Cap. 27 – UMA HORA DE ENTREVISTAS.
Durante o dia
minha sombra me acompanha, à noite a lua é quem me segue.
Estão
apresentadas neste capítulo diversas entrevistas com corredores. Caros
leitores, não ficando tão somente restrito às entrevistas de maneira simplista,
faremos uma análise minuciosa dos pensamentos emanados pelos entrevistados.
Pois, de nada adiantaria saciar somente a curiosidade daquele que lê, mas sim
trazer à tona uma série de reflexões aprofundadas, assim sendo, apresento-lhes
uma parte do livro que possui venerável distinção. O nome do capítulo é devido
ao fato de que na ocasião das entrevistas preenchi uma fita de exatamente uma
hora com o total de entrevistas, as perguntas foram feitas no dia 31/12/2001
e 31/12/2002 nos períodos antecedentes e posteriores à corrida São
Silvestre na cidade de São Paulo. Agradeço aqui à todos os corredores que de
bom grado concederam a entrevista e permitiram a transcrição da mesma para o
livro, o que foi de grande valia para nossos estudos. Disse decerto que neste
livro somente encontravam-se pensamentos referidos e provocados por min, talvez
tenha sido esta uma pretensão bastante inverossímil já que nesta parte do livro
os pensamentos provém dos corredores entrevistados, para propagarem-se através
de outros pensamentos, estes outros referidos darão o maior respeito e
concretização dos primeiros. Serão transmitidas à seguir a série referida das
questões elaboradas:
1) Por
quê você corre?
2) Onde
você treina?
3) Quantos
quilômetros por dia/semana?
4) O
quê você acha da maratona?
5) Há
prazer no desprazer físico?
6) Quais
são seus sentimentos na largada?
7) Na
chegada?
8) Qual
é a filosofia do corredor fundista?
9) Há
aspectos negativos na corrida? Quais?
10) O quê
é mais difícil na corrida?
11) Cite
um fato inóspito ou extraordinário que já lhe ocorreu relacionado à corrida.
12) Cite
uma desventura.
13) Cite
alguma história de caráter cômico.
14) Deseja
deixar alguma mensagem para que seja colocada no livro? Qual?
15) Qual
o limite do ser humano na longa distância? Existe?
16) De
que maneira a religião interfere nas suas atividades físicas?
17) O quê
provoca tristeza em relação à este esporte?
18) E
alegria?
19) Qual
a melhor corrida?
20) Nome
completo e idade e cidade onde vive.
Há São Silvestre, a tão falada prova
onde se encontram corredores de todo o Brasil. Uma loucura, alguns alongando,
outros conversando, aquecendo ou já se posicionando na largada até com uma hora
de antecedência para pegar um bom lugar. Um grande contingente que se reúne
numa ocasião de muita festa, final de ano para correr... Loucos? Fanáticos? Até
hoje não se sabe ao certo, o real é que partilham de um gosto em comum: correr,
correr mais, e correr mais ainda! Assim ocorre que a confraternização se passa
no aspecto de que todos partilham de uma mesma alegria formando ali uma grande
festa. Não sei ao certo porque escolhi esta prova para fazer os questionários,
é provável que seja pelo motivo de que esta é uma das maiores. Vamos agora
veremos respostas e, conforme citado anteriormente faremos as respectivas
reflexões:
31/12/2001
A - Entrevista
primeira / Com o corredor Cícero Plácido.
1)
Eu estou correndo para manter a forma, porque eu estava
meio de forma. No momento estou estreando nesta corrida... mas estou para manter a forma, porquê estava
meio gordinho também.
2)
Treino ao lado da represa Bilings. Têm uma pista de
atletismo que fizeram agora pouco, é de pedra, mas da para treinar.
3)
Eu tô correndo três vezes por semana uma média de 14/15
quilômetros.
4)
A maratona em si é comprida, mas essa é de 15
quilômetros, meia maratona assim dá para você chegar razoável, agora a maratona
normalmente é mais difícil.
5)
Não. Nunca senti dor durante a corrida. Você fica mais
resistente às doenças.
6)
O sentimento é de comemoração do ano que está para
chegar, e a despedida do ano velho.
7)
Na chegada o sentimento é de vitória, agradecer o ano
todo que passou, e agradecer a Deus por ter chegado com saúde.
8)
A filosofia é correr tipo trote, para gastar menos
energia possível e poder chegar no final.
9)
Em si sim, têm. Primeiro porque você vêm para correr já
partem 400/500 pessoas na sua frente, que são os corredores de elite A, B e C.
Fica difícil para quem vêm correr de trás.
10)
Eu acho que o mais difícil é a largada, principalmente
para quem não corre no pelotão de elite. Você vai demorar muito tempo para se
desgarrar das turmas e fazer o seu ritmo. Durante os treinos o mais difícil é
você manter sempre o rendimento, você têm que estar sempre mantendo o máximo.
11)
Em corrida eu não tenho como falar, o que aconteceu foi
treinando. Eu me machuquei durante o treino, foi no pé: eu atropelei, pisei
numa pedra e machucou um pouco.
12)
Questão omitida em decorrência da desventura
anteriormente descrita.
13)
O que aconteceu de engraçado é que tem um colega que
corre comigo lá, e ele começa a correr, só que ele não têm limite para parar,
outro dia ele atropelou uma pessoa que estava passando mais devagar que ele.
14)
A mensagem que eu tenho que falar é que todos que
puderem ter força de vontade participem de corrida e atletismo, que é uma boa
para sua própria saúde, sua e nossa.
15)
É difícil explicar o limite, porque o limite está em
cada um. Você têm que correr a corrida de longa distância para você saber o
limite que você pode.
16)
Eu não acho que a religião interfere na atividade
física, porque eu sou católico e a religião nunca fez diferença sobre isso.
17)
Em relação ao esporte em geral é a falta de patrocínio,
este tipo de coisa. Que ajudaria melhor o atleta.
18)
Como sempre a vitória: não a vitória de chegar sempre
em primeiro lugar, para min o que é importante é você chegar com saúde, não
vencer chegar com saúde.
19)
Aquela que você chega inteiro, com bastante oxigênio.
Se você chegou inteiro e com saúde está bem.
20)
Cícero Plácido de Lima, São Paulo, 34 anos.
Caros leitores: finda esta entrevista
faremos agora nossa análise providencial, efetivamente deveremos chegar à
conclusões mais complexas que os pensamentos emanados pelo corredor, veja que
quando falamos, muitas vezes proferimos frases ou palavras que são de grande
interesse para os pensamentos mais sérios, porém não nos apercebemos disso pelo
motivo de que o falar funciona diferentemente do ler e refletir sobre o que foi
falado, é justamente isto que faremos nestas linhas proscritas. A organização será
de uma maneira bastante simples, através de algumas frases ou palavras ditas
farei comentários a respeito.04/01/02 03:45:15
Antes de tudo gostaria aqui de comentar
que o corredor Cícero Pácido pareceu-me uma pessoa de grande simplicidade, é
interessante fazermos esta distinção, pois há pessoas que expressam-se de
maneira deveras simples, enquanto outras que parecem Ter mais noção sobre a
realidade que as cerca e sobre suas atividades, tais como a corrida que é alvo
de nossas discussões. Certamente a simplicidade não implica numa ignorância de
noção sobre o ambiente em que se está inserido, ou na atividade, porém têm
grande peso quando se necessita explicar o que se faz, cheguei à uma conclusão,
através das entrevistas, de que existem pessoas que possuem grande facilidade
em explicar as coisas e as explicam com grande complexidade, sendo assim estas
situam-se numa realidade mais verdadeira. Ou seria isto de que falo uma
mentira? Outras pessoas vivem a vida com tanta intensidade que não lhes sobra
tempo para tentar explicar o que fazem, estas são aquelas que têm dificuldade
em descrever o que lhes ocorre. Neste caso dividiria a humanidade em dois
grupos característicos, é lógico que há muitos que procuram uma mescla destas
características. Os grupos anteriormente idealizados seriam os:
A - seres experimentais
B - seres entendedores.
Quais seriam aqueles que melhor vivem a
realidade. O que entendemos por realidade? Veja que se faço uma corrida de 10
quilômetros para 32 minutos perpasso como ninguém tal experiência. Por outro
lado posso buscar, tal como o fazemos neste livro, explicar todas as nuanças
deste feito, o que me traria uma consciência total disto. Portanto vemos que há
um grande dualismo no que tange ao aspecto de vivências e consciência de vida
no ser humano. Após estas iniciativas conclusões iniciaremos de uma vez por todas
com o assunto a que nos propusemos a adentrar.
Cícero citou na resposta da questão 4 que
crê que a maratona é uma prova mais difícil que os 15 quilômetros, porém na
verdade tudo é muito relativo e depende de qual é o objetivo de quem corre a
prova, pois se quero correr uma prova mais curta querendo fazer um tempo
extraordinário é evidente que mais fácil seria correr uma maratona somente com
o intuito de completar a prova. Isso de achar uma prova mais difícil que outra
somente levando em consideração a distância a ser percorrida não têm cabimento,
é certo que numa primeira instância iremos nos assustar com a distância, porém
tornaremos a dizer que depende qual o tempo visado.
Na questão 7 em que o corredor diz que
deve agradecer à Deus por Ter chegado com saúde podemos mais uma vez citar o
aspecto de religiosidade no esporte, veja que há uma contradição, pois o
corredor na questão 16 diz que não acredita haver interferência divina no
esporte. Ocorre que o simples fato de que ele agradece à Deus por haver chegado
com saúde incita a pensarmos que no transcorrer da corrida houve uma
interferência superior ou religiosa, esta fazendo com que ele continuasse
saudável.
Há uma grande vantagem em relação aos
corredores de elite em relação aos outros corredores, Cícero faz com que isto
fique bastante claro quando diz que 400 ou 500 atletas da elite já partem com
vantagem, isso é verdade, e mostra como é acirrada a disputa da corrida, já que
ele fica instigado senão extremamente incomodado com este fato. Já abordamos
sobre as características competitivas de nossa sociedade, é mais uma vez que
haveremos de cair sobre este assunto já que as pessoas são mergulhadas nesta idéia,
não quero desmerecer a competição, pois esta possui um aspecto bastante bom,
cria uma auto estima e auto confiança muito grande na pessoa que persevera com
esta ideologia. Mas ficando restrito somente à este aspecto criamos o perdedor,
o único que é perdedor é aquele que é influenciado pelas idéias de um mundo
competitivo e fica para trás. Do contrario encontramos um vencedor naquele que sente prazer em correr e corre para
alegrar-se. A competição pode trazer muitas desilusões nas pessoas, o atleta mostra
através de suas reclamações que valoriza a competição, está imerso no modo de
pensar que preza a vitória, ele pode tanto chegar no êxtase de sua vitória como
sofrer o amargor da derrota. Quero
reforçar esta idéia quando ele diz que durante os treinos deve-se estar sempre
mantendo o máximo, o que é absolutamente errôneo já que implica num desgaste
excessivo do corpo, mas há uma ressalva pois não sabemos se quando ele diz que
deve-se manter o máximo é máximo a nível de qualidade ou de velocidade, pois o
melhor treino não é o mais rápido, senão o que é seguido mais a risca segundo
as indicações do técnico ou de alguém mais experiente. De qualquer forma tanto
um quanto outro incitam competitividade Considerem isso como uma crítica.
B – Entrevista
segunda / Com o corredor João Machado.
1)
Eu corro porquê me faz bem , faz bem a saúde. E até
para o meu equilíbrio pessoal a corrida faz parte hoje do meu dia a dia, dia sim dia não eu estou sempre correndo. Em
qualquer tempo eu estou correndo.
2)
Eu treino lá perto da minha casa, no Campo Belo têm
umas ruas ali bem tranqüilas, eu corro na região e faço uma média de 5/6
quilômetros quando eu corro.
3)
5/6 quilômetros dia sim dia não.
4)
Eu acho que é uma prova bastante interessante, mas para
min já acho que é um pouco forte demais, acho que não conseguiria. Até meia
maratona dá para encarar. 42 quilômetros é muita coisa para min.
5)
Na verdade não é um desprazer, é como tudo na vida, no
começo existe muita dedicação da gente, eu diria que nos primeiros 15 minutos o
corpo sente um pouquinho, mas na seqüência depois disso o organismo se adapta,
como nosso organismo é muito perfeito ele se adapta e agente vai na boa. Ou
seja: se você está bem treinado você pode correr até mais do que você precisa,
o corpo se prepara para mais.
6)
É um sentimento de fazer parte, é uma coisa muito
gostosa. E é na verdade uma das maiores dificuldades do ser humano hoje é... -
Eu faço parte; - Eu sou alguém. Na verdade essa é uma coisa que é demais. - Eu
estou aqui. Aliás a mídia fala muito dos grandes corredores que ganham prêmios
para vir aqui, mas quem faz uma corrida como esta aqui são os anônimos como eu.
Porquê são 15.000 pessoas que treinaram a vida inteira, e que vêm aqui para
fazer a festa. Correm pelo prazer de estar correndo.
7)
A chegada é uma coisa sensacional porque é como se
fosse o fechamento de um ano. Até outro dia eu escrevi um artigo sobre isto: a
São Silvestre se compara à um ano da vida da gente: têm subidas, têm descidas,
têm horas que você está cansado mas que você têm que correr. E você têm que
chegar no final do ano. Então a chegada mostra como se fosse o final de um ano,
é a chegada de um ano: que você sai e têm que terminar de qualquer jeito.
8)
Eu acho que a filosofia dele, imagino que seja um
desafio para ele mesmo, ele meio que se auto-desafia. Diferentemente da forma
que eu penso: eu corro porque eu gosto, não estou nem um pouco preocupado se
vou chegar em primeiro ou em último lugar. Por exemplo: no ano passado eu tive
uma posição na São Silvestre, este ano eu não estou preocupado com aquela
posição e sim a posição que eu vou chegar este ano com o meu ritmo. O meu ritmo
é o melhor ritmo. Então eu imagino que um fundista deve pensar de forma diferente
porque 42 quilômetros é um esforço bastante forte. Porque o nosso corpo não
está muito programado para isto: vamos pensar na forma que fomos projetados um
dia nós corríamos uma distância para pegar uma caça, não para correr 42
quilômetros. Então eu acho que isso aí é meio que forçar uma condição além da
capacidade humana. Na minha opinião.
9)
O que existe é um pouco de sobrecarga nos joelhos e
articulações. Como eu te disse: o projeto nosso de homem, de ser humano não foi
feito para você correr tanto num ambiente... em asfalto que é duro. Por mais
que você use tênis você está forçando seu joelho. Então existe muito problema
de articulação, eu graças a Deus não tenho este problema ainda, mas que eu
sinto e já tive dores é nas articulações
porque o nosso projeto não estava programado correr tanto: batendo, batendo,
batendo num piso tão duro.
10)
É mais difícil na corrida o antes da corrida: o
treinamento. Porque quando você está treinado a coisa rola bem, você estando
bem preparado a corrida é na boa. Agora a grande dificuldade que eu sinto,
inclusive de pessoas de provas que eu faço. São pessoas que não estão
preparadas para correr. Então não treinou vai ter problema. Quando a gente está
treinado é tudo festa, inclusive a vibração é uma coisa muito forte, tem gente
pelo percurso todo: gente vibrando, aplaudindo isso é uma coisa que passa para a
gente, é uma coisa impressionante. Estando bem preparado é tudo festa.
11)
Em corridas longas eu já senti pessoas com dificuldades físicas, e você
vendo a pessoa correr com dificuldade muito mais forte que a sua e você fala
assim: - Puxa vida, você vai consegui
mais do que esta pessoa e ela está se esforçando muito mais do que você.
Ou em chegando aqui eu moro em São Paulo, e têm ônibus aqui de gente que vêm de Goiás, gente que viaja a noite
inteira, que viaja até dois dias para chegar aqui e correr. São fatos que para
min são extremamente fortes e marcantes no sentido de que há pessoas que fazem
muito mais do que eu para estar correndo. Isso é uma coisa que me marcou
bastante.
12)
Desventura eu tive uma vez só, que eu estava treinando
e eu escorreguei, torci o tornozelo e caí. Me ralei todo, fiquei todo cheio de
sangue. Foi a única coisa que me ocorreu de negativo em corrida, uma desventura
que a gente pode chamar. E ninguém me ajudou, o que é mais interessante.
13)
Nas corridas que a gente faz, nesta mesma: o ano
passado um cara vestido de “Guga” com uma raquete desse tamanho na mão ( faz um
gesto de uma incomensurável raquete ), têm um cara de noiva, todo ano ele
corre, têm um rapaz que corre de Aírton Senna com o capacete na mão, todo ano
ele está aqui. São coisas cômicas, você dá risada, têm outro que todo ano ele
corre você vai ver ele na televisão, com uma peruca desse tamanho ( o
entrevistado faz o gesto de uma gigantesca peruca. ) vermelha correndo. São coisas
muito engraçadas.
14)
Diria o seguinte: que tudo na nossa vida a gente têm
que se dedicar para fazer. Se você quiser correr dedique-se a isso que você vai
ser um bom corredor, para nadar a mesma coisa. Se você é um compositor se
dedique a isto. Você não escreveu um livro? Se dedique a isto, se prepare, vá
atrás. Medite muito sobre isto... Que eu acredito muito em ajuda espiritual nas
coisas, eu até faço parte de uma seita espírita a Seara Bendita. E se a gente
têm uma mensagem para ser dada, no caso um livro ou uma corrida você vai ser
ajudado para que esta mensagem seja passada. A mensagem que eu deixaria é a
seguinte; Nós não estamos sós. Em qualquer coisa que a gente faça com bom
coração e bem feita, de amor, você vai ser sempre ser ajudado. Seja na corrida,
seja um livro, seja dirigir um país, dirigir uma empresa, enfim: qualquer coisa
que você queira fazer.
15)
Eu acho que não existe o limite, eu acho que cada cara
que têm que dar o limite dele. Mas eu acho que o que acontece muito são pessoas
que desafiam além do limite dele, e aí acaba dando problemas. Têm gente que
morre por exemplo na São Silvestre do coração. Aí que está o problema, é saber
que ela têm limite e cada um têm o seu. Então eu não diria que existe um
limite, cada um têm o seu, mas, a pessoa nunca pode ir além desse limite. Não
pode forçar. Por exemplo: na corrida se eu sentir que eu estou forçando muito
eu vou dar uma diminuída, uma reduzida, e têm pessoas que não fazem isso. Em
função do objetivo de chegar um na frente do outro, de ganhar ele pode até
morrer. E têm pessoas que não medem esforços em função do objetivo, eu acho que
isso não têm nada a ver. Eu acho que a principal coisa é você sentir prazer na
corrida e chegar na boa. É como corrida de carro: você não pode correr mais que
o limite, o que você têm controle porque senão você vai capotar o carro e vai
morrer. Têm corredor de Fórmula 1 que faz isso, vai lá no limite e morre. Quer
dizer: Qual é o limite humano? Cada um sabe o seu, só que têm pessoas que
extrapolam este limite e a para é muito cara, é a vida.
16)
Ela interfere não na atividade física, mas na vida de
uma forma geral, o sujeito que têm uma religião ele têm fé, ele acredita e ele
se prepara. E ele respeita os seus limites também. A religião na minha vida, e
na corrida ela não é diferente, tanto é que daqui a pouco agente vai fazer uma
oração, o nosso grupo aqui, pedindo proteção para a gente chegar bem, só isso.
Sabe? Isso é fundamental não só na corrida mas como na vida como um todo é a
crença em Deus, independente da seita que você siga é fundamental que você
acredite em Deus. Se você for estudar história um pouquinho, todas as
civilizações à 5/10.000 anos antes de Cristo já começaram a pensar em Deus,
cada um da sua forma, eles não estavam errados, assim como nós não estamos
errados. A maior dificuldade que está acontecendo hoje é que muita gente está
interpretando Deus sobre um prisma materialista, inclusive gente jogando avião
em cima de uma torre porque Deus quer. Para com isso, isso é besteira. Acho que
Deus é tudo na vida de um ser humano, em termos de fé, mas acima de tudo em
termos de mostrar a vida, alegria de estar fazendo: - Eu chego, eu posso fazer.
17)
Eu volto para aquele esquema da competição excessiva,
de pessoas que não percebem que é um esporte... Aliás todo esporte deve ser
antes de mais nada algo bom, não de competição de você machucar alguém, outro
dia eu vi na televisão uma moça na corrida da olimpíada, ela deu um “totó” na
outra, derrubou a outra maratonista. Para min isso é uma coisa que machuca
muito, fiquei muito triste. Têm pessoas que na própria corrida como esta aqui
tentando passar por cima do outro para ganhar. Isso nunca!
18)
Aquilo que eu te falei: A sensação de fazer parte. A
sensação de poder sair e chegar. É como na nossa vida de uma forma geral é você
nascer e chegar um dia. É fazer desta jornada uma jornada gostosa, com
dificuldade sim, mas falar assim: - Eu vou chegar. Não importa chegar em 1o,
2o, ou 15o importa chegar. A vida também: não importa
chegar com 10 anos, com 50 anos, com 1000 anos, o importante é chegar bem lá no
final. Tendo feito um boa corrida, tendo feito uma boa vida, uma boa jornada.
19)
A melhor corrida é aquela que eu posso chegar.
20)
João Batista Machado, tenho 46 anos e moro em São
Paulo.
João Machado diz treinar nas rua de um
bairro tranqüilo. Devido à necessidades de hoje em dia às quais estamos
inseridos não temos sequer tempo para ir à um ambiente natural para treinar.
Chego à pensar que o maior inimigo do ser humano é o espelho, ou seja: ao mesmo
tempo que criamos uma sociedade bastante desenvolvida nascem de nossas criações
espetaculares muitos outros problemas, e a própria cidade, feita de aço e
concreto por assim dizer é um grande problema, mais para frente o corredor fala
sobre correr em asfalto, é pois a cidade um ambiente que contradiz a natureza
humana. Concordo plenamente quando João Machado diz que o homem em quanto à sua
naturalidade é feito para correr tão somente atrás de sua alimentação, ou
caçar, o que foi usurpado pelo desenvolvimento da própria sociedade.
É dito na questão 5 que estando bem
treinado pode-se correr mas do que o necessário. Existe um necessário de
corrida? Numa análise fria e metódica veríamos que correr faz até um certo
ponto bem à saúde física e mental, passando deste ponto estaríamos nos
prejudicando, o que é que fazem na realidade os corredores profissionais. Mas
qual é o necessário da corrida. Olhe para a primeira pessoa que você encontrar
na rua e pergunte à ele se ele corre. Se a resposta for negativa diga à ele que
ele se abstém de uma atividade que é necessária. É claro que o entrevistado não
tinha minuciosos pensamentos quando se referiu à isto, e pensou no fato de que
a corrida faz bem à saúde, e por isso é necessária, ou se não é necessária é
algo que ajuda na manutenção física. Há pessoas, como eu, que julgam a
atividade física importante para viver-se bem, entre elas a corrida é um dos
tipos, e é para estas pessoas necessária. Não ficaria três dias sem praticar
exercícios de resistência aeróbia, do contrario começaria à ficar triste,
inseguro, nervoso e até insano para dizer a verdade. É justamente isso, as
pessoas criam para si através de suas vivências o que chamamos por costumes e
hábitos é bastante difícil largar estes quando já estão enraizados, pois se
acostumei-me a movimentar-me excessivamente desde novo difícil seria cortar-me
este hábito, já que me traria tristeza. Tal acontece com a corrida, e por isso
o entrevistado julga a corrida como necessária. Da mesma forma há pessoas que
não conseguem ou sentem grande dificuldade de ficarem sem fazer outras coisas
como ir ao cinema, beber ou usar drogas. É interessante notar que algumas
atividade são de caráter totalmente cultural, enquanto outras atividades
possuem uma explicação biológica, porém estas duas vertentes mesclam-se
confundindo-se. Quem já não ouviu dizer que o vício possui uma fase
psicológica. Muitas doenças também são devidas aos aspectos mentais, o
contrario por suposto também ocorre, ou seja, podemos dizer que a pessoa gosta
de correr não somente por motivos culturais que foram incutidos em suas idéias
mas também pela liberação de substâncias químicas que seu organismo produz, que
fazem com que ele goste de correr. É um assunto bastante interessante pois nos
traz a questão do que é e do que não é essencial ou importante para nossas
vidas. Fico impressionado em ver que existem pessoas que conseguem viver de
forma harmoniosa e prazerosa sem realizar quaisquer atividades físicas. É algo
muito assombroso se fosse aplicado à minha pessoa, mas vejo que conseguem estas
se sentir bem praticando atividades divergentes que não incluem movimentos, não
quero aqui fazer uma reverência ao sedentarismo, porém avaliar que o prazer que
temos em realizar atividades proveio do costume que temos em fazê-las, tanto é
verídico que é bastante difícil aceitar-mos novas realidades em nossas vidas,
principalmente quando os antigos costumes já estão bastante petrificados.
Achei bastante interessante a resposta
de João Machado quando lhe perguntei sobre os sentimentos da largada, pois ele
respondeu que é um sentimento de fazer parte, um sentimento de união. Esta
sensação de integração provém do fato de todos ali estarem reunidos no mesmo
intuito, completar a prova. Todos são cúmplices de uma mesma realidade, pois
passarão pelas mesmas provações e pelo mesmo trajeto. Entre os corredores
existem muitas diferenças é claro, estas de todos os tipos, porém em uma coisa
se igualam: todos são corredores! Daí a sensação de união com os outros. Fato
digno de comentário é questionar se este sentimento de união é condizente com a
competitividade do evento. Sabemos que é uma competição, ainda assim há um
sentimento de união, é claro que não são corredores maldosos e nefastos que
estão ali, mas nem todos entreolham-se com cara de bons amigos, alguns ficam
realmente indignados e mostram-se com total indiferença com os circunstantes
sejam quem seja. Há pois os atletas que não se vêem em união, ou então sabem
que todos ali estão estranhamente unidos mas não demonstram quaisquer sinais de
afeto ou solidariedade pois a única coisa em que pensam é na vitória ou no
desempenho mais positivo que puderem adquirir. Vejam que no Capítulo 4 Tópico D – Indiferença para com
os adversários comentei algo à respeito deste assunto, é uma postura
bastante séria a que adquirem estes atletas. O fato é que por mais ferrenho e
taciturno que pareça ser este procedimento mental não impede que haja um
sentimento de união, esta é a conclusão a que chegamos neste assunto.
Interessante é notar que o corredor cita
na questão 8 que corre porquê gosta, mas quê seria realmente gostar de correr?
Há gente por exemplo que gosta de fumar. Isto estava eu comentando em uma
conversação noutro dia: correr pode ser um prazer tanto quanto fumar ou beber.
Veja que os conceitos de prazer variam de pessoa para pessoa. Há alguns que
dizem que os que correm se assemelham à idiotas já que eles não vêem um sentido
na corrida, e crêem ser esta um desgaste desnecessário de energia. O cigarro por
exemplo é visto como um grande mal, o que cientificamente é comprovado, porém
há os que pagam o preço para obterem o prazer que sentem ao tragarem toda
aquela fumaça. É algo sujeito à discussão já que a corrida pode igualmente
proporcionar uma grande desilusão, já que dependendo do modo que se corre
ocorre o desgaste prematuro das articulações, problemas com os discos
inter-vertebrais, tendinites crônicas, contusões musculares, micro-fraturas,
over-trainning, estresse mental entre muitos outros problemas. Vemos então que
prazer é tudo aquilo que acreditamos ser bom para alguns de nossos aspectos,
independente de fazer bem ou mal à saúde mental e física. Existe prazer em
estar correndo, este prazer não se refere necessariamente à toda humanidade já
que cada qual possui um prazer característico, tampouco se refere à todos os
corredores já que muitos correm sentindo-se extenuados e numa insuportável dor.
Isso é prazer? É a fadiga extenuante um prazer? É inalar fumaça um prazer?
Encontramos uma comparação cabível, já que as duas coisas são aparentemente
desagradáveis. Vamos recair sobre o fato do comodismo do ser humano, que têm
extrema aversão à dor, dor esta proporcionada pela corrida, que causa um prazer
inexplicável para muitos. Noutro dia assistia eu à um programa televisivo sobre
corridas de aventura, não me espantei com o fato da repórter achar tudo aquilo
um sacrifício, porém a visão dos atletas é outra da que possui a sociedade como
dista em geral, pois há muito prazer nos atos de sacrifícios que seriam
insuportáveis aos comodistas. Quando falo em comodistas me refiro à todos
aqueles que somente se deslocam de carro, e não fazem um esforço sequer para
caminhar que não seja andar num Shopping. É mais que certo que este é um grande
problema de nossa sociedade, enquanto não mudarmos a forma de pensar no que
concerne ao prazer do esforço estaremos caminhando por enganosos pântanos.
Diz-se também, segundo as elucidações de
João, que corre-se porquê se gosta. Pois este foi justo o assunto em que me
abstive quando escrevia o livro “Vamos pensar e correr”, devemos formular as
perguntas e responder com o maior desvelo possível. Perguntaria a min mesmo:
Por quê eu corro? Não sendo eu
sadomasoquista responderia: Corro porquê gosto disso. Uma resposta
bastante evidente e simplista, mas que se não fosse esta não prosseguiríamos
com estes estudos, pois se gosto de correr deve haver outro motivo por trás.
Então gosto de correr por quê creio ser agradável a sensação de superação e a
sensação física de contração muscular, encontrei então meus motivos que são
relacionados à psicologia e à motricidade humana. É então de suma importância
notarmos que os motivos que nos levam à fazer algo são inconscientemente muito
mais profundos do que parecem ser. Vamos intrinsecamente penetrando no âmago de
nossos próprios valores, os motivos verdadeiros que nos levaram a fazer algo,
na realidade já fazemo-lo por causa destes motivos, mas de forma totalmente
ignorante, e a maior prova disto está na própria resposta do corredor: - Corro
porquê gosto. – Pois que corre porque
gosta é bastante natural, mas há muitos outros motivos porque ele corre, mas
nem mesmo ele, como nós, sabemos numa primeira instância quais são os reais
valores, a menos que paremos para fazer isto que fazemo-lo aqui, ou seja:
refletir. Somos então, levados pela vida de forma estranha, pois não somos
totalmente cientes dos nossos motivos. Isso é importante a partir do momento em
que sabendo de meus motivos os conheço mais nitidamente para desenvolvê-los de
forma precisa, sem me deixar levar por um desenvolvimento quase que instintivo.
Maravilhosa é a afirmação de João
machado quando diz que o melhor ritmo é o seu próprio ritmo, se cada um
respeitasse da forma cabível seu próprio ritmo evitaríamos uma incontável soma de problemas, um ritmo
demasiadamente forte para um pode ser considerado fraco para outro, pois cada
corredor desenvolve a partir de seu característico treinamento um ritmo
próprio, isso deve ser respeitado. É natural que com os valores competitivos em
que nos encontramos inseridos esta afirmação seja corroborada, entretanto vale
como um aviso aos mais precavidos.
Quando
refletimos sobre os primórdios de nossa sociedade logo vemos que o humano no
início macaco se adaptou a andar no solo, saindo das árvores gradativamente.
Fato de grande relevância já que vemos com isso a capacidade de adaptação das
espécies através dos séculos, o problema é, como já dito, que se não fizermos
uma enlevação cultural e de hábitos nossa espécie irá adaptar-se às facilidades
e à inércia, criando um organismo frágil e inerte, que sempre deverá ser curado
por remédios ao invés de ser curado pelo seu próprio fortalecimento. Tal como o
símil se adaptou à comer carne, andar no solo elevando assim através dos tempos
o seu corpo à uma altura elevada, o crescimento do polegar. Mudanças estas que
ocorreram por necessidades, veja você quais são as necessidades hoje: Ficar
parado? A inércia não é uma necessidade senão um problema, este estaria então
através dos tempos inserido em nosso DNA, provocando uma sociedade inerte por
natureza. Isso é progresso? Pois vejam que assim surgem com as ciências os
estudos sobre motricidade e movimento que vêm trazer o conhecimento do quê é
bom ou ruim no que concerne ao movimento, porém não há nenhuma vontade, a pesar
de todo conhecimento os que possuem suas necessidades satisfeitas não pensam em
despender de desgastes físicos desnecessários segundo suas maneiras de pensar.
Onde quero chegar com isso? Justamente no fato de que João Machado disse que o
ser humano não foi criado para correr 42 quilômetros em asfalto, ou à treinos
tais como estes extenuantes, mas veja que o ser humano se adapta constantemente
às mais diferentes situações, claro que não é de uma geração para outra que
desenvolver-se-ia pernas mais potentes e capazes de suportar mais impactos, mas
em infindáveis gerações, o que somente seria possível se os hábitos e a cultura
fosse comum à todos, o que não é, pois o filho de um corredor tornar-se-á um
engenheiro e as variações na sociedade ocorrem constantemente. Estas variações
impedem o desenvolvimento de um aspecto comum, um aspecto para que seja desenvolvido
na humanidade deve ser comum por sucessivas gerações. Mas este fato certamente
ocorre, há países que portam os melhores corredores de longa distância justo
por este motivo, ou seja: fora desenvolvida a espécie de maneira distinta,
desenvolvendo aspectos que estão inseridos no DNA ( código genético ), o que
fora possível através da contínua cultura e hábitos peculiares. Os humanos
então estão maleáveis a se desenvolverem de diferentes maneiras.
A vibração é uma coisa muito forte. Diz
João Machado. Quê entendemos por vibração? Justamente um aspecto de sentimento
que pode ser provocado por diversos fatores como platéia, outros corredores e o
próprio corredor. Analisaremos separadamente cada um dos aspectos:
1 – Platéia.
2 – Outros corredores.
3 – Próprio corredor.
1 – Platéia.
Existe uma ligação entre aquele que corre
e aquele que assiste, já que correr é um modo específico de expressão corporal,
a platéia também se comunica com o corredor, através de urro, vaias, elogios,
palavras de incentivo, palavras de desafeto entre outros. Isso é o que
entendemos por vibração, seria uma comunicação, pois as alegrias do ser humano
somente podem provir da comunicação com seus semelhantes, veja a quantidade de
espectadores, consequentemente o número de comunicações e assim sendo o nível
de vibração ou sentimento.
2 – Outros corredores.
Aqui ocorre o mesmo que no caso anterior,
com a diferença de que os outros corredores além de ser comunicantes são
cúmplices das ocorrências comas quais se deparam.
3 – Próprio corredor.
A vibração pode ser provinda do próprio
corredor, através de suas lembranças tais como treinamentos, pessoas com as
quais têm relação, sensações de dor, cansaço. Extenuação mental. São estes
fatores que podem causar vibração no corredor, podemos inclusive citar neste
tópico as crenças religiosas ou filosóficas, que venham a provocar sentimentos
enlevados e de superação. O ser humano é intrinsecamente muito complexo para
que possamos em breves linhas explicar quais as causas relacionadas à ele
próprio de sua vibração, sabemos entretanto que podem ser motivos mentais ou
físicos. Sabemos que um lado completa o outro e não se apresenta de forma
separada.
Fiquei bastante sensibilizado quando
João Machado comentou sobre os atletas que possuem dificuldades físicas, ou
espaciais para correrem neste evento. O que é fato, pois os esforços não
restringem-se tão somente à corrida, mas sim à uma série de intempéries que
seguem juntamente com ela. É de grande valor vermos como existem pessoas que
fazem esforços incomensuravelmente maiores que outras, isso é de grande valia e
um exemplo para todos os desportistas.
João Machado ressalta que a construção de
um evento tal como a São Silvestre é devido exclusivamente aos corredores da
massa e não tão somente aos corredores da elite, que a mídia somente valoriza
os corredores de elite, isso é verdade, entrevistas e filmagens somente ficam
voltadas aos melhores. Como claramente sabemos isto é devido à errônea
valorização que é inserida no esporte da atualidade. Ao invés de amistosidade,
confraternização e saúde é imbutida na mente de todo um povo a idéia de
competição através da valorização do que chamamos por competição. Os próprios
corredores são influenciados por estes pensamentos dúbios segundo meu modo de
ver, já que ocasionam muitas desventuras.
C – Entrevista
terceira / Com o corredor Giovane Andrade.
1)
Bem, em primeiro lugar eu corro para ser alguém na
vida. Para min é como um remédio, como se fosse uma coisa gostosa.
2)
Eu sou avulso, treino sozinho nas ruas de São Paulo.
3)
Por dia eu corro cerca de 6/7 quilômetros, o que é
suficiente para fazer 15.
4)
A maratona é para pessoas que sejam bem capacitadas e
que vivem para isso. A maratona não é para qualquer um.
5)
A dor com o tempo de experiência que agente têm
consegue suportar. A dor de atleta, não a dor de enfermidade. Existem vários
truques que agente faz com que a dor desapareça.
6)
Sentimento nenhum, para min é mais um treinamento.
7)
Mesma forma.
8)
Completar o percurso.
9)
Eu nem diria para o corredor preparado, eu diria para o
despreparado: muitos atletas morrem.
10)
O mais difícil é você suportar o seu próprio ritmo.
11)
Aconteceu na Argentina: eu estava liderando uma prova
na planície de Missiones, eu fiquei emocionado naquela hora e me aproximei dos
batedouros: as pessoas que vão na frente, e eram argentinos e aceleraram o
veículo, e eu acompanhei, perdi, de primeiro para vigésimo lugar.
12)
Acho que é a mesma coisa, uma desventura.
13)
No momento eu não me lembro.
14)
Em primeiro lugar eu quero dar parabéns para você, que
você siga forte e firme nesta caminhada tua. Que você tenha um bom êxito mais
para frente, assim que você terminar o seu curso. E que Deus te abençoe. É mais
um que vai somar, que vai preparar campeões, eu falo isso para você, para que
você tenha muita força e não desista, e que você seja um bom treinador, um bom
professor de Educação Física.
15)
O limite? Lógico que existe um limite! ( Dizendo-o com
grande veemência ) O limite do ser humano é ele mesmo que faz: se o cara é
preparado para correr 100 quilômetros, ele vai treinar para correr 100
quilômetros. Existem corredores de 200 quilômetros, não é qualquer um que vai
correr. Então este cara que vai correr os 200 quilômetros sabe que têm
capacidade para correr, ele sabe o limite dele. Cada um de nós temos que saber
nosso próprio limite.
16)
Hoje existe uma religião que existe Yoga, que usa o
esporte e ao mesmo tempo mexe com a religião da pessoa. Eu acho que isso não é
certo, eu acho que você tem que saber o que está fazendo não usando o esporte
para que você possa vir à uma religião. O Yoga é uma religião é não um esporte.
17)
Para min, eu que sou um atleta, eu não sou só corredor
eu sou lutador de boxe também, profissional e campeão brasileiro. Eu vou falar
uma coisa para você: são os dirigentes, e a nossa própria pátria que somente
enxerga futebol. O esporte não é só futebol, têm diversos esportes, têm
basquete, têm atletismo, têm lutas têm tudo. E realmente hoje o pessoal no
Brasil só olha o futebol e nada mais.
18)
Quando o atleta consegue um êxito, quando consegue
conquistar. Quando consegue vencer para min eu fico feliz, porque o cara veio
de baixo. Que nem o “Guga”: é um cara que a alguns anos atrás vivia sofrendo
correndo atrás de patrocinador, ninguém queria apoiar o cara, foi “lá fora” e
arrebentou. Igual mesmo esta menina aí: a Hipólito, ninguém acreditava nela,
foi “lá fora” e arrebentou, foi 4o no mundial e agora é uma pessoa
que está sendo vista. Eu gosto disso aí; Vence sem condições nenhuma.
19)
Aquela que você consegue ganhar, não é nem completar: é
ganhar. ( risos )
20)
Giovane Andrade Nascimento, 32 anos, São Paulo.
Este corredor creio ser de nível bastante
alto no que se refere à atletas de elite, veja como se refere à corrida: - Ser
alguém na vida! – Uma afirmação bastante singular que mostra quais podem ser as
proporções do esporte. Veja leitor, que o esporte pode se identificar com o ser
humano num nível tão amplo a que digamos que o ser se fundiu com o movimento de
seu corpo, podendo com isso pensar que ele é seu movimento. Parecem frases mais
poéticas que filosóficas, quando na verdade existe nisso tudo um pensamento
bastante lógico. Qual a importância que dou aos movimentos que desempenha meu
corpo? Há gente que não dá nenhuma, não conhece por assim dizer o seu próprio
corpo. Poderíamos afirmar que esta pessoa não se conhece? É uma pergunta
simplista? Veja a frase que diz: - Penso logo existo. – É uma frase que não
condiz com a nova realidade que apresentou este corredor, porque ele disse
justamente que corre para ser alguém na vida, e não que pensa para ser alguém
na vida. Pois quanto mais consciência tenho de meu corpo e de suas
possibilidades no espaço que o envolve mais sou, ou mais existo. Claro que
Giovane Andrade não se infundou na questão: O quê você faz para ser? Entretanto
respondeu-nos com apreciável desenvoltura, com uma afirmação de grande apreciação.
Concordo plenamente com Giovane quando
diz que a maratona não é para qualquer um, na resposta da questão 4, porém
discordo quando diz ele que é para pessoas que vivem para isso. Inicialmente
gostaria de ressaltar que no Brasil ao menos é muito difícil as pessoas viverem
de esporte, já que o sistema organizacional não contribui de maneira devida, em
segundo lugar vejo que cada vez mais é aberta uma porta de facilidades para a
participação de pessoas não atletas em competições. Vejo isso como um fator positivo
por abrir o campo esportivo à todos e o seu incentivo. Por outro lado há um
escabroso sistema, que permite pessoas extremamente despreparadas correr,
causando drásticos problemas. A maratona em si é para pessoas que queiram, e
que tenham vontade, mas que não necessariamente vivam do esporte.
Inopinadamente farei aqui um jogo de
palavras casual e interessante, vejam que o corredor disse mesmo sem uma
intenção neste sentido, na questão 5,
que existem vários truques que se faz para que a dor desapareça. Veja que são
truques e não mágicas, efetivamente há uma grande diferença entre truques e
mágicas, pois os truques podem ser explicados pela inteligência e lógica,
enquanto que as mágicas são místicas e não podem ser explicadas. Quando um
corredor de elite toma analgésicos para não sentir dor devemos dizer que é
mágica ou truque? Eu diria que trata-se de um truque injusto, aliás: todos os
truques são injustos, já que são desconhecidos por uns. Não podemos chamar
alongamento de um truque preventivo? Há gente que desconhece, e há os que
conhecem e não praticam como já visto no Capítulo
22 – Alguns aspectos obscuros da corrida; Tópicos A e B, respectivamente:
Heroicidade bestial e cabal. Sendo assim devemos tomar conhecimento das
técnicas e procedimentos, chamados por Giovane Andrade de truques.
Veja leitor como se porta o
corredor diante das perguntas 6 e 7, em que responde que tanto na largada como
na chagada não há sentimento nenhum, há bastante frieza nesta resposta,
certamente os corredores de elite demonstram grande indiferença para com os
sentimentos. Podemos tomar como base para analisar este caso o tema do Capítulo 4, Tópico D - Indiferença para com os adversários, em
que se discute de forma pouco mais aprofundada este tema.
É intrigante notar o contraste que há nas
palavras de João Machado e Giovane Andrade. Supostamente refiro-me ao fato de
que na questão 10 Giovane diz o que mais difícil é suportar o próprio ritmo,
quero dar ênfase à palavra proferida suportar, suportar implica em algo a mais,
além do que seria considerado normal, pois do contrário não seria suportar mais
tão somente correr no próprio ritmo. Isto é devido supostamente ao alto nível
competitivo deste corredor. Por outro lado João machado, o entrevistado
anterior, diz na questão 8 uma frase que achei muito bonita: - O meu ritmo é o
melhor ritmo. – Vemos com isso que as dificuldades se diferem de acordo com o
nível do corredor, em todo caso quero deixar evidenciadas estas duas afirmações
que se contrapõem em muito, e que serão evidentemente caso de muita reflexão
por parte do leitor:
1 – O meu ritmo é o melhor ritmo.
2 - O mais difícil é você suportar o próprio
ritmo.
Há uma contraposição no momento em
Giovane Andrade responde à questão 11, que havia se emocionado por estar em
primeiro lugar, posso estar enganado e isso não ser exatamente uma
contraposição pois o ser humano têm suas fraquezas, ou melhor: em momentos
cruciais demonstra suas verdadeiras emoções. É até então Giovane um corredor
que não têm sentimentos nem na largada tampouco na chegada, veja que ele,
durante um momento de liderança ficou emocionado e sua emoção interferiu em seu
ritmo de modo que ele privou-se da frieza e de todo seu calculismo para com os
procedimentos e estratégia na prova. Pois o sentimento é parte do ser humano
como é um lado da moeda parte do outro. Pode haver o fator de que na resposta o
corredor não haja se expressado devidamente, querendo ao invés de dizer que
ficou emocionado, que ficou empolgado. Quê é a empolgação senão uma
conseqüência do estado de espírito? Ou dos sentimentos por assim dizer? Vemos
que o ser humano tenta ocultar algo que lhe é natural, os sentimentos. Fato tão
verdadeiro que vemos em muitas competições, tanto de corrida como de
principalmente futebol, atletas desleais que aproveitam-se do artifício de
agredir moralmente outro atleta para que este fique mentalmente desequilibrado
e perca sua concentração.
Não querendo me referir à resposta 14 de
forma distorcida devo somente agradecer tal gesto de espontaneidade e educação,
porém me espera o veredicto final sobre o julgamento ao qual fui enviado, e
este somente você leitor, que é o juiz pode apresentar. Com sinceridade creio
este ser grande gesto de solidariedade entre os corredores, uns ajudarem os
outros tanto na busca do verdadeiro conhecimento quanto na corrida propriamente
dita.
São palavras sábias as que dizem que cada
um de nós deve saber o próprio limite, mesmo que este seja 200 quilômetros. Não
consegui entender o que foi dito exatamente na questão 16, no meu modo de
pensar Giovane quis separar definitivamente religião de esporte, achei muito
direto porém, quando o corredor faz uma severa crítica à valorização excessiva
do futebol no Brasil, certamente dever-se-ia valorizar os outros esportes da
merecida maneira, fato não tão somente devido aos dirigentes esportivos e donos
de clubes como principalmente arrastado pela própria cultura de todo um país.
D – Entrevista
quarta / Com o corredor Cláudio Ignaci.
1)
Eu corro porque é importante você ficar bem
fisicamente, e corro porque gosto e para levar uma vida saudável.
2)
Treino na minha cidade no estado do Rio, lá têm muito
morro. Aonde eu vou é tranqüilo, bem calmo e pouco movimento, e o ar é bem
puro, isso é importante.
3)
Eu sou corredor fundista: de 10 à 12 quilômetros por
dia. Têm também trabalho de “intervalado”.
4)
Maratona eu fiz 2 vezes. Mas eu acho que é muito
desgastante, essa prova é de 15 que é o meu forte, só fiz para ter uma noção. Eu recomendo as pessoas a fazerem,
mas têm que “perá”. Têm que perá, perá, perá e mais nada e aí você faz uma boa
prova.
5)
Existe.
6)
Sentimento de muita força, muita garra. E também você
fica super emocionado.
7)
Também de muita emoção, um frio na barriga. Não têm
jeito: mesmo cansado você fica com um frio na barriga. Isso daí eu também acho
importante.
8)
De: Nunca olhar para trás. ( risos ) Muita garra, muita
força e muito empenho.
9)
Eu acho que existe. Têm um pessoal que não vêm para
competir, só vêm para atrapalhar, esse pessoal com faixa Acho que devia
separar, não tenho nada contra ninguém. Igual eu: eu treino direto e por isso
acho que devia ter a separação para as pessoas com faixa.
10)
São as subidas.
11)
Deu uma diarréia ( risos ). Eu treinava perto da minha
casa, e comi um pedaço de bolo antes. Eu tinha marcado um treino com um amigo
meu, aí eu acabei de comer ele chegou uma hora antes da hora marcada. Aí me deu
uma diarréia e tive que parar.
12)
A morte de um amigo meu em uma cidade vizinha. Ele
estava treinando e o carro atropelou ele.
13)
Uma viagem que eu fiz para uma cidade vizinha, eu moro
no interior do Rio. Eu levei o dinheirinho certo, chegou lá e o dinheiro
faltou. Na hora o dinheiro sumiu não sei como, eu não sabia: se eu almoçasse eu
não viria embora, se eu pagasse o hotel eu não almoçava; Então eu fiquei sem
jantar na primeira noite, e ainda corri bem: cheguei entre os 15 primeiros numa
corrida de 100, peguei 5o na minha faixa etária. E na hora de vir
embora fiz uma amizade com o pessoal lá, eles pagaram minha passagem e eu
voltei para casa.
14)
Todos os corredores sempre têm que acreditar no sonho
de um dia vencer uma corrida grande dessas aqui, eu sei que é difícil mas não é
impossível. Todos os que já venceram são profissionais, mas nós que somos
amadores temos que nos dedicar. Eles profissionais que são hoje já foram
amadores um dia. Nós nunca podemos desistir do nosso sonho de um dia vencer uma
corrida grande dessas.
15)
Existe, eu acho que antes da longa distância você têm
que fazer o intervalado, trabalho de base, têm gente que começa a correr hoje e
já quer correr 50 quilômetros. Tendo trabalho de base com certeza vai fazer uma
boa distância.
16)
Eu acho que não interfere... Porque eu sou... não
depende da religião porque se for da Assembléia você não pode, mas eu sou da
Projeto e vida, e Batista também. Eu acho que têm que ter religião, têm que ter
Deus. Se não fosse Deus eu não estaria aqui.
17)
Eu fico triste em ver os cadeirantes, a categoria
especial não ser reconhecida. Como são a dos profissionais, no geral o
masculino e feminino. Eles não mostram, não cobrem nada, chegou: – Ahh chegou e
tal. - Tinha que ter uma cobertura especial, não só eu acho como todos e
qualquer um aí. Só que ninguém fala, ninguém divulga isso. Tinha que mostrar
para o mundo todo, são os heróis que estão competindo a São Silvestre.
18)
Muitas pessoas largando cigarro e as drogas de uma
maneira geral e correndo não só aqui como em tudo quanto é canto do mundo, fico
super feliz quando a pessoa fala: - Fumava vinte anos e agora parei. – Ou
assim: - Usava qualquer tipo de drogas e agora estou praticando atletismo. – Ou
qualquer outro esporte.
19)
Meia maratona internacional do Rio, por causa da
organização, as pessoas se preocupam com você, o público te anima. Aqui também,
mas eu sou do Rio e é diferente. As pessoas dão o maior apoio e incentivo.
Sempre alguém para te orientar: - O kit você pega aqui, o kit você guarda aqui.
– E para te informar aonde você têm que ir. Agora as pessoas que chegam de
fora, igual eu: Venho para cá e tinha que ter uma pessoa para informar sobre o
alojamento, derrepente não te informam direito.
20)
Cláudio de Carvalho Ignaci, 27 anos, Rio de Janeiro.
Com relação as palavras de Cláudio é
venerável sua atitude ao comentar que no local onde exerce seus treinos há
tranqüilidade e quietude dois fatores primordiais quando se quer melhorar a
qualidade e aproveitamento de um treino. Muitas pessoas correm através de
avenidas incomensuravelmente ruidosas e poluídas, no entanto há outros que
preferem a mansidão de uma trilha sinuosa dentro de uma floresta, ou que seja
num parque relativamente tranqüilo, como vemos, são maneiras bastante diversas
de efetuar um treino. Esta dito de forma cabível que este é um aspecto
importante para o corredor, e para o ser humano em geral. Sabe-se que existem
pessoas que correm em esteiras automatizadas assistindo televisão, e nalgumas
vezes conseguem a façanha de fazer três coisas ao mesmo tempo: correr, assistir
o noticiário e falar ao celular, o que seria incrível se isto não fosse uma
atitude negativa para com as três atividades. É importante aproveitarmos as
nuanças que podem ser proporcionadas por aquilo que fazemos, para isso
respectivamente é necessária a atenção e concentração. Fora comentado algo de
grande semelhança ao término do capítulo
17 – Qual será o assunto? E início do 18 – Corrida e desligamento do mundo. Com
isso notamos que é de suma presteza darmos a devida atenção ao local de treino,
seguramente muitos dariam as escusas de que sequer há tempo para ir a um lugar
adequado de treino, e por isto fazem improvisos tais como estas tecnológicas
esteiras, a estes a resposta virá com esta pergunta: Mediante o tempo que você
dispõem: Quanto dele você aproveita de maneira extremamente prazerosa? Talvez
seja melhor recapitularmos o que não é desempenhado de maneira condizente com o
que queremos que seja, assim passamos a descobris os prazeres mais
pormenorizados, como o fez Cláudio Ignaci ressaltando a tranqüilidade e o ar
puro de seu local de treino.
Devido à resposta 4 do corredor cheguei
à conclusão de que tudo depende do treinamento, pois Cláudio diz que a prova da
maratona de 42 quilômetros é desgastante, porém eu mesmo já cheguei a completar
uma maratona com o tempo de 3 horas e 30 minutos e todavia querer continuar
correndo por mais 20 ou 30 quilômetros. É bastante viável e inteligente
pensarmos que tudo dependerá tão única e exclusivamente do treinamento que fora
feito. Cada um treina de maneira pouco ou estrondosamente diferente de outrem,
assim enquanto um crê que a maratona é a nascente do sofrimento, amargor,
auto-flagelação e até discórdia ficando extremamente rancoroso com o fato de
ter corrido uma; Outro fica alegre, disposto, animado, descontraído e sente-se
bastante agraciado com todas estas sensações. Devido justamente aos diferentes
tipos de treinamento, isto nos leva a crer que existe algo chamado de
especificidade, tanto que o corredor disse que “seu forte” são os 15
quilômetros, assim como temos corredores específicos para 6 Km, 10 Km, 42 Km,
100 Km, 200 Km, 24 horas, 48 horas e até provas de 6 dias como já ouvi dizer,
neste último caso chegando a correr uma média maior que 100 quilômetros por
dia. O objetivo aqui não é assustar o leitor tampouco trazer-lhe informações
desregradas, por isso torno a dizer que para cada prova há um tipo de treino
específico, a maratona pode ou não ser desgastante dependendo do tipo de treino
efetuado. Pode ser miríades difícil correr uma prova de 4 quilômetros mal
treinado que uma maratona.
Quando o corredor refere-se aos seus
sentimentos da largada diz ele que fica muito emocionado, é bastante
interessante esta afirmação que poderia ser vista de um modo bastante
simplista, mas se aprofundada nos traz à algumas questões, vejam: De onde
provém esta emoção? Certa vez me senti muito emocionado quando antes de dar
inicio à uma maratona tocou-se o hino nacional, neste momento apoderaram-se de
min fortes emoções, estas provinham não somente do sentido patriótico que
possui o hino, mas principalmente de um sentido de união que eu dava para
aquele momento. Vemos com isso que os sentimentos de emoção têm origem no valor
que damos às coisas que nos cercam, e ao caráter das coisas que acontece. Tanto
é verdade esta explicação à origem das emoções que eu posso me emocionar com
algo que outra pessoa se sinta indiferente. O que não saberemos é qual fora a
origem das emoção do entrevistado, pois a largada é acontecimento bastante
abrangente de acontecimentos, ainda consta que pode ser emoção decorrente de
fatores intrínsecos.
Vejam que alacridade há quando se diz que
a filosofia do corredor é nunca olhar para trás, bastante jocoso e cômica esta
frase. Sem embargo mostra que o corredor têm em sua constituição psíquica
algumas fórmulas, que poderiam ser descritas como manias e detalhes. Isso
funciona a partir do momento em que ele dá importância ao fato, fato
inteiramente embarcado nos fenômenos mentais, vejam que certa vez quando corria
eu com um amigo, este a certa altura da corrida dizendo estar com dor abdominal
num ato extraordinariamente inóspito e extravagante, se é que assim pode-se
dizer, pegou um ramo de folhas e colocou-o preso à cintura, dizendo com suma
presteza que isso faria com que melhorasse suas dores. Da mesma maneira este
outro diz que a filosofia do corredor é nunca olhar para trás, assim muitos
acreditam em atos que provocariam sorte ou azar, podemos fazer nestes dois
casos a relação disto com dor e plenitude ou sorte e azar como já dito.
Tratam-se de estratégias criadas muitas vezes inconscientemente por nossas
mentes para se desculparem dos desatinos, perigos e falhas de nosso corpo. Não
olhar para trás pode ser a prerrogativa de que se isto ocorrer não haverá um
desempenho tão bom ou ideal.
Cláudio Ignaci coloca à vista uma
interessante idéia: separar as pessoas que vão com faixas, fantasias, bolas,
perucas, raquetes, guitarras, capacetes e similares daquelas que treinam com
seriedade para o evento. É bastante evidente que consta uma desvantagem ser um
atleta amador que leva à sério já que este é atrapalhado por estas hilárias e
extraordinárias figuras, pois todos ficam unidos em um só bloco, enquanto isso
no bloco da elite há maior organização por conta deste aspecto.
É bastante sério colocar à tona o assunto
de local de treino, vejam que um carro atropelou um colega deste corredor, e
como se não fosse o bastante o privou da vida. É digno de consideração dizermos
que existe grande displicência por parte dos motoristas de carro, ônibus,
caminhão, moto ou até mesmo bicicleta, porém é imprescindível que o próprio
corredor saiba por onde corre, melhor uma rua tranqüila que uma avenida densa
de veículos. Isso dependerá do bom senso do atleta, é natural que alguns não tenham
tempo para deslocarem-se até um ambiente totalmente adequado, neste caso há
precauções como utilizar roupas claras para ser visualizado facilmente pelos
motoristas, principalmente à noite. Seria falta de discernimento correr nas
ruas de “walkman” já que este não permite estar de ouvidos atentos no transito.
Estas são medidas bastante viáveis para uma maior segurança, que a pesar de
simples podem evitar graves problemas.
Na corrida há grande companheirismo, tal
como se vê na resposta emitida à questão 13, que mais parece uma anedota que
outra coisa. Vemos entretanto que os valores de amizade prevalecem no esporte,
em exclusivo na corrida, não querendo desmerecer o fato extraordinariamente
cômico, muito pelo contrário: valorizando-o como grande lição farei algumas
considerações; O corredor é cúmplice de seus concidadãos de atividade, assim
eles sabem, de forma considerável, muito melhor que qualquer outra pessoa o que
se passa no corpo e na mente de outro corredor. Este, segundo minha tese, é o
motivo que leva os corredores a sentirem-se automaticamente em estranhos e
misteriosos laços de união. Para que este assunto venha a ficar mais aclarado
melhor seria que eu citasse algo de cunho pouco mais prático que teórico,
inserido neste intuito algo direi através da provinda descrição:
“Um
dueto por assim dizer, eu e um amigo que iniciava seus treinos na graça da
corrida. Recomeçava eu uma série de treinos, e ele sempre se encontrava com
informações novas, já que estava em estágio inicial. Assim corremos por
aproximadamente 50 minutos através de sendas naturais, trilhas de barro e
caminhos com pedrisco. A lama era parte natural de nossos treinos, por ela
passávamos tomando o devido cuidado para não tomar um verdadeiro escorregão, o
que já me ocorrera certa vez, não vêm ao caso comentar este infeliz episódio já
que se assim fosse isto tratar-se-ia de uma paródia sarcasticamente risonha.
Então íamos corajosamente em uma união de esforços, pois no momento em que um
corria rápido o outro era levado como se estivesse amarrado de forma enigmática.
Nossas vestes já não eram as mesmas, estavam incrustadas de camadas de barro,
de igual sorte a perna que tinha uma espessura de barro em parte específica da
“panturrilha”, isso devido à um modo de correr sistemático e cadenciado. Ao
final da primeira parte do treino imprimimos um ritmo loucamente acelerado,
numa frenética e vertiginosa carreira finalizamos, respectivamente, como manda
a regra nos dirigimos à um local para que fossem executados os alongamentos, os
quais começamos a fazer. Enquanto isto decorria havia um outro corredor na
pista, o qual logo notei ser de grande nível técnico, notando que suas passadas
portavam de excelente amplitude, e que elevava muito bem o calcanhar atras. Não
me senti rebaixado por ver que havia uma pessoa de tão alta qualidade
desportiva naquele local, muito pelo contrário: logo que o vi imergi num estado
letárgico de confraternização que era decorrente à seriedade que via em sua
postura facial e à minha própria seriedade de pensamentos. Disto originou-se
uma cumplicidade que ficava restrita ao campo dos pensamentos, talvez ele
naquele momento estivesse fazendo uma minuciosa análise de nossas pessoas,
notando que estávamos totalmente enlameados, e que por isto não nos
importássemos com empecilhos no treino, e ainda em decorrência disto que
fôssemos corredores aventureiros e originais. É indecifrável querer saber quais
tenham sidos os pensamentos dele nestes breves momentos. Fato verídico é que
quando ele passou ao nosso lado, enquanto corria, nos fez educada reverência em
sinal de cumprimento, um sinal de que havia também nele um ideal de
cumplicidade [ corredorística, se é que pudéssemos inventar um termo deveras
audacioso. ]. Logo notei que foi somente uma vês que nos cumprimentou, durante
as outras vezes que passou na pista de formato oval olhou de maneira “fria” e
concentrada para frente, como se não se desse conta de nossa presença, fato que
revelou a min sua seriedade psicológica. Foi a min fato alegre e descontraído
quando ao terminar seu treino, de maneira simples e descontraída se aproximou
ele e outros corredores para um agradável e embate, a naturalidade do momento
não nos permitiu adotar mesquinhas frivolidades da sociedade contemporânea,
talvez o ato de correr incite esta naturalidade que chega às vezes à beira da
humildade. Fato notório de comentário é o extremismo que há na indiferença no
momento do treino e a amigável compreensão e concordância dos momentos pós
treino, como se as pessoas se transformassem durante momentos. O assunto
decorrente fora bastante plausível, pois dissertamos de maneira magnífica sobre
a corrida, o que naturalmente era o assunto comum à todos. Sequer nos
conhecíamos à poucos instantes, porém a conversação teve a sinceridade de uma
discussão de amigos bastante companheiros.”
Quê podemos constatar
disso tudo? Justo que os valores da amizade em corredores são mais acessíveis
que nos não corredores, isto por terem algo em comum, porém é importante
afirmarmos que quaisquer pessoas que tenham características comuns têm maior
facilidade de relacionamento que pessoas opostas, porém é acrescentado o fato
de que além da corrida ser fenômeno comum consta o fato de que trata-se de
atividade esportiva e por assim dizer seria este fator uma grande ponte ao
relacionamento sadio, tanto por explicações biológicas e químicas como pela
alusão às regras de que se caracteriza esta atividade. Ou seja: correr possui
características peculiares que não se concebe à jogar futebol, basquete ou
nadar. Se bem que numa concepção cabível mais se aproxima deste último.
Há portanto um valor de amizade bastante
grande entre os corredores, não quero com isto chegar à conclusão de que não
existem inimizades, como pode-se constatar na realidade: há sim os que
odeiam-se, desmoronam o outro moralmente, detestam-se e digladiam-se como se
estivessem num dos antigos estádios romanos lutando contra ferozes leões. Porém
à estes nada mais restará que uma vitória sem irmandade e confraternização, é
comparável à vitória de uma guerra: ainda que um ganhe restarão muitos outros
denegridos por este. É bastante claro que pensemos que a corrida não é
atividade sulficientemente forte a ponto de trazer valores de vida à uma
pessoa, pois isto depende de muitos fatores tais como: educação, estudos,
relacionamentos pessoais, condição de vida e religiosidade, sendo a corrida um
fator contribuinte para que as pessoas percebam determinados valores físicos e
morais: talvez os valores físicos tenham repercussão nos morais, já que estes
mostram que tudo deve ser feito duma maneira regrada e racional, que existem
limites, que há determinados prazeres provenientes da natureza, do
auto-conhecimento. Todos estes valores transcendem o físico e prático para o
moral e mental: de amar, se companheiro, ajudar, sofrer pelo outro, unir-se,
chorar e rir em conjunto, Ter a sensação de estar-se em um grupo, a idéia de
auxílio mútuo. Tudo isto traduziríamos por uma só palavra, que vem a calhar por
sua parte física e mental: cumplicidade.
Com base nas palavras de Cláudio Ignaci
venho a constatar algo de uma simplicidade excêntrica, é provável que seja
hilária colocação, porém por momentos tive a impressão de que Deus conduzia o
ônibus deste nosso colega, já que proferiu ele que se não fosse Deus não
estaria ali. É irrefutável que esta pode ser uma afirmação cabível, porém fora
tão enigmático o quilate desta afirmação que fica bastante difícil saber se
Deus têm ou não carteira de habilitação para este tipo de condução, porque por
conhecimentos antigos está dito que Deus conduz nossas vidas e não veículos de
quatro rodas.
Brincadeiras pecaminosas à parte devo
reverenciar a digna atitude deste corredor quando assim diz: - São os heróis
que estão competindo a São Silvestre. – Quando se refere aos cadeirantes e à
categoria especial. Dizemos que é bastante árduo correr 10 ou 15 quilômetros,
porém ao menos à min falta capacidade para conseguir imaginar a magnitude de
esforço que faz uma pessoa com deficiências físicas para correr. Isso prova
como a corrida é um esporte que não depende exclusivamente das capacidades
físicas, mas principalmente dos aspectos psicológicos e mentais, vejam vocês
leitores que o nível de desempenho mental, ou otimização de características
psicológicas é muito maior nestas pessoas que possuem estes tipos de
dificuldades que em quaisquer outras, por isto está dito que a vitória delas é
muito mais merecida que de uma pessoa que corre em condições normais. O que me
chama muito a atenção é que não somente corredores com dificuldades físicas
como outros tipos de dificuldades tais como financeiras enfrentam as
contrariedades e conseguem resultados infindavelmente superiores à pessoas que
não possuem problemas, por isso vejo este chamado “problema” como grande
alicerce para a construção de vitórias pessoais excelentes e invejáveis. Para
que os leitores pasmem de admiração, fiquem cientes de uma ocorrência bastante
fidedigna: em certa competição me deparei com um corredor com prótese em uma
das pernas que auxiliava um atleta cadeirante a subir uma ladeira, os
sentimentos destes dois indivíduos certamente encontravam-se em uma expansão a
qual dificilmente houvera tido em uma corrida, pois sabemos que a dificuldade
incita vitória maior que qualquer outra: a vitória espirituosa e sentimental. É
necessária uma maior introspeção à vida destes atletas, e um valor merecido de
suas vantajosas vitórias!
Não tendo o intuito de enfatizar a
rivalidade existente entre a cidade do Rio de Janeiro e São Paulo, me
restringindo tão somente a comentar algo de caráter elucidativo lanço a
proposição de que o corredor está em íntimo contato com aqueles que o assistem,
levando em consideração de que na questão 19 diz-se que o público têm a
capacidade de animar o corredor, aí está representado o elo de ligação
corredor-ambiente. A platéia sem sombra de dúvidas influencia de forma
estrondosa nos aspectos sentimentais de um atleta, tanto é que em muitos jogos
de basquete ou futebol ouve-se dizer que a torcida “empurrou” a equipe para a
vitória. Entretanto do mesmo modo que esta torcida emana vibrações positivas
pode também degradar o corredor, em seus aspectos psicológicos, dizendo
impropéries e palavras nada cabíveis ao conceito verdadeiro do esporte de
participação ou mesmo competição. Ocorre que se o corredor está receptivo ao
bom estará inevitavelmente aberto para o que ocasionalmente possa vir de mal,
por isso existem as técnicas psicológicas de indiferença para com os
adversários, e além destes também deve-se para evitar estes contratempos ser
indiferente para com a platéia, é bastante visível este fator se recorrermos à
anterior descrição, quando o corredor desconhecido após um breve e cordial
cumprimento mostra-se indiferente para com os outros dois que alongam, mesmo
sabendo tratar-se de corredores amigáveis.
E - Entrevista
Quinta / Com o corredor Elias Geraldo.
1)
Eu corro porque o esporte é bom para saúde, para mente,
para o coração, para o equilíbrio emocional. Ajuda na psicologia e no dia a
dia. Agente se sente mais livre e mais espontâneo. É correto, é saúde, é
vitalidade, é energia, é disposição... É bom para o espírito e para a alma. É
uma coisa dinâmica e sem comentários.
2)
Eu não tenho assim um lugar específico, eu sempre
treinava no parque do Carmo, na zona leste ou então na Coab 2, José Bonifácio
ou no Bronks. Não sei se você conhece, o time é o Bronks os mano estão avont,
os mano po as mina pa sabe? Eu treino com este pessoal, jogo bolo com eles e
treino com o time.
3)
Eu não tenho carro e estou sem uma bicicleta, ando
muito o dia inteiro, sou vendedor ambulante e camelô. Caminhar faz bem para
tudo.
4)
É uma coisa muito importante, quando se diz assim que
une as pessoas, agente faz novas amizades, novos conhecimentos, encontra novas
culturas também, encontra outras pessoas, outras tradições, outros jeitos de
ser e de viver. As pessoas se comunicam, conforme o ditado: - Quem não se
comunica se “estrupica”. – A gente têm um relacionamento impressionante.
5)
Não.
6)
A gente vê esse monte de gente, todo mundo olhando, mas
não é importante os outros verem a gente correndo, o importante é a gente saber
que está envolvido no meio de muita gente, e agente também quer ser um
vencedor. Agente não quer vencer para ganhar o troféu, mas quer correr para
saber: - Hoje eu tenho uma disposição, estou no pique da “Globo”, estou
correndo bem, estou jovem.
7)
Disseram que acabavam as inscrições 12:00hs. E eu ainda
estava procurando dinheiro emprestado para fazer a inscrição, pegar o “ship” e
tudo. Quando eu arrumei o dinheiro já era tarde, o outro ano eu corri com a
camisa do Bronks.
8)
Ele está envolvido, mesmo que ele não vá ganhar o
prêmio, só pelo prazer dele falar: - Puxa vida! Eu corri tudo isso?
9)
Algumas pessoas olham com a gente com indiferença. Não
com preconceito, mas assim: - Pô esse cara aí está com um tênis pior que o meu,
a roupa dele está melhor que a minha. – O que importa é aquele espírito de
coletividade, se um esbarrar no outro e atropelar deve ter paciência: A
paciência é a virtude dos grandes heróis.
10)
É aquela ansiedade de chegar até o fim, de você querer
ser o primeiro.
11)
O que me aconteceu foi uma coisa muito interessante que
na prova do ano passado eu corri com uma camisa vermelha e branca e o pessoal
pensou que eu era “sãopaulino”, mas eu sou “corinthiano”, e quando chegou para
entregar o “ship” e pegar a medalha o pessoal falou: - Puxa, você não... – Aí
eu voltei para trás e não consegui pegar a faixa, o prêmio, a medalha.
12)
Não têm.
13)
Eu corri, corri, corri e quando eu cheguei até o fim,
quando eu pensei que ia pegar a medalha o pessoal olhou para meu pé e falou: -
Você não está com o “ship”, vêm para cá! – Caramba! Nadei, nadei e morri na
praia.
14)
O importante não é ser reconhecido, não é vencer: é
competir. O maior herói não é aquele que vence e ganha a medalha, mas é aquele
que chega até o fim com paz, calma, tranqüilidade, que não atrapalhou os outros
e nem se atrapalhou consigo mesmo. Porque a gente vai vivendo e aprendendo.
15)
Existe limite, ele têm que estar bem preparado
principalmente espiritualmente, Ter dormido algumas horas de sono para
descansar o corpo, porque o sono é o alimento do corpo. A pessoa está
descansando o corpo, a alma, o espírito, está relaxando. É uma terapia divina.
16)
Dizem algumas religiões que o esporte é proibido,
algumas não, têm alguns atletas que são atletas de cristo.
17)
Os acidentes que acontecem, mas só a alegria e emoção
superam.
18)
A alegria é impressionante, só pelo fato de estar aqui.
É como diz Roberto Carlos: São muitas emoções.
19)
É a corrida da vida, da paz. Você sempre correr atrás
de seus objetivos, correr atrás de boas amizades, é começando que agente passa
a conhecer melhor o ser humano, porque hoje em dia o ser humano está muito
indiferente com as pessoas, as pessoas estão muito dando mais valos às coisas
materiais que espirituais.
20)
Elias Geraldo Costa Rosa, 36 anos, São Paulo.
Fiquei realmente encantado com a
incontestável quantidade de adjetivos proferidas por Elias Geraldo em sua
primeira resposta. Absurdamente fantástica é a explicação que ele dá aos
motivos que o fazem correr, estas são as considerações que faço mediante suas
sabias palavras!
O corredor diz que não têm carro, e que
em decorrência disto anda o dia inteiro, se todos fizessem isto não haveriam
problemas de obesidade ou desta sorte, sempre pensei numa sociedade em que
todos iriam de lá para cá correndo e com isso mantivessem suas saúdes no lugar
correto. Claro que esta trata-se de uma idéia utópica se visualizarmos a atual
sociedade.
De maravilhosa genialidade está a
afirmação de que a maratona é a seiva da comunicação, como referido na questão
4, conhecer novas culturas e outros jeitos de ser e de viver. Digo isto
baseando-me em minha própria experiência. Numa de minhas maratonas, no dia
propriamente dito me elevei à um interessantíssimo estado de espírito, quando
entre os maratonistas que realizavam o aquecimento visualizei alguns corredores
negros que haveriam de ser quenianos, fato que parece ser bastante simples mas
que, segundo meu julgamento, achei ser importante à minha imagem de corredor...
Algo me dizia: aqueles são os mais elevados corredores, e você também é um. A
pesar de bastante tosca, esta foi para min uma maneira de conhecer novas
culturas, dada à importância que eu dava àquela ocasião. Neste intercâmbio de
conhecimento e cultura, aliado com as amizades entramos num mundo que é
surpreendentemente magnífico. Os corredores acabam por se conhecer, logo fazem
a comparação milimétrica dos tempos que fazem por quilômetro, trocam idéias a
respeito de diferentes dietas, tudo isto está embutido nisto que dizemos
chamar-se comunicação, como sabemos a própria corrida é um tipo de comunicação.
Há também o fato de que muitos corredores viajam à outros estados dentro de seu
país, por vezes viajam à outros países. Aproveitando nestas viagens não somente
correr mas também conhecer os mais variados e divergentes aspectos culturais do
local em que estão hospedados. A começar pelo hotel, escarafunchando suas
vantagens ou desvantagens, logo surgem inusitadas idéias de passeios e lugares
interessantes para conhecer-se. É de grande valia comentarmos que há corredores
que vão à determinado lugar e muitas vezes podem ser confundidos com turistas
desesperados que outra coisa. Andam para todos os lados que nem se apercebem de
que um dia antes da prova deve-se descansar, e não gastar a sola do sapato até
o talo. Insistentemente há gente que se apraz tão imensamente com este
intercâmbio cultural, que na noite anterior à prova, ou mesmo nas três noites
que antecedem esta decide fazer soturnas saídas noturnas. Estas dirigem-se às
festas e atratividades locais, o que num ponto de vista está em total
contradição com o desempenho atlético já que muitas retornam ( quando retornam
) embebidas em largas quantidades de álcool e barbitúricos diversos. Este é um
assunto motivo de galhofas e hilárias histórias pitorescas, muitas vezes
acrescentada de exacerbadas elucubrações, concludentemente na maioria das vezes
não levando a nada. Há gente que prefere com grande sinceridade provar a
culinária local, e com isso vêm a Ter infortúnios tais como diarréias ou males
de outras origens, certa vez um companheiro corredor, ao viajarmos à uma
maratona, decidiu por qualquer motivo enquanto corria o seu trigésimo quilômetro
da prova, parar por alguns momentos em um agradável restaurante para provar um
prato típico, era frango respectivamente, o mais incrível de tudo é que ainda
mais tarde prosseguiu sua infindável carreira através desta competição
finalizando-a com um tempo bastante apreciável para uma pessoa que
elegantemente dispôs parte de seu tempo para uma venerável refeição, bastante
digno de um atleta fidalgo. Por falar em nutrição sabemos que as diferentes
culturas provocam variadas receitas alimentícias, me provocou certa vez espasmo
ao saber que um corredor comera um largo “hot dog” antes de uma prova, mas
certa vez confesso haver aderido à moda ingerindo 4 destes após uma fatigante
prova de 15 quilômetros. É provável que este não seja o alimento mais adequado,
em todo caso vemos que a alimentação nem sempre influi no ato de correr, melhor
exemplo disto é o do corredor da anterior entrevista Cláudio Ignaci que disse
não haver jantado na noite antecedente à prova.
Elias Geraldo faz referência à platéia na
resposta 6, por decorrência de sua auto afirmação diz que não é importante que
os outros o vejam, mas sim saber-se que se está envolvido num evento. Esta é a
idéia de envolvimento, trazendo à toa a sensação de união, vejo que quando o
corredor afirma não ser importante que o vejam está se impondo perante à estes
mesmos de forma que esta seria uma forma de indiferença: - Não é importante
vocês me olharem pois já sei que estou envolvido! – Poderíamos considerar estas
duas informações emitidas como antagônicas já que seu envolvimento com o evento
implicaria numa comunicação com a platéia, e esta olhando-o já se comunica
visualmente com o atleta.
É de grande prodigalidade a frase
proferida que diz: - A paciência é a virtude dos grandes heróis. – Vejam caros
e entendidos leitores, que condizentemente com esta prerrogativa está o treino
que cabe à uma maratona: no inicio é essencial senão crucial que faça-se um bom
“período de base”, para que depois em específico venham os intervalados, longos
ou morro. Inevitavelmente isto requer uma paciência tão grande quanto o monte
“Everest” ( que seja cabível esta eventual comparação.), o principal erro dos
maratonistas é de precipitação, seja no treino como durante a própria prova,
pois quem sabe esperar a exata hora de aumentar o ritmo é aquele que se
desenvolve melhor durante uma competição, num treino há gente que corta o
treino de base pela metade ou senão em três partes, fazendo somente o último
terço; Logo tudo nos incita à praxe de que a paciência é a virtude dos grandes
heróis. Esta é sim uma frase digna de respeito, que seguramente deve ficar postergada na mente de
todo maratonista de sã consciência.
Não findamos aqui, pois Elias quando se
refere à melhor corrida dá mostras de seu espírito poético, humanístico e
verdadeiro: - a melhor corrida é a corrida da vida, da paz. - Correr atrás dos
objetivos sejam eles quais forem, mas que sejam de cunho espirituoso e não tão
somente restrito ao materialismo do qual está impregnada nossa sociedade, como
se vê o ser humano muitas vezes é indiferente para com outros de sua própria
espécie. A única espécie de animal que pode causar catástrofes neste mundo é a
nossa, além de tudo o que já fora infelizmente causado, por isso devemos abrir
nossas mentes para o lado espirituoso das relações entre as pessoas, em virtude
do desenvolvimento da ciência perdeu-se este aspecto tão importante e ficamos
hoje cada vez mais atrelados às mesquinharias de um mundo completamente
materialista, pois cabe a nós mesmos o intento de mudarmos para melhor, a
corrida em si no ponto de vista competitivo pode ser vista como grande
confraternização, o que já é um passo bastante contundente nesta caminhada.
F - Entrevista
Sexta / Com o corredor Antônio José.
1)
Porque eu gosto, já pratiquei muito tempo, já mais de
10 anos que pratico corrida.
2)
No bairro que eu moro, na periferia.
3)
10 quilômetros em dias alternados, têm dias que não
sobra tempo para min treinar ou então sobra tempo para Sábado e Domingo.
4)
Eu acho que é uma prova que judia muito da pessoa, mas
se a pessoa se dedicar, treinar bem dá para fazer.
5)
Têm um prazer em concluir.
6)
Fico muito tenso.
7)
Quando eu consigo uma boa colocação fico muito
empolgado, é uma alegria imensa. Quando não consegue o que agente queria fica
desanimado.
8)
Fazer o melhor tempo e correr bem.
9)
Quando a pessoa não treina direito, aí sente dores.
10)
O mais difícil é se superar. A marca que você deseja,
conquistar a vitória que é o que o corredor mais pensa.
11)
Eu saí no pelotão da elite B, fiquei mais empolgado.
12)
Quando não consigo fazer o melhor.
13)
Foi na “corrida dos trabalhadores”, que deu a
largada e eu saí em primeirão, vi os
policiais, então pensei: - Será que fiz alguma coisa errada? – Não, na
realidade a largada já havia sido dada mesmo, e não tinha ninguém perto de min
até os 200mts.
14)
Para aparecerem mais pessoas correndo, e praticando
esporte.
15)
Cada um têm o seu limite.
16)
Eu sou evangélico, tanto é que o pastor me da incentivo. A religião não
atrapalha em nada, se têm outras religiões que prejudicam eu não estou sabendo.
17)
É que as pessoas se dedicaram o ano todo para fazer
isso, e não consegue.
18)
Conseguir o tempo que queria.
19)
10 quilômetros para 33/32min.
20)
Antônio José dos Santos, São Paulo, 39 anos.
É notável o esforço que corredores e
corredores fazem para treinar, muitos levantam-se ainda de madrugada para
treinar antes do serviço, enquanto outros treinam tarde da noite igualmente em
decorrência de suas respectivas obrigações. Há atletas, inclusive de elite, que
por causa disto quase não dormem e que impressionantemente ainda adquirem
excelentes desempenhos. É bastante visível que isto trata-se de um esforço
sobre-humano, sendo que o sono é momento importante para o corpo, vemos que o
atleta utiliza-se exclusivamente de seu corpo, e sem sono há sobrecarga já que
este não descansa suficientemente. Este é um assunto bastante evidente, no
entanto vejo necessário ressaltar o mesmo assunto visto de outro patamar, nosso
corpo e mente se adaptam às mais diferentes situações, tanto é verídico que
isto ocorre tanto na raça humana como em qualquer outra podendo ser chamado a
longo prazo de mudanças genéticas naturais. A curto prazo também existem estas
adaptações, é claro que muito mais limitadas que as anteriormente referidas, há
extraordinária capacidade de adaptação, tal como ficar 10 dias em um barco em
auto mar, ou baixar a temperatura corporal por largos períodos de tempo sem
morrer de hipotermia. Nas competições de travessias aquáticas ou as chamadas
maratonas aquáticas a capacidade humana de suportar o frio supera as
expectativas que estipulam os fisiologistas desportivos com relação à
temperatura e corpo. Estes fatores podem ser explicados fisiologicamente, mas
na maioria das vezes prevalece-se o caráter psico-físico ou de ligação mente
corpo, para que se mantenham aspectos que façam postergar este estado de
capacidade física. Assim sendo, há os que quase não dormem e treinam muito,
crê-se numa primeira instância ser difícil fazer isso, mas as liberações
químicas que estão ocorrendo no corpo deste indivíduo são completamente
divergentes que as de outrem decorrente de suas respectivas atividades. O
cérebro também libera suas substâncias químicas, o estado psicológico de um
atleta de alto nível que quase não dorme é completamente diferente de outro que
dorme suas 8 horas de sono com a mais completa perfeição, acrescenta-se o fato
de que este primeiro enfrenta pelo dia uma larga jornada de trabalho, muitas
vezes um trabalho quase tão fatigante quanto o próprio treino. De onde ele
adquire forças para tantas atividades? É anormal esta extraordinária
capacidade? Tudo poder-se-ia ser explicado através dos fenômenos mentais, o
erro é pensar somente no físico... Sabe-se que loucos e pessoas em estado de
insanidade mental, quando em estado de fúria passam de um momento para o outro
a ter descomunal força física, algo que não poderia ser explicado se
recorrêssemos somente aos seus frágeis e débeis corpos, mas sim com a injeção
de substâncias químicas provocadas por seus estados mentais, tendo estes
indivíduos um estado mental anormal suas forças serão, quando em acesso de
fúria, igualmente anormal. Assim explica-se que há atletas que suportam
condições de vida totalmente adversas num ponto de vista, mas que em outro
seriam condições adaptáveis à constituição humana. Também explica-se com estes
pensamentos que por vezes pode ocorrer de um atleta mal treinado supere o
desempenho de outro que está em melhores condições musculares ou de resistência
aeróbia, isto porquê seu estado mental não é o mesmo, pois ele têm mais
vontade, auto-estima e valores sentimentais e até racionais que implicam numa
maior velocidade, esta é a causa que há quando vemos que quanto mais problemas
a pessoa têm em sua vida mais ela cresce em seus aspectos mentais, e por isso
vemos muitos maratonistas que se originaram de precárias condições de treino
ganhando maratonas e superando aqueles que têm condições perfeitas de treino ou
alimentação, o que foi inclusive comentado por Giovane Andrade quando disse ser
magnífico o fato de pessoas sem condições vencerem, eu diria inclusive que
estas pessoas têm muito mais propensão a vencer
que quaisquer outras.
Não digo que este é o ideal de vida de um
ser humano civilizado, muito pelo contrário: haveria de ter-se tempo para tudo:
horas de lazer, trabalho e treino. Porém vivemos num país em que os horários de
trabalho são muito prolongados, daí a dificuldade que encontramos para treinar
ou até conviver de maneira mais aproximada com a família. Que seja então feito
tudo dentro do possível, que cumpram-se as responsabilidades para que após isto
seja dada a devida vazão à atividades que consideramos importantes.
No que diz respeito à resposta da questão
6, quando Antônio José se refere aos seus sentimentos na largada dizendo ficar
tenso me faço a seguinte ressalva: Quê é a tensão? Muitos corredores ficam
tensos durante as largadas, esta tensão é devida à um estado de anciosidade,
pessoa ansiosa é aquela que esta preocupara ou que espera algo, adianta-se na
imaginação à um momento, faz uma viagem ao futuro. Quanto mais valor e
importância ela dá ao evento maior será sua anciosidade e concludentemente
maior a tensão. A tensão não é em si um sentimento, mas um estado mecânico de
estar, pois não é algo que provém do âmagos central do pensamento mas sim de um breve lapso racional.
Assim fora dito pelo corredor quando
referia-se respectivamente aos sentimentos na chegada: “- Quando não consegue (
uma boa colocação.) a gente fica desanimado.” -
É até certo ponto conclusiva e correta a resposta, entretanto abro uma
questão: Qual é o verdadeiro prazer na corrida? É condizente dizer que o ato de
correr por si só é agradável? Estas sensações provenientes da corrida têm quê
nível de proporção? Assim, tendo referido seu desânimo diante de uma suposta
colocação poder-se-ia dizer que ainda assim ele estaria feliz pelas sensações
decorrentes do ato de correr? É inegável que estes dois valores são análogos
pois uma pessoa não poder dois sentimentos contraditórios ao mesmo tempo. Como
tudo depende dos valores pessoais que o indivíduo dá à corrida poder-se-ia
dizer de maneira generalizada que atletas de elite não sentem prazer em correr
mas sim em ganhar, enquanto que os atletas amadores reconhecem com maior
percentagem que os anteriores os prazeres que proporciona a corrida. Do
contrário dizemos que os dois grupos estudados sentem o prazer ou sensações
oriundas da corrida da mesma maneira, porém os da elite a pesar de sentirem não
conseguem expressá-los já que são de certo modo confundidos pelos seus próprios
pensamentos, ou seja: pensam excessivamente em ganhar, e fica obliterado e
soturnamente oculto os valores de prazeres da corrida, que são automática e
inconscientemente considerados por eles supérfluos.
O que confirma e justifica nossa
afirmação acima referida é a obstinação com a qual o corredor afirma ser a
filosofia do corredor fundista: “- Fazer o melhor tempo e correr bem.”
G - Entrevista
sétima / Com o corredor Rodrigo Ambros.
1)
Eu corro porque eu gosto, a São Silvestre
especificadamente eu decidi correr porque no ano passado eu operei o joelho, e
minha recuperação total seria completar a prova.
2)
Eu treino mais no parque Ibirapuera, e treino atletismo
junto da Escola Paulista de Medicina que é onde eu estudo.
3)
12 quilômetros 3 vezes por semana.
4)
A maratona é uma prova muito grande, eu não tenho
interesses em participar.
5)
Eu acho que o prazer existe quando acaba o desprazer,
porque quando você completa a prova e pára para descansar você sente uma
descarga de alívio muito grande.
6)
Ansiedade.
7)
Felicidade e dever cumprido.
8)
Eu acho que a saúde é a principal.
9)
Eu acho que o desgaste das articulações, principalmente
o joelho que muita gente têm problema, que corre muito, e quando chega mais
velho acaba não podendo correr por causa disso.
10)
Para min é o psicológico, é você agüentar correndo
quando você vê que ainda falta muito e não está se sentindo bem. É o pior.
11)
Acho que não têm.
12)
Também não tenho, porque eu corro a pouco tempo.
13)
Não têm.
14)
A persistência é a alma do negócio para quem deseja
correr, Ter força de vontade é o principal.
15)
Acho que não têm, hoje em dia existem aquelas
super-ultra-maratonas de 100 quilômetros que as pessoas correm. Eu acredito que
à medida que o tempo for passando a gente vai descobrir o real limite que o ser
humano têm, por enquanto ainda não está definido.
16)
Ela interfere a ponto de estimular como no caso dos
atletas de Cristo, ou de impedir como têm religiões que por exemplo para as
mulheres impedir que usem roupas como shorts e isso pode dificultar na corrida,
correr com vestidos longos é difícil.
17)
Para min eu fico triste quando eu vejo violência
relacionada ao esporte, praticamente isso. Também as pessoas que têm vícios e
praticam esporte, eu acho que é meio distônico.
18)
O esporte é uma alegria por si só. É você superar os
limites, é você participar, é você ter grupos ou conseguir fazer as coisas, é
muito bom.
19)
Atualmente é a maratona de revezamento “Pão de açúcar”,
porque têm uma boa organização, têm gente diferente também, e você vai junto
com uma equipe que vai correr com você. Então você têm que depender do outro e
ajudar o outro da sua equipe a conquistar o objetivo.
20)
Rodrigo Ambros Valau, 21 anos, São Paulo.
Temos aqui interessantíssimo material
para análise, a começar pelo que foi dito da seguinte maneira na resposta à
primeira pergunta: “- Minha recuperação total seria completar a prova.” –
Nota-se com límpido discernimento que neste específico caso a competição, que é
respectivamente um fenômeno físico e por isso bastante palpável, faz a função
de um ponto de referência para com os valores pessoais morais do corredor. O
fato de se haver dito uma frase de tal modo mostra-nos bastante volátil já que
na verdade o corredor já está totalmente recuperado fisicamente, o que ainda
não está reconstituída é sua constituição psíquica em referência à debilidade
anteriormente citada. É bastante evidente que completar uma competição não cura
nem sana ninguém, muito pelo contrário: o âmago de uma competitividade é a
descaracterização do corpo enquanto unidade positiva, definhando-se à sorte dos
acontecimentos forçosos que estão implicados neste ato. É se necessário notar o
aspecto cerimonial com que foi proferida esta afirmação anteriormente citada.
Completar a prova seria mostras de que há uma recuperação, estas cerimônias são
as manchas visíveis dum fatos já contundente. Não é por certo de cerimônias em
seus aspectos cabalístico que falo, mas sim dos fecundos conceitos de
visualização do real. É a representação da boa sanidade na forma física o que
está em jogo. Como se ele estivesse querendo dizer da seguinte maneira: -
Somente irei acreditar que me encontro com plena saúde se completar bem esta
prova. – O verbo acreditar está posto de uma maneira que nos deixa claro o
conceito de ramificação entre aspectos oriundos do físico e do mental. O mundo
é em si físico, mas imaginem leitores, sem querer tornar o assunto
estapafúrdio, se no mundo em quê vivemos constasse somente o mundo mental,
continuaríamos a nos relacionar uns com os outros por meio de comunicação,
porém sem a necessidade da expressão física à qual estamos atrelados senão
presos. Nesta suposição ainda estaríamos mantendo nossa unidade de
personificação ou diferenciação com os outros, o que é bastante difícil
imaginar já que dependemos exclusivamente do físico para mantermos os
pensamentos de uma forma sistemática e organizada. O rito de passagem pelo qual
o corredor há de passar para concretizar sua idéia de sanidade é fenômeno
físico, como sabemos que trata-se da própria corrida, pois esta possui uma
distância em quilômetros, sendo este último uma solução apropriada por se
tratar de ambiente espacial. O tempo que tudo isto demora para ser realizado é
fenômeno físico? Creio que não, o tempo seria tão elástico quanto a dúvida que
paira sobre as idéias deste corredor, noutro colóquio diremos que a distância é
tão física quanto a doença antes descrita, e que o elo de ligação entre estes
dois fatores é o ato cerimonioso de correr a prova, este é ligado ao mental e
ao físico, e por isso chamado de elo de ligação ou ponte se assim é preferível
denominar tal conceituação. Assim presume-se que existem determinados conceitos
que nos trazem ângulos maravilhosos às elucubrações aqui apresentadas, de forma
compactada não nos oporemos a apresentar:
1 - Tempo acompanha a dúvida por
ser fenômeno maleável.
2 - Debilidade delineia-se com a
distância por serem fenômenos espaço-físicos.
3 - Rito cerimonioso representa
o elo de passagem entre a dúvida e a certeza.
Por certo o corredor
Rodrigo Ambros não haveria de estar pensando numa linha de pensamento destas
quando referira-se aos motivos pelos quais deveria ele completar a prova, isso
dá mostras de que o ser humano é automaticamente levado a executar atos ou cerimônias
psicofísicas, que travam a ligação da mente com o corpo, na forma de instinto,
ou seja: sem a consciência real mas sim com os resultados das posteriores
provas perscrutando em seus valores morais.
Pergunto-me qual a maneira mais positiva
de se correr. Os corredores das mais variadas estirpes, credos, origens e
conceitos falam com freqüência do que se diz ser “mania de correr”, tornando a
corrida, ou a concepção que se faz desta, uma atividade de cada vez mais
opulência no espaço que é a vida. Uma rotina cada vez mais larga, não quero com
isto desmerecer o assunto referido, mas sim aclarar com a seguinte questão:
Qual o devido espaço que há de se doar à corrida? A resposta por certo será
duma incerteza quase absoluta, pois uns dirão que tudo depende, outros são do
conceito de que não se deve perder tempo correndo à toa, e outros ainda dirão
que a corrida representa tudo na vida justo como fora o caso de nosso querido
entrevistado Giovane Andrade quando diz que corre para ser alguém na vida. Por quê diz-se que é perca de tempo? Na praxe
duma sociedade influenciada pelos valores aquisitivos é verdadeira perca de
tempo, aliás diríamos que todo esporte que não seja de rendimento é
irrisoriamente desnecessário, já que o que preciso é Ter minhas aquisições, de
quê me serviria correr loquaz pelas ruas, o que é largamente diferenciado numa
referência aos remotos tempos, quando dever-se-ia correr para sobreviver: atrás
da caça ou fugindo do predador. Criamos os carros e com isso perdemos valores
naturalmente inerentes à nossa raça, porque perdeu-se os motivos da caminhada
ou corrida. Os valores se esvaíram, estes valores são apresentados como meio de
transporte, aquisição de alimento e fuga
da morte. Chegamos à conclusão de que o homem se priva de suas naturalidades,
ignorante e brutalmente ele se auto deturpa com estas produções que deveriam
ser chamadas de putrefações, pois na realidade o naturalismo de toda uma raça é
apodrecido com as leis que esta mesmo cria. O estado cabal é afastado, a
perfeição fica cada vez mais distante pelo que se chama desenvolvimento
tecnológico, o que pode ser citado sem quaisquer remorsos por: apodrecimento
tecnológico já que ao invés de progresso há regresso das naturalidades. Nesta
gama de pensamentos perguntar-lhes-ei novamente: Qual a corrida mais benfazeja
ao ser humano? Venho notando através destes estudos e da comparação destes com
a atualidade em que vivemos que falta ao corredor um sentido moral para sua
corrida, os valores morais não chegam nem perto dos físicos, são muito fracos,
e é isto justamente o que buscava Rodrigo Ambros quando disse: “Minha
recuperação total seria completar a prova”, o conceito “recuperação total”
implica numa atividade mental, idéia, moral ou justificativa que faz com que
ele corra, do contrário ele não teria grandes estímulos para correr, e talvez
estivesse tão baixos os níveis morais que não chegasse a correr. Noutro tempo
encontramos que os conceitos mentais eram muito mais fortes que os físicos, tão
fortes que são chamados de instintos chegando a ser automatizados de geração à
geração numa espécie, dever-se ia fugir de um leão voraz, porém não se corria
com velocidade suficiente para lograr a
continuidade da vida, é evidente que ainda hoje não há velocidade capaz de
conseguir tal feito, mas a idéia que se passa aqui é a de que os valores morais
eram infindavelmente superiores, e que pouco a pouco o corpo desenvolveu-se e
perderam-se os valores mentais naturais. Alguém certamente dirá que não
precisamos mais destes valores naturais mentais porquê já dominamos a natureza
de tal maneira que hoje ela quase não representa perigos, ao menos quando
comparamos com a antigüidade, porém os valores físicos ainda são necessários
para a manutenção da saúde, foi esta descoberta que trouxe a vertiginosa busca
pela aquisição de um corpo forte, bonito, atlético no que verte à concepção de
saudável, a grande problemática é portanto que postergaram-se os valores e
qualidades físicas e foram censuradas as qualidades naturalmente psíquicas.
Seria possível, numa presunçosa futurição, adquirirmos a harmonia no momento em
que inventarmos um corpo físico robótico e implantarmos neste um cérebro, para
que assim sumissem as necessidades fisiológicas tais como o movimento, já que
este é necessário para manter-se um corpo saudável. Assim estariam estirpadas
as necessidades de valores morais para a corrida, o que já fora na realidade
estirpado, e o movimento propriamente dito, sem quaisquer inconveniências para
nossa raça. Ou então a contextualização utópica anteriormente referida de
vivermos em um mundo privado do físico, somente o campo mental existe, pois
assim havendo sido privada a necessidade moral de correr isto não constituiria
qualquer problema para a parte física já que esta não é real.
Meados nesta loquacidade ferrenha me
pergunto se existe prazer na idéia de correr? Isto porque pensava neste
fantástico mundo de cabeças pensantes privadas de conceitos concernentes ao
físico, será que neste mundo a idéia de correr traria prazer? Como seria
possível ter-se prazer na idéia se eles nunca tiveram a oportunidade da
prática? Isso é evidente já que não há materialidade nestas elucubrações
feitas. E eu? E você? Há prazer em pensar-se em correr? Não prazer mas
expectativa, a expectativa com a qual confrontamos ou assimilamos não é capaz
por si só de trazer prazer, já que o prazer é decorrente dos sentidos, no mundo
mental não há sentidos e sim o conceito dos sentidos. Parece inevitável
havermos nos aproximado nos pensamentos aristotélicos, por mais que se queira
fugir ou desvencilhar-se, o fato é que aqui estamos falando sobre idéias e
espaço.
Perguntarei pela terceira vez: Qual a
melhor maneira de correr? Quando propus abordar esta questão matutava sobre o
que disse Rodrigo Ambros em relação ao treino, respectivamente que corria 12
quilômetros três vezes por semana, vejam que não há exageros, e é contundente
ressaltarmos algo sobre a ideologia competitiva. Este corredor por certo não é
tão obstinado quanto Antônio José no que concerne às idéias de correr, de
maneira leve e paulatina despende os treinos através dos tempos. O que é digno
de exaltação, já que assim não haverá os extratosféricos exageros, oriundos da
mente e repercutidos no corpo em forma de debilidades e lesões dos mais
variados matizes. A corrida não se ocupa dele na mesma proporção que de um
ultramaratonista por exemplo, este último que pode corre uma média de até 40
quilômetros diários, ao menos no aspecto prático, pois um corredor pode se
ocupar, como o fazemos aqui, teoricamente, filosoficamente e mentalmente com a
corrida numa proporção maior que a de um corredor de longas distâncias. Qual
seria mais harmonioso? Aquele que equilibra as atividades de sua vida fazendo a
proposta de trazer maior variabilidade ou o que chega ao auge duma determinada
atividade aproveitando toda a extensão dos prazeres e desprazeres desta realidade?
Seriam os ultramaratonistas pessoas desequilibradas? Qual o conceito de
equilíbrio? É interessante dizermos que equilíbrio trata-se de tudo aquilo que
possui grande variabilidade? Do contrário diríamos que equilíbrio ou harmonia é
a sublime enlevação do corpo e da mente aos mais possíveis altos patamares de
uma realidade, por certo a corrida é uma realidade. São conceitos que segundo
minha opinião nos trazem maior consciência quando pensamos no real, na
atividade em relação ao dispêndio de energia, estes pensamentos perscrutam por
sendas nada simplistas, muito pelo contrário, a profundidade que nos revela
aqui é de se prolongar à uma vasta e produtiva discussão, porém para efeito de
melhor entendimento iremos aqui simplificar o tema através de tópicos:
Dualidade com relação à origem e caminho do equilíbrio:
1 - Variabilidade do real.
2 - Êxtase dos mais enlevados patamares do real.
O prático e o
teórico confundem-se de misteriosa forma, ou o que diríamos como físico
equilibrado e mental físico equilibrado, o completo segundo a liberdade a que
se dá vazão é ainda maleável à discussão. Pois dum ponto de vista a
“variabilidade do real” pode trazer por exemplo ao corredor mais tempo para que
ele exerça outras atividades, estas outras mesmo que não ligadas ao aspecto
prático da corrida podem elevar o patamar do que chamamos aqui de plenitude,
plenitude não somente do todo ou de todas atividades em conjunto como também da
corrida: Não nos conscientizam de maneira a nos dar uma realidade transcendente
os estudos de determinado assunto? Os aspectos concernentes à percepção são os
mesmos, mas aqueles que chamam-se concepção podem mudar. Qual a sua concepção
de corrida? Você depende para tê-la somente dos fenômenos práticos ou
utiliza-se de outros artifícios para ampliar seu espaço mental conceptivo?
Assim diz-se que a plenitude do ser é suscetível à dúvida quando nos baseamos
nos dois pontos já referidos.
Bastante fartos com os conceitos
apresentados, contudo satisfeitos nos embalaremos para outra ressonância: “-
...quando você completa a prova e pára para descansar...” – Respondendo de
maneira incisiva à respeito do prazer no desprazer estas foram as palavras
referidas. Numa abordagem científica dizemos que o organismo produz endorfinas
quando em atividade física, estas tratam-se de hormônios, hormônios que
entorpecem o organismo de modo a diminuir drasticamente os efeitos dolorosos
provocados pela própria atividade. É concebido que as endorfinas quando
comparadas com a substância morfina utilizada como anestésico por médicos,
evidentemente na mesma quantidade, têm um efeito 200 vezes mais forte. Sendo
assim notamos o nível de entorpecimento a que está submetido nosso organismo
durante uma atividade. Me provoca estafa mental só da quantidade de vezes que
já ouvi as pessoas dizerem que começam a correr e logo uma dor ou outra que
estavam sentindo passa e aí treinam normalmente, fato decorrente da produção
deste forte anestésico que são as endorfinas. Seria de bom senso pensarmos que
mesmo as dores tendo passado a causa ainda estaria lá, e se corremos, mesmo sem
sentir dores e as causas que provocaram as dores ainda existem certamente
estamos sobrecarregando algo, por causa disso nomearemos as endorfinas de
“cortinas da obscuridade”, já que estas ocultam as dores, como que querendo nos
enganar. O estranho é que ao mesmo tempo em que as “cortinas da obscuridade”
nos ofendem com esta hilária mas perversa pantomina nos agraciam com uma
desmensurada sensação de prazer, que se propaga por 30 minutos à uma hora após
as atividades físicas, chegando a níveis maiores nos momentos posteriores. O
prazer que é ressaltado por Rodrigo Ambros é descrito justo após a atividade, o
que coincide com nossas proposições. Este efeito puramente químico ou físico
ainda se une com a fecunda importância que é dada ao momento, e com o fato que
era abordado anteriormente, já que havia um motivo de concretização naquele
evento. Conciliamos por certo o químico com o ideológico: “- Minha recuperação
total...” / “- ...e pára para descansar.” – São portanto estas duas frases que
nos dão a referência para o ideológico e o químico, que complementam-se no
final da prova de extraordinária forma.
Rodrigo Ambros diz que há ansiedade
durante a largada, ansiedade é um estado de estar em que “se espera por algo”,
nosso cérebro não tendo a capacidade de saber ou se antecipar com a total
segurança ao que dentro de breve irá ocorrer recorre à artifícios tais como a
ansiedade aqui demonstrada pelas elucubrações do corredor. Insegurança,
incerteza ou instabilidade mental são adjetivos que poderíamos aplicar a este
estado de ser. Em nossas jornadas em diversos momentos abordamos algo relativo
à capacidade e à atividade de concentração mental, inseridos neste âmbito faço
a colocação que relacionará ansiedade e concentração mental. Pode parecer
estranho ou até patético dizer que a ansiedade contribua de alguma maneira para
com a concentração mental, porém é justo aplicarmos esta afirmação, pois assim
estaremos pré considerando algumas teorias, que sendo respectivamente
destrinchadas podem vir a trazer algo de útil aos nossos estudos. O primordial
neste caso seria saber quê entendemos por ansiosidade: como visto fora dito que
é um estado de incerteza e expectativa do que não é estabelecido. É fenômeno
mental que têm repercussão nas atividades biológicas. O fato de ser a ansiedade
um fenômeno mental implica que há os mesmos matizes nesta e na concentração, pois
esta última é num igual fator fenômeno mental. Qual seria, se realmente há, o
nível de influencia do que se diz ansiedade na concentração? Sabemos que a
concentração deve ser feita principal e exclusivamente nos momentos
antecedentes à prova, neste caso a ansiedade estaria coexistindo à suposta
concentração, e talvez até contribuindo para que ela seja feita de maneira mais
condizente com o melhor desempenho ou otimização. É de fato bastante
inteligente de nossa parte supormos que a ansiedade ou mesmo o nervosismo
desencadeiam uma série de reações químicas no cérebro, que terão efetiva
ligação com os aspectos físicos seja de circulação sangüínea como de
contractilidade muscular, para exemplificar melhor é fácil notarmos que quando
ficamos em estado de tenção, nervosismo ou ansiedade as pernas começam a tremer
e os braços não correspondem como queremos, os comandos mentais não são
suficientemente fluentes para que o corpo os obedeça com perfeição, isto ocorre
à muitos músicos quando se deparam com uma apresentação musical diante de um
vasto público, exigente e grande. Neste caso a ansiedade iria degradar o
desempenho físico, já que os comandos do físico estariam distorcidos por esta
nefasta ocorrência, por outro lado sendo a ansiedade fenômeno mental pode ela se
transformar em fenômeno mental de outros matizes, como por exemplo uma ímpia
raiva pela própria situação de ansiedade, estamos aqui abordando o que seria
uma mudança de sentimentos, no caso de que não houvesse existido a ansiedade
não haveria esta outra raiva posterior, ou então esta não haveria tido o devido
êxito e proporção. Assim constatamos que a ansiedade por si não possui
características propriamente positivas, mas que suas decorrências podem ser
tanto drásticas, como a sua continuação, como benfazejas como a transformação à
outras dimensões sentimentais que dão maiores êxitos e consagrações à corrida.
Porém em relação à concentração diremos que é uma maneira distinta desta,
distinta e irrestritamente desorganizada, o que poderia claramente ser denominado
como uma das características da desconcentração, assim está dito que não mais é
concentração senão sua antagônica faceta, ao menos uma parte dela.
Aqui vai uma mensagem que pode o senhor
ou a senhora leitor considerar tanto interessante como indiferente, porém o
ensejo é definir de melhor maneira de que se tratam estas nossas abjetas
introspeções aos ditos destes corredores entrevistados: pode parecer que
estejamos abordando de maneira exacerbada e detalhista a ponto de aborrecer
qualquer leitor de paciência respeitosa, como sabemos, os corredores que aqui
se dispuseram a conceder respostas são corredores não especificados, ou seja:
foram sorteados e escolhidos de maneira generalizada. Assim, como qualquer
outra pessoa responderam de maneira lógica e objetiva, não ficando atidos
especificadamente com as características filosóficas que aqui estamos propondo
abordar, por isso pode parecer que haja uma contradição do que está sendo
respondido com o que está sendo analisando. Mesmo que seja convencional esta
realidade dualista há grande interesse de nossa parte aprofundarmo-nos em
assuntos sugestivos e originais a que somos incitados referir através das
sábias palavras ( mesmo que inconscientes ) dos corredores.
H – Entrevista oitava / Com
a corredora Maria Tereza Matos de Carvalho
1)
Por prazer, só por isso.
2)
Na avenida Sumaré e às vezes no Ibirapuera.
3)
Por semana em torno de 35 quilômetros.
4)
Para min por enquanto inalcançável. ( risos )
5)
Existe, sem dúvida. Até a ansiedade da véspera da
prova, não tem patrocínio, não têm nada mas me dá prazer, não sei...
6)
Um pouco de poder, um pouco de realização, liberdade.
7)
Vitória independente do lugar.
8)
Devagar e sempre.
9)
O desgaste físico e algumas pessoas que treinam sem um
apoio mais correto às vezes acaba se machucando.
10)
Você conseguir manter um ritmo, não querer ultrapassar
o seu próprio ritmo.
11)
Na última prova vontade que chovesse mais porque o
calor estava insuportável.
12)
De ter ficado por 1.5 Km. Em último lugar na última
corrida.
13)
Cômico? Eu acho que isto é trágico e cômico: ficar por
1,5 Km. como a última colocada.
14)
Que o esporte levanta qualquer pessoa de qualquer
estresse, de qualquer depressão. O esporte é o caminho para tudo.
15)
Sem dúvida, eu acho que a gente têm que ter orientação
o tempo todo, embora eu não participe de nenhuma academia eu vou à médico
ortopedista, eu tenho um personal trainning que me orienta, um nutricionista: o
fundamental é orientação.
16)
Não interfere em nada.
17)
A dor no joelho. ( risos )
18)
Mesmo com a dor no joelho chegar.
19)
A que a gente consegue completar.
20)
Maria Tereza Matos de Carvalho, 36 anos, São Paulo
Fique maravilhado quando Maria Tereza
diz na questão 6 que seus sentimentos na largada são de poder, realização e
liberdade. São três adjetivos bastante fortes. Eu posso fazer isto! Eu tenho
plenas capacidades de sair correndo agora mesmo, se você quiser, e chegar num
lugar completamente diferente com 15 quilômetros de distância. Não é isto o
poder? É inerente somente àquele que é capaz, aquele que não é capacitado não
têm o poder. Quê tipo de poder é este? É o poder de realização, por isto Tereza
diz que têm o sentimento de realização.
Assim este é um poder de ação, relaciono ainda com a personificação que
havíamos discutido no Capítulo – 26 Tópico –D, quando discorríamos sobre
personalidade, pois Tereza só têm o poder porque existem pessoas que não o têm,
assim, se todos tivessem este poder isto já não constituiria um poder, mas sim
uma ação comum que é o mesmo que não ação. As pessoas gostam do poder porque
ele personifica o ser, a corrida portanto além de doar à quem pratica uma saúde
orgânica ( o que é mais que óbvio ) contribui na formação de sua personalidade,
pois se seu sentimento na vivência é de ter poder ( capacidade de executar
determinada tarefa ) faz com que ela se sinta diferenciada do grande
contingente populacional, doando à ela não dons sobrenaturais, mas adjetivos de
distinção.
Sentir-se liberto ( ainda na 6 ) não é
necessariamente uma fuga à regras, ou uma corrida totalmente desregrada e
liberta. A liberdade pode e deve se enquadrar num método, não posso correr um,a
São Silvestre com o joelho “estourado”, ou com lesões nos discos
intervertebrais. Temos por exemplo que o corpo impõe determinados limites,
estes que podem não privar um certo grau de liberdade, até que ponto posso
correr? Isto deve ser formulado e analisado para que se possa montar uma
planilha de treino específica que se adeque às suas características. Bem,
imbuídos de métodos encontramos o treino.
Suponho que o treino seja um método para se correr mais prazerosamente,
eficiente e adequadamente. Como é possível sentir-se livre dentro de uma
competição com distância, itinerário, reposição de água controlado? Para Tereza
esta é uma liberdade, mas creio que devamos aqui teorizar melhor esta
liberdade, pois um treino Como o descrito no Cap. 16 – Bom humor, Tópico E -
Alegria que extrapola os limites do bom senso, é um exemplo de liberdade
mas explícito e visível. Até que ponto temos liberdade nas atividades que
realizamos? Dentro do trabalho há liberdade? Podemos, por exemplo, executar uma
ordem estando libertos? Liberdade é fazer o que quiser quando bem entender, e,
naquele momento o que Tereza queria era correr a prova, e por isto sentiu-se
liberta, mesmo estando regida por determinadas normas da competição, por isto é
se possível haver liberdade num ambiente com regras, desde que o ato seja da
vontade do praticante. Pode-se dizer que
a liberdade total é utópica, somente colocamos até agora uma liberdade
psicológica, porque a liberdade física é a anarquia, que recai na desordem,
destituição do método e da regra. Não conveniente para o treino, digamos que a
descrição do capítulo 16 – D tenha sido um exemplo de liberdade
física e psíquica, quando na verdade a psíquica deve ser mais
adequada. No entanto há um perigo muito grande neste assunto, pois uma coisa é pensar
estar livre, outra coisa é estar livre. Assim temos os seguintes
termos
LIBERDADE ILUSÓRIA = PENSO
ESTAR LIVRE. (Liberdade meramente psicológica )
LIBERDADE REAL = ESTOU LIVRE. (
Liberdade física e psíquica. )
O maior medo
dos grandes chefes políticos de todos os tempos é a liberdade do ato de pensar
dos outros, muitos daqueles que ousaram desenvolver linhas de raciocínios (
liberdade real ) pagaram com suas próprias vidas. Assim, este é o poder da
filosofia, o poder de tornar-se livre psiquicamente, ou seja: eu agora, sei
muito melhor que antes o que ocorre ao meu redor. Vamos colocar um exemplo
prático: Se Tereza tivesse por exemplo lido estes conceitos sobre liberdade
antes de responder à pergunta talvez ela reconhecesse não estar totalmente
livre, mas sim no campo psíquico, pois correr é para ela um prazer de tal
envergadura que transforma aquele momento num momento de liberdade, se fizesse
um treino não atrelado ( Cap. 30 ), ou livre.
Como existem
infinitos limites da realidade não existe liberdade total, mas sim uma
liberdade real que vivo hoje, talvez amanhã mude alguns conceitos sobre minha
realidade e passe a entender que o que vivi hoje estava limitado passando à um
novo nível de entendimento. A liberdade está portanto em constante ascenção, ou
ao menos a concepção deste termo. A grande “jogada” da mídia e de qualquer
empresa por exemplo é a sedução do
cliente, aquele que está seduzido, está também ludibriado ( não necessariamente
enganado ), passei a gostar de
determinados produtos através de um trabalho integral que foi feito para me
conquistar ( cores, sons e formas propagados através de estratégias
psicológicas como repetição, impacto, tamanho ) Assim, eu gosto do produto, me
sinto liberto utilizando-o, mas não sei que fui induzido a gostar deste
produto. É isto a liberdade? Não, definitivamente não, esta é a liberdade
ilusória anteriormente descrita. A liberdade ilusória, portanto, se baseia na
ignorância da pessoa, não coloco aqui a palavra ignorância em tom pejorativo,
nem num contexto forte, mas sim a ausência do conhecimento dos próprios
sistemas de funcionamento da psique e do pensamento humano. O contrario do que
ocorreu com grandes empresas, por incrível que pareça elas notaram qual a
melhor maneira de vender seus produtos, simplesmente conhecendo o funcionamento
da psicologia do homem. O exemplo mais apelativo é a própria propaganda de
cerveja cheia de mulheres exóticas estonteantes, o que é inevitável para o instinto
sexual, é algo que vai além da formação humana, apela-se para o lado mais
“animal”. Assim, é uma estratégia que dá certo! É liberdade? Não! Também
indução por outros meios.
Maria Tereza,
na questão 7, diz que seus sentimentos na chegada são de vitória, o que condiz
com a sensação de auto realização que têm quando completa ou realiza um
objetivo proposto, a sensação de vitória não poderia provir por exemplo de um
objetivo não cumprido, pois primeiro traçamos metas para depois cumpri-las, e
correr o risco de conseguir ou não realiza-las, existe uma porcentagem
específica de certeza de que esta meta será bem sucedida, esta certeza irá
provir do feedback, ou análise de tudo o que foi treinado durante o tempo de
treino, se caso treinou-se pouco será maior a possibilidade de uma meta não
concretizada, e por isto de um sentimento que não seja o de vitória, ainda
importante frisar que a intensidade do sentimento de vitória será esquivalente
ao grau de espectativa que foi colocado durante os treinos e momentos
antecedentes à prova.
Esta
expressão: Devagar e sempre. Pode soar um tanto patética, satírica ou hilária, não obstante enquadra em si uma
idéia perene, algo que é expressivamente sincero e verdadeiro, pois, que
poderíamos pensar ser mais importante, na maneira de executar as coisas que
devagar e sempre? Assim se passa com a corrida: não adianta treinar durante
três ou quatro meses para uma maratona e depois disto parar de vez com a
atividade. Tampouco é benfazejo treinar excessivamente rápido ( este
excessivamente rápido está posto mediante a percepção de cada um ) , além do
que o organismo pode suportar, assim devagar e sempre é uma maneira equilibrada
e sadia de praticar a corrida. É por certo bem melhor seguir esta expreção que
a sua antagonista: Rápido e quase nunca. A questão 9 complementa a 8, pois
aquele que treina de maneira inadequada se machuca, isto porque ele não treina
devagar e sempre.
Tereza diz que
é difícil segurar o mesmo ritmo, pois sempre têm vontade de ultrapassar o seu próprio ritmo, o que se mostra uma
expressão por deveras interessante, senão bastante utópica, já que não seria
possível ultrapassar seu próprio ritmo, pois na medida em que aumento meu
ritmo, o próprio ritmo está aumentando e como ele aumenta junto comigo eu nunca
poderia ultrapassa-lo. É evidente que aqui analisei um erro não de vocabulário
mas de expressão, não um erro, uma expressão que provoca interpretações dúbias,
todos sabem muito bem que o que Tereza quis dizer foi que estipulou que o ritmo
dela médio de corrida durante os treinos era X e isto tornou um objeto que não
faz mais parte dela, por isto ela pode ultrapassa-lo. A análise menos hilária
não seria literária, mas sim psicológica, pois há no ser humano uma constante
busca pela melhora e enlevação nos mais variados aspectos da vida, por que
então iria a corrida fugir à esta regra? Não queremos sempre o melhor para a
gente? Não buscamos sempre melhorar de uma maneira ou de outra? Se não é o
ritmo que melhoramos é a maneira da passada, se não é isso é a roupa, o
uniforme, a fantasia, a postura, o sorriso e a alegria. Não sei bem ao certo se
a alegria pode melhorar, pois esta seria na verdade o estágio final da busca
pela melhora nos outros aspectos. Por que buscamos melhorar? Para quê aumentar
o ritmo? Para ficar alegre? Para a auto realização, e o sentimento de vitória
que Tereza cogitou, talvez se ela não buscasse sempre aumentar o ritmo seu sentimento
de vitória no final fosse pouco menos itenso. Ao mesmo tempo que aumentar o
ritmo aumenta as possibilidades de alegria, auto realização e vitória é também
um tiro no escuro, algo pouco arriscado, pois esta é em suma uma das coisas que
deixa os corredores mais preocupados, pois a maior vontade do grande
contingente de corredores é de correr cada vez mais rápido, no entanto há o
outro lado da moeda, pois a repercussão pode ser negativa como contusões,
tendinites ou mesmo “quebrar o ritmo” que é uma expressão que indica que o
sujeito não suportou o ritmo impresso e simplesmente teve de parar ou reduzir
drasticamente o ritmo. Existe por isto algo que se chama bom senso, razão e
discernimento, são capacidades intelectuais que lutam com este instinto de
vitória. O corredor consciente de seu treino não pode se deixar influenciar nem
pelos outros corredores nem por seu próprio e exacerbado egocentrismo, deve
saber colocar um limite específico em sua velocidade. Mas que limite? Isto já
deve ter sido definido em três meses de treino, ou até mais. Conclui-se disto
que o que se faz em uma prova nunca vêm ao acaso, mas é resultado do que se fez
durante muito tempo, por isto não podemos colocar a mesma expressão que é
colocada no futebol: “É uma caixinha de surpresas”, na verdade tudo o que
ocorre na corrida já foi premeditado durante os treinos, não queiram os
corredores achar que vão fazer um milagre durante uma prova.
I – Entrevista nona / Com o
corredor Kazuo Kimura
1)
Eu corro porque faz bem para à saúde.
2)
Eu treino pela via Anhangüera, pelo acostamento.
3)
De 10 à 12, domingo eu faço mais: de 20 à 26.
4)
Maratona em si é muito bom, só que daqui de São Paulo
não é muito bem organizado.
5)
Bastante prazer! Por isso que eu corro: eu corro pelo
prazer e pela saúde, não para competir.
6)
Na largada é uma emoção, aquela vontade de sair.
7)
Quando chega dá aquela sensação gostosa de ter vencido
mais uma vez, de ter completado mais uma etapa.
8)
De fato eu sou fundista, já corri 25 maratonas. Para
min é quase como uma coisa mística poruqe como é longa distância a gente pensa
em alguma coisa, essa coisa sempre se volta à Deus.
9)
A parte negativa da corrida? Eu não acho que haja
alguma coisa que se possa dizer negativa poruqe tudo para min é bom.
10)
Mais difícil é quando está lá pelos seus 5/6
quilômetros, em que estamos no aquecimento, então dá vontade de desistir de
correr, de deixar de correr: Por quê estou correndo aqui? E tal... Né? Então
este é o momento que eu acho mais difícil, passando esta etapa, daí para frente
é beleza.
11)
Não há.
12)
Conforme eu já falei: Quê estou fazendo aqui?
13)
Mais do que uma: numa das maratonas eu estava cansado,
na metade do caminho, 27 quilômetros, daí à pouco vêm um cara atrás, então
aconteceu aquilo que eu não queria, aí o cara fala: Ê Japão, quê isso? Quê
isso? E saiu segurando o nariz. ( Efusivas risadas )
14)
Olha... principalmente para a juventude: Que pratique
esportes, se puder pratique corrida porquê você não precisa de companheiro, não
têm tempo: pode ser chuva , à noite, domingo, de manhã, em qualquer momento.
Principalmente porquê faz bem à saúde, e quando você está ocupado na corrida
você esquece tudo que é ruim, então você quer chegar, faz muito bem para jovem
principalmente.
15)
Eu acho que não! Não sei, é uma coisa muito difícil de
falar porque cada vez mais aparecem recordes. Onde nós vamos chegar?
16)
Não tem nada a ver religião com corrida.
17)
Nunca ocorreu tristeza para min por estar correndo,
acontece quando a gente não pode correr por causa da saúde, por causa de alguma
contusão.
18)
Alegria é o tempo todo: desde a largada até a chegada.
19)
Sempre maratona.
20)
Kazuo Kimura, 71 anos, São Paulo.
J – Entrevista décima / Com
o corredor Jorge Eji Sato
1)
É um complemento de vida, um objetivo e um prazer.
2) No Ibirapuera.
3)
30/35 por semana.
4)
Um dia farei uma: Os corredores se dividem entre os que
já fizeram e os que ainda não fizeram.
5)
Há sempre o seu limite, sempre o corredor têm alguma
dor, você supera isso daí. O limite está em saber controlar isto.
6)
Bastante ansiedade, mas assim que é dada a largada é um
momento de prazer, eu corro para a satisfação pessoal.
7)
Sempre a satisfação de cumprir um objetivo.
8)
Eu creio que conseguir administrar, dosar bem a sua
capacidade e completar um trecho, um objetivo. Conseguir superação.
9)
Ansiedade excessiva, querer ultrapassar limites.
10)
Achar o seu limite, não querer acompanhar o vizinho que
corre mais.
11)
Eu estava em uma corrida e um atleta caiu, a gente
ajudou para levantar e o rapaz superou e saiu voando.
12)
Desventura foi minha primeira corrida mais longa que
terminei com câimbra, consegui terminar mais foi muito sofrida.
13)
Na São Silvestre todos mexem com o público, as
fantasias...
14)
Eu gostaria que através da atividade física, seja
corrida ou corrida de fundo, seja uma forma de buscar a saúde física e mental.
15)
Por enquanto ainda não. As ultramaratonas que
ultrapassam 100 quilômetros levam próximo do limite humano.
16)
Religião não interfere.
17)
Por ser um esporte tão barato e acessível as pessoas
poderiam praticar mais.
18)
Alegria é sempre poder participar.
19)
A melhor corrida é a corrida que você termina bem, que
consegue ter o objetivo inicial. A São Silvestre é uma das melhores.
20)
Jorge Eji Sato, 46 anos, São Paulo.
L - Entrevista décima
primeira / Com o corredor Robedis Rodrigues de Lima
1)
Porquê eu gosto, é meu hobbie, eu sinto a necessidade
de correr pois vêm aquela força por dentro de explosão e dá vontrade de sair
correndo.
2)
Perto de casa.
3)
Cerca de uns 15 Km.
4)
Um pouco forçada, precisa de bastante preparo.
5)
Existe. Porquê você vê que deu tudo de si, e sente
aquele prazer
6)
Emoção, vontade de vencer e correr.
7)
Na chegada aquele sentimento gostoso, ver que você pode
concluir a prova independente da colocação, isto é muito importante.
8)
Correr sem parar. ( para alcançar o objetivo [ Risos ]
)
9)
No momento do cansaço vêm o pensamento de você querer
desistir, querer parar.
10)
Querer parar, sempre você quer continuar.
11)
Foi no momento em tive que parar no meio da corrida
para fazer uma necessidade fisiológica, foi engraçado... mas consegui completar
a corrida.
12)
Não têm.
13)
No momento em que eu ia correndo aí o parceiro do lado
tropeçou e saiu derrubando os 5 caras da mesma equipe.
14)
Para o corredor não importa a colocação que você
obtenha, o importante é você participar e dar tudo de si. A mensagem para
aqueles que estão te assistindo: uma mensagem de força, de luta, que você quer
ser um vencedor.
15)
Não existe limite, você sempre que dar mais de si,
sempre bater um recorde, ir além daquilo que os outros querem de você.
16)
Eu acho que a religião não interfere, você têm que se
dedicar, e em todo momento estar de mente ligado em Deus, e se você está ali
preparado, está em comunicação com Deus, se for da sua vontade e da vontade de
Deus que você ganhe com certeza você vai ganhar. Você tem que estar preparado e
em comunhão com Deus, aí sim.
17)
No momento em que você procura dar tudo de si e não
consegue.
18)
Quando atinge aquela meta que você está esperando ou
mais ainda.
19)
Aquela que você termina bem .
20)
Robedis Rodrigues de lima, 26 anos, São Paulo.
M - Entrevista décima
segunda / Com o corredor Luiz Carlos Bastos
1)
Primeiro para manter a parte física, e a saúde que eu
acho mais importante que isso.
2)
Nós moramos em uma cidade no interior de São Paulo:
Ribeirão Pires é uma cidade estância, têm um clima bom e treinamos 3 vezes por
semana.
3)
7/8 Km. só porque é a noite e não dá para treinar
muito.
4)
Eu nunca corri maratona primeiro porquê eu estou com 52
anos, u acho que não estou mais na idade de ter este esforço físico grande. Não
existe idade específica mas como eu comecei tarde, acho que agora não dá mais
para acompanhar este pessoal da maratona.
5)
Não, existe prazer, você se sente bem, você fica
ansioso em querer participar de provas de 10, 15 e até 20 quilômetros, mesmo
com a dor, você vai administrando a dor e vai.
6)
Bastante tensão, você fica um pouco estressado porque
quer fazer sempre o melhor possível.
7)
É gratificante saber que você completou o percurso num
tempo bom.
8)
É ter uma resistência física para sempre cumprir o
percurso que é determinado pela prova.
9)
Existe o aspecto negativo principalmente quando você
começa uma prova, ela se torna meio desestimulante pois até você atingir os
quilômetros ¾ você ainda não está ainda com o corpo aquecido e dá vontade até
de parar a prova.
10)
Administrar os primeiros quilômetros, depois você vai
embora.
11)
Encontrei um pessoal aí indo de boca no chão e quase se
arrebentando, isso foi “brabo”.
12)
É você estar correndo e acontecer um desarranjo
intestinal. É complicado.
13)
Que eu presenciei é você estar correndo uma prova e ver
o cara agachado na beira da estrada fazendo as suas necessidades fisiológicas.
( risos )
14)
À todas as
pessoas que têm espírito de desportista: Que sempre vá em frente, não desanime.
Que é importante principalmente para a saúde, não importa você ganhar, o
importante é você participar.
15)
Creio que não, depende de cada ser humano, depende do
condicionamento físico de cada um. Eu sei o meu limite que é no máximo 20
quilômetros, eu não quero mais que isso.
16)
Eu acho que é importante a religião, principalmente se
você tiver uma religião que trabalhe bastante com a mente, filosofias que
trabalhem com a mente ajudam você a
administrar o cansaço físico, o estresse.
17)
É que não é bem visto pelos órgãos do governo, não é
muito prestigiado. Você vêm participar de uma corrida São Silvestre aqui, paga
uma taxa alta e não têm nada, um copo de água e uma medalha muito da
“ruinzinha”.
18)
Pelo fato de você estar participando com diversas
pessoas juntas e estar sempre envolvido com este seguimento do esporte.
19)
Aquela que você se sente bem, que está bem de saúde,
faz um bom tempo e percurso.
20)
Luiz Carlos Bastos, 52 anos, Ribeirão Pires.
N – Entrevista décima
terceira / Com o corredor José Nazareno da Silva
1)
Para min eu considero o esporte como uma fonte de vida.
2)
Infelizmente não tenho um local adequado para treinar,
acabo treinando em ambientes como chão de concreto, asfalto. Mas na realidade o
certo seria estar correndo em chão de terra, em gramado que proporciona um
condicionamento físico melhor para o atleta. Infelizmente eu não tenho este
privilégio, acabo correndo em lugares inadequados.
3)
Quando eu estou na ativa cerca de 70 quilômetros por
semana.
4)
Particularmente eu gosto da corrida de rua até meia
maratona, a maratona já é um pouco puxado, para min não é muito adequado até
porque nós que somos atletas amadores não temos muito tempo disponível para se
dedicar realmente ao esporte. Maratona não é muito conveniente para min.
5)
Eu acho que para o atleta amador, que ama o esporte
vale tudo. Eu já corri até doente, resfriado, mas quando nos escrevemos o
coração fala mais alto e a vontade de cruzar a linha de chegada. Vale tudo.
6)
Hiii rapaz... Muitos: euforia, te bate muita ansiedade:
você não vê a hora de largar. Eu acho que é euforia de todo mundo, até mesmo o
atleta profissional bate este friozinho na barriga, e quando a gente entra lá
no “furgão de largada” não vê a hora realmente de sair e de largar. É isso que
acontece comigo.
7)
Emoção, desabafo... Missão cumprida!
8)
Na realidade não só do corredor fundista mas de
qualquer atleta: o objetivo maior dele o esporte sempre fala mais alto, está na
veia dele ele têm isso como uma filosofia. A minha filosofia é praticar
esporte, seja ele qual for, qualquer modalidade. Respondendo a tua pergunta
mais claro eu acho que o objetivo corredor fundista, ou seja, a filosofia dele,
é conquistar, quebrar recordes e vencer obstáculos.
9)
Em tudo que se vai fazer têm uma parte negativa, mas o negativismo está dentro da pessoa:
quando você é uma pessoa otimista que não olha para as barreiras, para as
dificuldades você consegue vencer qualquer obstáculo. Mas eu acho que o maior
deles, principalmente para nós atletas amadores, é a falta de oportunidade.
Infelizmente o nosso país investe muito pouco no esporte e às vezes acaba
desvalorizando o mérito de muitos atletas amadores, nós temos muitas estrelas
perdidas aí.
10)
Depende muito da prova, a São Silvestre, por exemplo, é
subir a “Brigadeiro”. O mais difícil durante a prova é você resistir, porque em
determinadas circunstâncias o desgaste é muito, e às vezes por falta de
preparação a pessoa acaba desistindo. Eu particularmente só participo de uma
prova quando estou interaço, porque eu tenho que ir até o final, mas o mais
difícil é resistir.
11)
Já vi vários fatos que eu não achei interessante pelo
seguinte: Porque, no rio mesmo em 1998 infelizmente eu presenciei um
acidente onde envolveu várias pessoas e
acabou fatalmente morrendo um atleta, isso foi uma coisa que me chamou muito a
atenção até pelo fato da organização, a gente vê que infelizmente têm um
descaso nessa parte do “povão”, que nós atletas amadores que fazemos uma festa
bonita, aquela coisa maravilhosa e têm um descaso. Na realidade existe uma nata,
para eles é considerado aquela elite e nós que fazemos a festa bonita,
maravilhosa às vezes temos um descaso por parte da organização. Acredito que
deveria ter uma organização mais rígida, mais séria.
12)
Não têm.
13)
Engraçado é o que você vê muito na São Silvestre, as
grandes figuras ilustres que correm: Papai Noel, homenagens. Na realidade o
povo brasileiro é alegre por natureza, é um pessoal que sorri às vezes da
própria miséria. A gente vê muitos eventos bonitos, muitas pessoas homenageando
ídolos como Airton Senna, o próprio Pelé, já vi muitos caras correrem uma
maratona inteira fazendo embaixadinha, outros de Papai Noel, de palhaço. Achei
aquilo ali muito legal, me chamou muito a atenção.
14)
Saúde e paz, o resto nós corremos atrás.
15)
É difícil falar, limites existem, barreiras,
obstáculos, recordes, mas está sendo tudo “quebrado”. Maratonas da morte,
ultramaratonas, o ser humano têm uma capacidade muito grande, eu acho que o ser
humano é sem limite.
16)
Cada caso é um caso, e têm que ser observado de maneira
à parte. Com relação à religião eu não gosto de falar ou de citar até porque
religião eu considero como uma roupa: cada um gosta de se vestir de uma maneira
e religião cada um escolhe a sua, mas eu acho que não interfere, a partir do
momento que a pessoa sabe discernir uma coisa da outra a religião não
interfere.
17)
É o que eu te falei antes, a falta de oportunidade.
18)
De estar lá participar e concorrer.
19)
Aquela que eu chego no final.
20)
José Nazareno da Silva, 31, São Bernardo do Campo.
O – Entrevista décima quarta
/ Com o corredor Benedito José Lustosa Neto
1)
Primeiramente para manter minha saúde, e também porque
eu gosto.
2)
Embuguaçú.
3)
25 quilômetros por dia, na base de 3’30 / 3’40 por
quilômetro.
4)
É uma prova muito importante, em que você têm que estar
preparado para correr ela consciente e fazer tempo, para isso a gente se
prepara durante o ano. Tenho 56 ( 2h. 56min. ) do ano passado e pretendo
abaixar para 54 neste ano.
5)
Não.
6)
Nervoso, antes da largada você se sente muito abalado,
mas durante a largada você se sente feliz, um cara realizado.
7)
Principalmente a chegada onde você está vendo o
resultado do seu trabalho.
8)
Treinar com muita “garra” com o objetivo de vencer.
9)
Na minha pessoa não.
10)
O mais difícil é a largada, porque às vezes você se
encontra com dificuldade de dar a saída, depois você já passa a fazer o
trabalho de concentração, manter o ritmo e fazer o que você acha melhor para a
prova.
11)
Já aconteceu de muitas vezes estar correndo uma
maratona de 42Km, que eu tenho 2:53:29 na maratona de São Paulo, nos 35Km. eu
me senti um cara não capacitado para terminar a prova, e querer desistir da
prova, devido ao cansaço físico e até mesmo do treinamento que eu fiz e não
fazer um bom resultado: querer desistir.
12)
É como antes.
13)
Engraçado é que quando você está para competir uma
prova você não consegue dormir, fica muito ligado. No caso da São Silvestre
estou com 3 dias que não durmo. Fica preocupado com o momento da saída, da
largada da prova.
14)
A mensagem que eu desejo para todos os corredores é que
entre um ano com muita paz e alegria no coração de todos que a violência venha
a diminuir a cada dia que passa no nosso país.
15)
Não existe! É o preparo, têm que se preparar para cada
prova... Cada prova é uma história: 10Km. é uma, maratona é uma, ultramaratona
é outra. Nós temos que nos preparar para cada prova.
16)
A religião nenhuma. Desde a hora que você passa a crer
que há um mediador que pode todas as coisas, que é o senhor Jesus, que está
acima de tudo.
17)
Nenhuma, eu creio que para min só vem alegria.
18)
Não foi proferida esta pergunta.
19)
10Km.
20)
Benedito José Lustosa Neto, 44 anos, São Paulo.
P – Entrevista décima quinta
/ Com o corredor Luís Carlos Casimiro
1)
Para manter bem a vida.
2)
Treino com uma equipe em Brasília, no parque da cidade.
3)
Depende: 3a e 5a eu faço pista, 2a
é descanso 4a, 6a, sábado e domingo em torno de uns 60km.
4)
Muito desgastante, têm que ter muita perna e
psicológico para completar a maratona.
5)
Não: prazer existe, mas o desprazer são as contusões
que você adquire nos treinamentos.
6)
Não têm como explicar, é um sentimento, uma emoção
muito grande do que você se preparou em todo este tempo.
7)
A chegada é uma emoção triplicada: muito grande.
8)
Para min, eu não sou fundista, mas acredito que é muita
determinação.
9)
Se o cara não se
preparar vai acontecer coisas no futuro que vão prejudicar a velhice dele:
encurtamento muscular, osteoporose, deficiência vitamínica e assim por diante.
10)
Mais difícil é correr
quando uma “lua” está como esta aqui hoje: quase 38oC.
11)
Não têm assim... Mas a emoção do público é muito
grande, e coisas desagradáveis graças à Deus até hoje não me ocorreu.
12)
Não têm.
13)
Durante a minha primeira maratona eu não acreditava que
as pessoas conseguiriam comer melancia durante uma prova, e é imprescindível:
as pessoas comem melancia mesmo.
14)
À todos os corredores: Que façam um bom treino! E que
por mais que você não queira competir você acaba competindo, mas não ultrapasse
seu limite, não vale à pena.
15)
Isso depende muito de como foi a preparação dele, às
vezes ele atinge um limite em que ele vai conseguir superar aquilo que jamais
pensou que ia superar.
16)
Isso eu acho que depende de cada profissional com sua
religião específica. Acredito que se você têm uma religião o treinamento não
vêm impedir.
17)
O que provoca tristeza é que muitas pessoas são
carentes: às vezes não têm tênis para correr, não têm uma ajuda que poderia ser
financiado pela secretaria de esportes, estimular o esporte, diminuindo os
moradores de rua e não tendo violência urbana.
18)
A chegada é alegria para todos.
19)
Maratona de Blumenau, fiz em 3h 35min.
20)
Luís Carlos Casimiro, 44 anos, Brasília.
Q – Entrevista décima sexta
/ Com o corredor Samuel Souza Martins
1)
Porque eu gosto: Tudo que é esporte eu estou fazendo.
2)
Treino na praia de “Caraí” em Niterói.
3)
Por dia eu não corro, até por falta de tempo, por causa
do meu trabalho. Quando eu vou correr eu corro 10 quilômetros no mínimo. Eu
tenho o costume de correr pelo menos duas vezes na semana.
4)
Eu acho legal, só que eu acho que para min não serve.
Até por falta de tempo para treinar.
5)
A dor é normal, você têm um certo limite se ultrapassar
este limite vai ter um pouco de dor, mas é normal: com certeza isso daí a gente “leva de letra”.
6)
Ansiedade, não estou vendo a hora de começar isso logo
para passar essa ansiedade logo de vez.
7)
Na chegada você está correndo, correndo não quer ver a
hora de acabar e falar: - Ufa! Cheguei, consegui.
8)
Não vou saber te responder.
9)
Para min não.
10)
São tipo esses percursos de subida, quando você começa
a correr têm que diminuir um pouquinho o ritmo, até porque nós somos atletas
anônimos e não estamos acostumados a correr diariamente como o pelotão de elite
corre, enfim: nós não vivemos disso. Eles vivem disso, para eles não têm
problema para a gente já força um pouco.
11)
Eu senti uma sensação muito legal quando eu corri a
primeira vez, foi lá em Belo Horizonte na Pampulha no ano passado, foi uma
coisa assim... eu estava todo quebrado, nunca tinha corrido na vida, mas eu
falei: - O ano que vêm eu vou estar correndo de novo, não sei se é em São
Paulo, se é na maratona do Rio, mas eu vou correr! E corri este ano no Rio, na
meia maratona e agora eu estou aqui e vamos completar a prova se Deus quiser.
12)
Acho que não têm.
13)
Também não têm.
14)
Que todos os participantes tenham uma boa sorte, e que
todos venham a praticar esportes porque é muito saudável: o nosso organismo
precisa muito de saúde principalmente da prática de esportes.
15)
Existe, mas este limite depende de cada um, tipo cada
um têm um limite.
16)
Eu acho que nenhuma, quando a pessoa quer ela vai e não
têm religião que impeça.
17)
O esporte para min só traz alegria, não traz nenhuma
tristeza.
18)
Muitas coisas, só o fato da gente estar aqui para min
já é uma alegria muito grande, imagina para este pessoal que vêm e longe, viaja
2/3 dias aí. Para eles estarem aqui já é tudo.
19)
Para min foi a do Rio, a meia maratona este ano, por eu
estar morando lá agora, correndo na praia era meu sonho correr numa corrida
assim... A Pampulha também foi muito boa porque foi a primeira mas a do Rio
este ano foi melhor.
20)
Samuel Souza Martins, 26, Rio de Janeiro.
R – Entrevista décima sétima
/ Com o corredor Denpsey Lima Filho
1)
Comecei a correr pelo incentivo que surgiu de um
problema que eu tive que caí de uma moto
há 25 anos, e quando me machuquei engordei até 120Kg. Me senti envergonhado,
comecei a cuidar de min, aos poucos fui recuperando, hoje estou com 73Kg.
2)
São João do Miriti, Duque de Caxias no Rio de Janeiro.
3)
Por dia uma média de 20Km.
4)
É uma prova que têm de ter um maior incentivo ao atleta
amador.
5)
A dor é um desprazer para nós, o atleta não pode sentir
dor porque atrapalha ele no rendimento.
6)
Emoção. Mesmo acostumado a correr, sendo um atleta
internacional ( Já corri em Nova York ) a gente sente a vontade de iniciar,
vontade de prosseguir, mesmo treinado uma pequena insegurança, medo de
cair não completar o percurso e não
levar a medalha que é a nossa realização.
7)
É tudo na vida da gente. Porque a gente vêm aqui com
esta finalidade, conseguir concluir, e com o incentivo do povo a gente têm um
pouco mais de força, consegue fazer um “sprint” para pegar a medalha, chegarmos
onde nós moramos e poder comprovar que nós participamos da São Silvestre.
8)
O fundista deve se preparar muito, muito, muito. Porque
é muito difícil concluir uma maratona como eu: Denpsey de Lima Filho 35
maratonas.
9)
Um dos maiores aspectos negativos da corrida é a falta
de água.
10)
Para nós que temos de viajar é a situação financeira.
11)
O que me ocorreu foi uma sensação, nos Estados Unidos,
onde eu pedi a ajuda à Deus que melhorasse o tempo que eu não estava resistindo
ao frio, e graças à Deus me ajudou e eu consegui concluir a prova.
12)
No dia da meia maratona do rio minha mãe faleceu. Foi
uma dificuldade, mas quando me pediu para min prosseguir, para não deixar para
trás eu fui, concluí e voltei para o enterro dela.
13)
O que é mais bonito são os companheiros nossos que se
vestem a rigor dando esta alegria, esta renovação à corrida: o homem árvore o
anjo...
14)
Eu queria incentivar com meus 58 anos que todos os
jovens praticassem esporte. O esporte afasta das drogas e as drogas exterminam
o ser humano.
15)
É difícil limitar. O corredor de longo distância têm
que cada vez treinar mais para conseguir completar os 42Km.
16)
Negativo.
17)
É a falta de incentivo.
18)
Concluir qualquer prova.
19)
É a de revezamento do Rio de Janeiro.
20)
Denpsey Lima Filho, 58, Rio de Janeiro.
S – Décima oitava entrevista
/ Com o corredor Carlos
1)
Faz parte da minha vida este esporte que é o atletismo.
2)
Em Campinas com uma equipe.
3)
Uma média de 60Km. por semana.
4)
A maratona é uma prova muito boa. Já fiz minha 4a
maratona internacional de São Paulo, em 2003 quero completar a 5a
prova na minha carreira.
5)
Quando eu comecei depois de concluir a prova, por não
ter tanto costume de correr uma maratona, sentir um pouco de cansaço físico.
Concluía a prova cansado, no dia seguinte eu já estava recuperado para dois ou
três dias depois já estar na rua treinando.
6)
Depois que eu passei a fazer provas de nível
internacional como a São Silvestre, a maratona internacional de São Paulo, meu
sentimento se torna normal, na hora de largar 10/15 minutos antes já estou
atento esperando. Me concentro e aguardo a largada, há o interesse de fazer a
prova, começar e terminar ela.
7)
Durante a chegada a emoção bate mais forte porque a
gente está quase chegando para encerrar o percurso, a gente percebe que têm
muita gente ao redor, a torcida, o povo e o público dando os aplausos para a
gente, isso é muito bom é o povo que incentiva a gente.
8)
O corredor sempre pensa em coisas boas, em praticar,
nunca em parar, nossa vontade é continuar. Amanhã já estamos treinando para o
que está na agenda para 2003. Nunca esquece a prova.
9)
Às vezes, quando a gente está em inicio de carreira,
você quer correr e às vezes o seu lado financeiro não está bem. Você vai então
pedir o apoio de um patrocinador, as portas às vezes estão fechadas
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