Cap. 19 – O TREINO EM EQUIPE.
Lembrança não é simplesmente acessar um banco de imagens fixas e sons
imutáveis.
Um dos
grandes segredos para o sucesso de uma
fase de treino ou mesmo para o período competitivo, é que o atleta tenha o
apoio de uma equipe, o suporte doado por uma equipe é de grande estímulo para
um corredor, mesmo que este goste de treinamentos solitários. Ocorre que em
muitos treinos individuais perdemos o ritmo pela falta de estímulos
extrínsecos, e por assim dizer baixa a velocidade, no caso de treinar em equipe
há um estímulo mútuo em que um integrante ajuda o outro e assim por diante,
fazendo com que seja mais agradável estar no treino
Cria-se no
atleta um sentimento e a idéia de equipe, pois este sente-se completo quando
está naquele treino, como se fosse parte de um todo, o que na verdade é. Pois
este sentimento de equipe traz um estímulo tal como têm as pessoas patriotas,
que sentem-se unidas pelos laços territoriais, criando assim se preciso as
guerras, igualmente como nestes casos ocorre com as equipes que competem uma
com as outras, querem saber qual delas é a melhor, fato constatado pela própria
sociedade, que em tudo o que é criado há um sentido competitivo, e como não
haveria de ser há nas equipes este sentimento de competição. Nas próprias
organizações das corridas há prêmios para as melhores equipes.
No que tange à
alacridade dos integrantes das equipes algo podemos dizer, pois o ser humano em
suas relações sociais cria diversos artifícios de comunicação sendo um deles a
palavra e outro a corrida, através da expressão corporal. A palavra é
originaria de sinais criados pelo ser humano, com significados diversos, e a
corrida já transmite o próprio significado, que pode ser vontade, superioridade
ou inferioridade. Estamos aqui no geral, dissertando sobre comunicação,
especificadamente sobre a comunicação interna de uma equipe. Todos comunicam-se
entre si no intuito de fortificarem os laços de sentimento de integração.
As relações
humanas são baseadas na comunicação, uma equipe seria então um sentido de união
de relações humanas já que é comum estas pessoas se comunicarem. O interessante
é que até a falta de comunicação pode ser considerada um tipo de comunicação,
vejam bem leitores no capítulo 4, tópico
D que refere-se à indiferença para com os adversários, às vezes quando
estamos muito concentrados na corrida se quer olhamos nos olhos de ninguém, em
primeiro para mostrarmos que estamos levando o treinamento à sério, em segundo
para não demonstrarmos o quão cansados e fatigados estamos. Este tipo de
concentração já é em si um tipo de comunicação, seja para com a minha própria
equipe como também para com a equipe adversária, e neste contexto vemos que
este atleta está querendo dizer: - Sai da frente, não vê que estou levando meu
treino à risca? Notamos que muitas vezes
este tipo de comunicação parece penetrar no antro do comunicado, pois a
seriedade transmitida por movimentos corporais e expressões faciais são de força
extraordinária se comparados com a comunicação verbalizada, mesmo que seja sem
a utilização dos olhares já que estes são voltados sempre para frente.
É muito
interessante este assunto de comunicação corporal, que com certeza o corredor possui, já que no
momento em que corre ele é corpo, interessante foi a retratação anterior em
relação ao corredor que impõem sua grandiosidade e seriedade através da
corrida, é possível que pensemos que já que este corredor não olha nos olhos
dos circunstantes que estão no local de seu treino ele seja uma pessoa
mesquinha e sem princípios. Afirmação esta que faz bastante sentido já que é
através dos olhos que transmitimos nossos verdadeiros sentimentos, medos e
estados de espíritos. Ocorre que este corredor não quer justamente se envolver
emocionalmente com as pessoas que estão ao seu redor e por isso faz isso, não
que ele seja uma pessoa insensível ou mal educada , fato bastante comum,
segundo minha visão, em corredores de elite, que como que instintivamente
utilizam-se deste princípio, sem que técnicos ou outras pessoas os houvessem
precavido deste interessante recurso de concentração.
É bastante
comum nos depararmos com a situação supracitada, é também uma forma de atuar
que impõem respeito e seriedade, não importando a velocidade que o corredor
assume e sim a própria atitude que este têm perante os transeuntes.
Perante a
equipe ocorre situação semelhante, pois o respeito que você adquire perante os
colegas depende unicamente da postura que você assume tanto nos treinos quanto
nas conversas adjacentes.
O treino em
equipe é portanto um treino em que se inserem uma série de relações sociais,
que no caso divergente do treinamento solitário não ocorrem, ou ocorrem em uma
menor constância se considerarmos que um corredor pode estar em comunicação
corporal com outros corredores que não conhece em um mesmo parque.
Comunicação é
um tema bastante interessante, notamos que há comunicação corporal através de
uma série de expressões. Julgo que os olhos, juntamente com os sobrolhos
constituem a principal ferramenta de comunicação, expressam tudo aquilo que
sentimos, entretanto é inevitável que em tudo aquilo que fazemos recheamos com
nossas peculiaridades, é óbvio que por isto cada um corre de maneira
específica.
Sem abster-me
do tema, ou já tendo abordado um de seus esquivos assuntos, continuarei dizendo
que o treino em equipe traz um sentido que chega a ser político até. Com uma
hierarquia específica: aqueles são os principiantes, os outros são da elite,
fulanos são os preguiçosos e cicranos são os exagerados. Assim as interações
sociais são ambientadas numa complexa rede de interesses, vontades, desejos,
prazeres e brincadeiras. Fazendo com que nós, em nossos estudos caiamos
inevitavelmente no campo da psicologia.
Assim, não é
somente um corredor que corre, e este sente-se unido, ligado, vinculado à uma
estranha ordem política social, que dá um novo sentido à seus pensamentos. É
como o sentimento de patriotismo, algo que é abstrato, uma idéia, não obstante
uma idéia real com sentido e nexo. Isto é o que se nota numa sociedade, na
sensação ou ideologia de dizer: aquela pessoa é assim, aquele outro é assado e
por isto me porto desta maneira específica com cada qual, tenho os sentimentos
de vínculos específicos com cada qual. O mais estupendo é que nos seres humanos
esta noção de vínculo é guardada mesmo a pesar de não vermos a outra pessoa,
uma idéia abstrata que se desenvolve e fica mais forte com o passar do tempo.
No intuito de aprofundarmo-nos neste tema, e para concretizar nosso caminho à
metafísica, dissertaremos agora algo à respeito dos vínculos, e principalmente
desta abstração que se chama sociedade, vínculo ou equipe, relacionando-a com a
lembrança e memória:
A –
Considerações à memória, lembrança e abstração de vínculos sociais:
Existem
aspectos morais, sentimentos que indicam uma pessoa de caráter elevado em
lembrar e dar valor às pessoas conhecidas. Uma demonstração de sentido de
vínculo existente entre as pessoas através de lembranças e sentimentos isto é:
amizade, amor e valorização de momento passados juntos.
Chorar,
sorrir, lembrar, sentir, vivenciar novamente um sentimento, um momento,
retornar ao passado que logo se torna presente, logo tempo não existe, tal como
o espaço, não se chora de saudades, mas sim pela re-vivência dum momento.
A questão dos vínculos
julgo de supra importância, devemos cultiva-los como à uma planta, e logo
sempre rega-la com água cristalina. São as cartas, as palavras bem colocadas,
as frases bem estruturadas, os parágrafos bem direcionados, e principalmente:
os sentimentos sinceros.
Estes vínculos
são nada mais que a expansão do eu para o você. O quê significa dizer eu gosto
de você? Eu quero criar um vínculo com você? Seria a auto-afirmação: Eu tenho
um vínculo com você? Eu e você temos algo ( uma situação ou sentimento ) em
comum? O quê é gostar de outro? O quê é vínculo? Eu e você nos tornamos
ligados?
É sair do eu e
ajudar o outro com altruísmo e abnegação de si mesmo: É amar!
Amar: Isto é a
amizade.
Ter amigos e
acima de tudo saber cultiva-los é o ato mais sábio, inteligente e perspicaz que
um ser humano pode praticar! Mais belo e sublime, enaltecedor e sentimental,
enobrece o caráter dando um sentido superior à vida ( muitas vezes mesquinha,
pessoal e egocêntrica ). De si mesmo nada podemos aprender que não passe de
estapafúrdia ilusão, a menos que passemos à outrem o que construímos não
nos sentiremos realizados.
Passar à
outrem é cultivar vínculos, é amor e amizade, é o que dá sentido maior à
vida.
Lembrar é
“entrar neste vínculo”, vivenciar o outro esquecendo-se de si, ou vivenciar um
meio termo entre si e o outro, algo que esteja em um ponto central.
Amizade:
Sensação, noção, idéia, é noção abstrata, que só é fisicamente vista em atos.
Mais forte, por muitas vezes que qualquer relação amorosa.
Esta “Noção de
vínculo”, quanto mais profunda mais indica um processo de formação de
personalidade séria, forte e da formação de um indivíduo preocupado com os que
o cercam, com aqueles com os quais cria laços afetivos ou até ideológicos
independente de tempo ou espaço. Pois o artifício de lembrar estará
sempre à sua disposição, basta que tenha vontade, ardor, motivos e sentimentos
para buscar a vivência da lembrança.
Tal como a
música a lembrança traz consigo sentimentos, justo porque não é um artifício
morto, mas sim mais vivo que nunca naqueles que sabem e apreciam dar cada vez
mais valor e profundidade à noção de vínculo com o outro. As lembranças são,
portanto, submetidas ao caráter e experiências da pessoa que lembra, por isto
lembrança não é simplesmente acessar um banco de imagens fixas e sons
imutáveis, algo estagnado, mas sim um acontecimento ligado tanto ao passado
quanto ao tempo e as outras experiências de vida que transcorreram desde então.
Assim, as idéias, sentimentos, pensamentos e sensações estão submetidos à uma
série de mudanças que ocorreram.
E cada vez
que se lembra tudo mudará, porque o indivíduo está em constante aprimoramento
intelectual, moral, sentimental, ideológico, físico e espiritual. Portanto a lembrança
é algo que está no presente, logo o passado não é estagnado, e
psiquicamente poderíamos dizer que ele muda constantemente, como faz o
presente. Para a consciência não existe o tempo tal qual julgamos ser uma
sucessão de fatos que caem com tinta que não pode ser apagada, mas sim é como
se o próprio passado caminhasse em suas mudanças como faz o presente. O tempo é
uma só coisa! As nossas próprias expectativas do futuro estão em constantes
mudanças, por certo o futuro não é delineado, e muda conforme mudamos nossas
pretenções.
O tempo não
existe como num livro em que as palavras escritas sempre serão as mesmas.
Mesmo os
livros, podemos tomar como exemplo, quando submetidos ao gênio transtemporal
dos humanos mudam em idéias, sensações, emoções e até sentido à cada vez que os
lemos. ( É óbvio que me refiro aqui à ler o mesmíssimo livro de tempos em
tempos, julgo que o leitor, sendo prodigiosamente inteligente, numa proporção
consideravelmente maior que o escritor, não tenha sequer necessitado de um
parêntesis que além de petulante representa uma extraordinária tolice. )
A “Noção de
vínculo” acompanha as mudanças de cada um, por isto deve-se cultivar uma
relação para que ela dure tão bela quanto começou, do contrário ( se não
transformasse-mos com o passar do tempo nossos gênios ) não seria necessário
cultivar relações, sempre seriam belas, o tempo neste caso não transcorreria.
De certa
forma caríssimos leitores, com o devido respeito, entramos na questão
metafísica de tempo, e de uma maneira ou de outra chegou-se à mesma conclusão
de Albert Einstein, em que o tempo não é linear. É claro que aquele que se põem
à dissertar sobre as questões metafísicas têm grandes chances de chegar às
conclusões iguais à de outro, pois a origem de cada verdade só pode ser uma. É
certo que o tempo, pois, não transcorre numa só linha, é como se para cada
momento de nossas vidas houvesse uma linha de tempo específica que se
desenvolve juntamente com muitas outras que são criadas durante toda a vida,
pelo motivo de nossa constante formação. O que traz à tona uma complexidade
surpreendente, e supostamente um abismo que diferencia estas idéias filosófica
e a simplicidade da idéia de tempo impregnada na sociedade em geral.
B – Conversa com
o tempo. ( Caminho à metafísica. )
A verdade é
que não só sangro por dentro como também este sangue vermelho, quente, vivo se
expande à todos aqueles que já conheço e estimo. O sangue que representa minha
essência, o calor de minha alma, o eu.
A tristeza me
invade, aliás, neste momento eu sou a própria tristeza. Saudade de outros é uma
estranha e entristecedora sensação, pessoas que estimei de sobremaneira agora
não mais se comprazem com a união de nossas idéias, sonhos e ideais. Por isto
estou triste, cabisbaixo e pensativo, diria até que não estou onde dever-se-ia
pensar que estou, mas sim num passado longínquo, distante no tempo e no espaço.
Ó infeliz solidão! Logo a vontade de vivenciar, ser a mais mundana das pessoas,
conhecer coisas novas, outras sensações, ir para lá e de lá para cá, não parar,
conhecer, sempre conhecer. Sim! A base da vida está na experiência e não na
teoria. Mas que estúpido sou, como demorei tanto tempo a perceber isto? Hoje
mesmo queimarei obstinadamente e se possível até sarcasticamente todos os meus
livros, escritos, jornais, revistas, manuais, rótulos de que quer que seja e
até as bulas de remédio. Sim: vejo e concluí sabiamente que as palavras nada
são senão ilusões e abstrações da própria vida, conseqüentemente o importante é
vivenciar, e não ficar em devaneios mórbidos e abstrações alucinantes. Quero
viver! De uma vez por todas, nada mais me interessa a partir deste momento. Não
seria a própria lembrança uma espécie de abstração da realidade? Claro... logo
quero excluir quaisquer lembranças de minha mente, pois o importante é
vivenciar. Assim, no entanto, minha vida perderia nexo, não iria concatenar as
vivências com um sentido maior.
Não, não...
Só posso estar louco. Como posso querer esquecer a tudo? Como posso parar de
refletir sobre o que vivencio, e não saber qual o rótulo das coisas
simplesmente me preocupando com os sabores. Sim: as vivências são sabores de
várias coisas que experimentamos, e os rótulos são constituídos de palavras que
se formam através de reflexões. É melhor preservar o rótulo, para não viver no
processo de tentativa e erro.
Vou então
chorar amargamente a saudade, pois o que passou passou e não mais retornará.
Talvez esta seja justamente a peculiaridade mais interessante da lembrança: ela
não retorna, ou melhor: a lembrança pode retornar muitas vezes, o que não volta
é o momento vivido. Se fosse possível retornar um momento talvez não houvesse
graça nas lembranças, e elas seriam coisas corriqueiras e chatas justamente
porque sempre achamos que nossas vidas são corriqueiras e chatas. É como se o
passado fosse mais atrativo, interessante, mágico e por isto perturbador da
psique que o presente. Damos uma magia muito especial ao passado e nada de
“magia especial” ao presente. O presente por certo deve estar sempre
insatisfeito e indignado conosco por isto.
Vos direi
agora porque o passado perturba a psique: O pretérito não é um passado
consumado, mas sim um passado ativo. E como o passado já ocorreu há muito tempo
diz-se que é mais experiente, vivo e ativo que o presente. Digamos que o
pretérito é de um caráter mais formado que o presente, e por isto mexe mais
conosco. Digamos metaforicamente que a cada momento de nossas vidas estamos
criando uma linha que é continuamente riscada formando um longo e inacabável traço, a linha mais antiga, como foi criada antes é
mais comprida e por isto mais profunda em nossa consciência. A tristeza que se
têm de momentos passado é devida à maior ênfase e ao maior contato que temos
com o passado, pois o passado, por não ser consumado, viveu conosco todos os
momentos que se passam depois de ele haver ocorrido, por isto também diz-se que
pelo motivo de que o passado sempre vive conosco ele é presente.
O sangue que
se esparge de min é portanto a representação da maior intensidade do passado.
Pode-se dizer então, mediante tudo que foi discorrido, que o passado é mais
real que o próprio presente, porque é mais intenso, profundo e comovedor. Isto
demonstra racionalmente o motivo pelo qual o passado têm uma certa mágica,
antes referida.
No entanto,
após o progresso intelecto-racional de minhas mais profundas vivências se
expande o sangue da lembrança, a tristeza e languidez me invadem. Quê fazer?
Não, nada a fazer senão chorar...
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