea vontade, pois a partir do
momento em que se entra num baile de fantasia e máscaras tão perfeito
acreditando serem estas reais não se têm mais
um discernimento confiável, é assim que se distorcem os conceitos e
idéias. Mas existe um conceito e uma idéia natural? É certo pensarmos que
existe quando notarmos que a grande massa da humanidade têm suas repercussões,
resultados e extrapolações oriundas da repressão desta energia natural por
assim dizer. Isto é, a própria criação das corridas num momento em que o
comodismo e inércia começaram a inundar os quatro cantos do planeta. Ou seja: a luta pela vida é uma idéia
natural do ser humano, e por mais que esta como outras idéias naturais sejam
distorcidas pelo “desenvolvimento” ( que também poderia ser chamado de
retrocesso ) sempre haverá um pitoresco indivíduo que irá à festa de fantasias
vestido de maneira natural, sem quaisquer vestimenta, como se não soubesse que
era para trazer uma fantasia de cabal singularidade ou mesmo entrando de gaiato
sem convite ou sapatos. Representando assim o vazamento das idéias naturais ao
mundo exterior.
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